Quando entregadores de aplicativo paralisaram suas atividades no Breque Nacional de 2024, não interromperam apenas a circulação de hambúrgueres, remédios e compras de supermercado. Tornaram visível uma contradição que normalmente aparece escondida sob a tela do celular: quanto mais a produção e a distribuição dependem de conhecimentos coletivos, redes digitais, geolocalização e cooperação social, menos quem faz o trabalho controla as condições em que ele ocorre. A plataforma se apresenta como mera intermediária tecnológica; a rua mostra que ela organiza uma relação de exploração.
O pedido chega ao restaurante, um sistema calcula trajetos, outro distribui chamadas, mapas orientam a rota, pagamentos digitais registram a transação e avaliações medem a conduta de cada trabalhador. Nada disso seria possível sem uma enorme acumulação social de ciência, infraestrutura pública, trabalho de programação, satélites, telecomunicações, logística urbana e conhecimento produzido por milhões de pessoas. Mas o entregador, elo indispensável dessa cadeia, arca sozinho com a bicicleta ou moto, combustível, manutenção, acidente, chuva, assalto e tempo de espera. A inteligência coletiva que tornou possível o serviço retorna a ele como comando privado, opaco e impessoal.
É nesse terreno que as forças produtivas deixam de ser uma expressão escolar e passam a descrever uma experiência cotidiana. Elas não são uma abstração celebratória sobre inovação. Designam capacidades humanas e meios técnicos que ampliam o poder de transformar a realidade. No capitalismo de plataformas, porém, essa ampliação não significa automaticamente redução da jornada, segurança material ou autonomia. Pode significar o contrário: mais entregas em menos tempo, vigilância contínua, remuneração variável e disponibilidade permanente. A mesma técnica que poderia aliviar o esforço humano é dirigida para intensificar sua exploração.
O algoritmo não elimina o patrão; torna seu poder menos visível
A propaganda empresarial chama o entregador de parceiro e trata a plataforma como uma ferramenta neutra de encontro entre consumidores, restaurantes e trabalhadores autônomos. Essa linguagem é ideologia no sentido forte: não apenas uma mentira isolada, mas uma forma de organizar a percepção para que uma relação social pareça natural. Se ninguém parece dar ordens, parece que não há patrão. Se o trabalhador pode apertar o botão e ficar online, parece que escolhe livremente sua jornada. Se recebe por entrega, parece empreendedor.
Mas a liberdade formal de conectar-se ao aplicativo convive com uma coerção material brutal. Quem depende daquela renda precisa aceitar tarifas definidas unilateralmente, percursos determinados por sistemas que não pode auditar e bloqueios ou punições cuja lógica frequentemente desconhece. A plataforma administra a distribuição das corridas, a reputação, os incentivos e o acesso ao próprio trabalho. Ela não precisa de um supervisor gritando no galpão quando o celular já conduz, mede e classifica o corpo que pedala.
Marx mostrou que a maquinaria não deve ser compreendida somente como um conjunto de objetos técnicos. Sob o capital, ela é também uma forma de comando sobre o trabalho. A plataforma atualiza esse problema. O algoritmo não é um sujeito autônomo, nem uma força sobrenatural: ele condensa decisões empresariais sobre custo, ritmo, prioridade e lucro. Quando reduz o valor pago por uma entrega ou induz o trabalhador a permanecer mais horas conectado para alcançar uma meta, não está obedecendo a uma inevitabilidade tecnológica. Está executando uma estratégia de acumulação.
A técnica poderia organizar a abundância social; sob a propriedade privada, organiza a escassez de tempo, renda e proteção para quem trabalha.
Mais produtividade, menos tempo livre
Há uma promessa recorrente em cada onda tecnológica: a de que máquinas e sistemas inteligentes libertarão as pessoas do trabalho penoso. A promessa tem uma base material real. Se uma rede logística consegue coordenar milhares de pedidos em segundos, se sistemas de informação reduzem deslocamentos inúteis e se a automação executa tarefas repetitivas, há de fato um aumento da capacidade social de produzir e distribuir bens. O problema não é a produtividade. O problema é quem decide o que fazer com ela.
Nas relações capitalistas, o ganho de produtividade tende a ser apropriado como aumento de lucro, expansão do mercado ou pressão sobre o ritmo de trabalho. O entregador não recebe necessariamente mais por participar de uma rede mais eficiente; frequentemente precisa realizar mais entregas para alcançar uma renda minimamente previsível. O consumidor pode receber seu pedido mais rápido, enquanto o trabalhador absorve a urgência sob a forma de risco no trânsito. A conveniência urbana, vendida como progresso, repousa sobre uma transferência de custos para os corpos mais precarizados da cidade.
Essa lógica não se limita aos aplicativos. Ela atravessa o call center submetido a metas e monitoramento de tela, o professor pressionado por plataformas educacionais que multiplicam tarefas administrativas, a trabalhadora de supermercado controlada por indicadores de desempenho. Em todos esses casos, ferramentas que poderiam ampliar a cooperação e reduzir trabalhos repetitivos são incorporadas à gestão por produtividade. A tecnologia aparece como novidade; a relação fundamental permanece: quem possui os meios de organizar a produção controla o trabalho alheio e se apropria de sua parcela excedente.
O conflito dos entregadores é um conflito sobre a cidade e o futuro
O Breque dos Apps importou porque recusou a narrativa de que cada entregador é uma empresa isolada. A greve, ainda que enfrentando dispersão territorial, rotatividade e a ausência deliberada de vínculos reconhecidos pelas empresas, revelou uma condição comum. Trabalhadores separados por telas, bairros e trajetos perceberam que recebiam de um mesmo sistema de exploração. A cooperação, que a empresa mobiliza para produzir valor, pode converter-se em organização coletiva contra ela.
Essa passagem é decisiva. O capitalismo de plataforma depende de fragmentar a classe trabalhadora: um é “parceiro”, outro “prestador”, outro “microempreendedor”. A classificação jurídica e a linguagem do empreendedorismo procuram antecipar politicamente o conflito, retirando da exploração seu nome e de quem trabalha sua condição coletiva. Como argumenta Alysson Mascaro ao tratar da forma jurídica, o direito não paira acima das relações materiais como árbitro neutro; ele participa da reprodução de uma sociedade fundada na mercadoria, na propriedade e na separação entre trabalhadores e meios de produção.
Isso não quer dizer que a disputa por direitos seja irrelevante. Remuneração mínima, transparência nos bloqueios, proteção contra acidentes e reconhecimento de vínculo são conquistas necessárias. Mas elas encontram um limite se a infraestrutura que organiza o trabalho continuar sob controle privado. Uma plataforma pode ceder em regras específicas e conservar o poder de definir preços, extrair dados, reorganizar mercados e subordinar cidades inteiras à sua lógica. A questão, no fundo, não é apenas humanizar o algoritmo; é perguntar quem deve comandar as capacidades técnicas que a sociedade produziu.
O que muda quando a técnica deixa de servir ao lucro
Tratar as forças produtivas como problema político impede duas ilusões simétricas. A primeira é o tecnoutopismo, segundo o qual aplicativos, inteligência artificial e automação conduziriam sozinhos a uma vida melhor. A segunda é o tecnopessimismo que imagina ser necessário rejeitar a técnica para rejeitar sua forma capitalista de uso. Nenhuma delas enfrenta o núcleo da questão. Não é a bicicleta conectada, o mapa digital ou o software de distribuição que explora; é sua inserção numa relação social em que poucos proprietários usam recursos coletivos para comandar muitos trabalhadores.
O que muda, então, não é uma atualização moral das empresas nem uma cartilha de consumo consciente. Muda a luta pelo controle social das infraestruturas que já estruturam a vida comum. Muda a redução real da jornada quando a produtividade cresce, em vez da expansão da disponibilidade. Muda a garantia de renda e proteção para quem realiza o trabalho indispensável. Muda a possibilidade de trabalhadores conhecerem e deliberarem sobre os critérios algorítmicos que hoje os governam. Muda, sobretudo, a ideia de que eficiência deve ser medida pelo lucro de acionistas, e não pelo tempo livre, pela segurança e pela dignidade de quem produz.
O entregador parado diante de um restaurante, com a mochila nas costas e o aplicativo desligado, revela mais do que uma reivindicação setorial. Ele mostra que o desenvolvimento técnico não resolveu a luta de classes: deu a ela novas interfaces. A força produtiva que acelera a entrega pode também fortalecer a capacidade coletiva de interromper a circulação, exigir direitos e disputar a propriedade do mundo que seu trabalho mantém em movimento.
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