A Escola de Frankfurt não interessa apenas como capítulo de história da filosofia, uma sucessão de nomes alemães e conceitos prontos para vestibular. Ela interessa quando permite enxergar por que a escola brasileira, enquanto promete autonomia, tantas vezes treina crianças e jovens para a adaptação. A questão não é que professores estejam secretamente a serviço do capital, nem que toda sala de aula seja uma fábrica de alienação sem fissuras. A questão é mais estrutural: uma educação submetida à escassez, à avaliação produtivista, às plataformas e à propaganda do empreendedorismo tende a transformar o pensamento em competência mensurável e a crítica em ornamento curricular.
Quando Theodor Adorno e Max Horkheimer formularam a crítica à indústria cultural, não descreviam simplesmente uma cultura popular de má qualidade. O alvo era uma forma de produção capitalista da cultura que padroniza mercadorias e, ao padronizá-las, acostuma seu público à repetição. O consumidor parece escolher entre alternativas, mas encontra variações calculadas do mesmo produto, da mesma sensibilidade e da mesma ordem social. No Brasil, essa chave de leitura ganha corpo quando a escola pública, já exaurida por salários baixos, turmas cheias e falta de estrutura, é convocada a disputar atenção com um ecossistema de telas que vende diversão, opinião política e estilo de vida como se fossem decisões individuais livres.
Não se trata de culpar o estudante pelo celular, como fazem os moralistas que imaginam resolver o problema confiscando aparelhos. A tela é apenas a ponta visível de uma organização social. Aplicativos, redes e plataformas foram desenhados para reter atenção, extrair dados e converter presença em lucro. A escola chega a essa disputa sem recursos e, frequentemente, aceita os termos do adversário: adota ferramentas privadas, transforma participação em pontuação, mede aprendizado por painéis e chama essa submissão de inovação. A tecnologia deixa de ser objeto de investigação coletiva para virar destino técnico, algo que deve ser aceito porque supostamente representa o futuro.
A Escola de Frankfurt diante da sala de aula gerenciada
A crítica frankfurtiana é especialmente útil porque recusa a ideia de que a dominação se mantém apenas pela violência direta ou pela mentira grosseira. Ela também opera por prazer administrado, por rotinas, por expectativas e pela produção de conformidade. Adorno chamou atenção para a semiformação: uma relação com o conhecimento em que fragmentos de informação circulam sem se converter em elaboração crítica. Não é ignorância simples. É o acúmulo de conteúdos, opiniões e credenciais que dá ao indivíduo a sensação de estar informado, embora lhe faltem condições materiais e tempo para relacionar as partes, perguntar pela origem dos problemas e agir sobre elas.
É difícil não reconhecer essa dinâmica em uma escola pressionada a cumprir apostilas, indicadores, simulados e metas. O professor recebe uma sequência de conteúdos a entregar, relatórios a preencher e plataformas a alimentar. O aluno aprende que estudar significa responder corretamente dentro de um intervalo, não demorar-se numa pergunta que desorganize o sentido comum. A disciplina do relógio, já analisada pela crítica marxista do trabalho, reaparece sob linguagem pedagógica: produtividade, desempenho, evidência, resultado. A formação é reduzida à capacidade de circular no mercado, como se o mercado fosse uma paisagem natural e não uma relação histórica entre classes.
Essa redução aparece com nitidez na fala que exalta o “protagonismo” do jovem enquanto abandona as condições de sua existência. Um adolescente que precisa trabalhar, cuidar de irmãos ou atravessar horas de transporte não enfrenta o mesmo percurso de quem dispõe de computador próprio, quarto silencioso e cursinho. Mas a ideologia meritocrática converte desigualdade em deficiência moral: faltou foco, planejamento, resiliência, mentalidade empreendedora. A escola pode repetir essa violência ao tratar a sobrevivência precária como obstáculo individual a ser superado, e não como efeito de uma sociedade fundada na exploração do trabalho.
Quando a educação ensina a suportar a desigualdade como desafio pessoal, ela deixa de formar sujeitos e passa a administrar adaptações.
O vocabulário empresarial entrou na educação com enorme facilidade porque oferece uma fantasia de eficiência diante do colapso cotidiano. Secretaria sem verba, direção sobrecarregada e docente com contratos frágeis recebem plataformas que prometem organizar tudo. Mas organizar o quê, e para quem? Uma ferramenta que registra cada atividade pode facilitar tarefas concretas; o problema começa quando seu uso subordina a relação pedagógica a métricas externas, opacas e comercializáveis. O estudante vira perfil de desempenho. O professor, operador de sistema. A aprendizagem, dado passível de comparação. A promessa de personalização esconde a individualização: cada um recebe seu percurso, enquanto desaparece a pergunta sobre o que poderia ser aprendido e transformado em comum.
Da indústria cultural ao empreendedor de si
A indústria cultural brasileira não está fora da escola, esperando no fim da aula. Ela atravessa o imaginário que entra pelo portão: influenciadores apresentando riqueza como recompensa da autenticidade, vídeos de “rotina produtiva”, gurus financeiros vendendo independência antes dos vinte anos, cursos que prometem transformar qualquer pessoa em empresária de si. A figura do trabalhador explorado desaparece; em seu lugar surge o empreendedor que falhou porque não soube monetizar seus talentos. É uma ideologia conveniente para um país em que entregadores pedalam sob risco, motoristas arcam com os custos do próprio instrumento de trabalho e jovens aceitam ocupações intermitentes sem direitos.
O entregador de aplicativo é uma aula social que o currículo raramente encara de frente. A plataforma se apresenta como mera mediadora tecnológica, mas define preços, distribui corridas, controla reputações e pode bloquear trabalhadores. Ela concentra poder sem assumir a imagem tradicional do patrão. Ao mesmo tempo, anuncia liberdade: ligue o aplicativo quando quiser, seja dono do seu tempo. O jovem que vê essa publicidade aprende uma lição política antes de estudar economia: precariedade pode ser chamada de autonomia; ausência de direitos pode ser chamada de flexibilidade; submissão ao algoritmo pode ser chamada de escolha.
Marx mostrou que a liberdade formal do trabalhador assalariado convive com a necessidade material de vender sua força de trabalho. A versão plataformizada dessa contradição é ainda mais sedutora porque esconde a venda sob a estética da iniciativa individual. A Escola de Frankfurt acrescenta algo decisivo: não basta revelar a exploração no contrato; é preciso entender as formas culturais que fazem a exploração parecer desejável. O trabalhador não é coagido somente pela renda insuficiente. Ele é interpelado por narrativas que lhe oferecem identidade, pertencimento e esperança na própria engrenagem que o desgasta.
É também por isso que a extrema direita encontra terreno fértil em ambientes atravessados pela frustração social. O bolsonarismo não inventou o ressentimento produzido pela desigualdade, mas soube direcioná-lo. Em vez de apontar para banqueiros, grandes proprietários, empresas de plataforma e estruturas de classe, aponta para professores, artistas, servidores públicos, movimentos sociais, mulheres, pessoas negras e dissidências sexuais. A crítica à escola vira pânico moral; a defesa de pensamento crítico é caricaturada como doutrinação. O que se busca não é uma educação melhor, mas uma educação obediente, incapaz de nomear os interesses que organizam sua própria precarização.
Ensinar contra a adaptação não é vender redenção
Seria ingênuo imaginar que uma aula crítica, por si só, derrota a indústria cultural ou dissolve o capitalismo. A escola não está acima da sociedade que a financia mal e a captura ideologicamente. Professores também trabalham sob pressão, acumulam jornadas e frequentemente precisam usar os materiais disponíveis. A crítica materialista começa justamente por rejeitar a culpa individual. Não se combate a gestão empresarial da educação pedindo heroísmo permanente a quem já sustenta o sistema com trabalho invisível.
Mas há uma diferença entre reconhecer limites e naturalizá-los. Uma prática educativa comprometida com emancipação pode partir da experiência concreta: perguntar quem lucra com os dados coletados por uma plataforma; ler um contrato de aplicativo; comparar a propaganda de empreendedorismo com a vida de quem trabalha por entrega; discutir por que a falta de tempo para estudar é distribuída de modo tão desigual. Pode tratar a cultura popular sem desprezo e sem submissão, examinando suas formas, suas promessas e seus silêncios. Pode ensinar que nenhuma tecnologia é neutra quando está inscrita em relações de propriedade e poder.
A herança mais viva da Escola de Frankfurt, nesse sentido, não é uma senha acadêmica para distinguir iniciados. É a recusa de confundir adaptação com educação. Uma escola que prepara apenas para sobreviver à concorrência ajuda a reproduzir a ordem que condena milhões à sobrevivência. Uma escola que torna visíveis as mediações entre entretenimento, tecnologia, trabalho e classe abre uma brecha mais difícil: a de perceber que aquilo que parece inevitável foi produzido historicamente e, por isso, pode ser transformado coletivamente.
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