O proletariado brasileiro não desapareceu; perdeu a forma que o imaginário dominante aprendeu a reconhecer. Já não está concentrado apenas na fábrica, reunido diante de uma máquina e submetido ao apito de um supervisor. Ele pedala pelas ruas como entregador de aplicativo, atende chamadas sob metas cronometradas, leciona em contratos instáveis, dirige para plataformas e vende sua força de trabalho em intervalos cada vez menores. A novidade tecnológica não eliminou a classe trabalhadora. Tornou sua exploração mais dispersa, individualizada e difícil de nomear.
Essa dispersão cumpre uma função ideológica. Quando o trabalhador aparece como empreendedor, parceiro, prestador autônomo ou colaborador, a relação social que o coloca sob comando do capital é encoberta por uma linguagem de escolha individual. A empresa deixa de parecer empresa; o chefe vira aplicativo; a jornada se apresenta como flexibilidade. O trabalhador é responsabilizado pelo próprio fracasso, embora não controle os preços, o acesso aos clientes, os critérios de avaliação nem a distribuição das tarefas.
O proletariado além da imagem da fábrica
Em Marx, proletário não é simplesmente quem veste uniforme operário ou trabalha com as mãos. É quem precisa vender sua força de trabalho para sobreviver, porque foi separado dos meios necessários à produção de sua existência. Essa definição permite compreender a continuidade entre o operário industrial, a professora contratada por hora, o operador de telemarketing e o entregador que usa a própria bicicleta para cumprir ordens distribuídas por um sistema digital.
A forma concreta do trabalho muda, mas permanece a dependência fundamental. O entregador não possui restaurante, rede logística ou clientela própria. A professora não controla as políticas educacionais, o material didático ou o tempo necessário para preparar suas aulas. O trabalhador de call center não decide o roteiro, o ritmo das ligações ou os critérios que medem sua produtividade. Em todos esses casos, a sobrevivência depende da venda da capacidade de trabalhar, enquanto o resultado produzido é apropriado por empresas e instituições que controlam os recursos, os contratos e os mercados.
A tecnologia modifica o modo de organizar essa dependência. O algoritmo calcula rotas, define prioridades, registra recusas, classifica desempenhos e pode limitar o acesso a novas tarefas. Não se trata de uma inteligência neutra que apenas facilita encontros entre oferta e demanda. Trata-se de uma forma de comando incorporada à infraestrutura técnica. O aplicativo administra o trabalho sem precisar reconhecer plenamente a figura do empregador. A aparência de autonomia se torna o mecanismo pelo qual o controle é intensificado.
A autonomia como máscara da exploração
O entregador que fica conectado durante horas sem receber chamadas é apresentado como alguém que escolheu trabalhar quando quer. Essa liberdade é formal e frequentemente ilusória. Para atingir uma renda incerta, ele precisa prolongar sua permanência nas ruas, aceitar riscos e absorver custos que antes pertenciam à empresa: manutenção da bicicleta ou da motocicleta, combustível, telefone, equipamentos de proteção e tempo de espera. A plataforma compra o serviço quando lhe convém e transfere ao trabalhador o custo de estar disponível.
É nesse ponto que a noção de mais-valia continua necessária. A empresa não lucra porque o aplicativo possui uma essência mágica ou porque a inovação produz riqueza sozinha. Ela lucra ao organizar trabalho humano, controlar a circulação da mercadoria e apropriar-se de uma parcela do valor produzido. O código é importante, mas não entrega comida, não responde ao cliente, não dirige, não corrige uma prova e não sustenta a jornada. A tecnologia pode concentrar e acelerar a extração de valor justamente porque se apoia em trabalhadores cuja presença tende a desaparecer atrás da interface.
O discurso do empreendedorismo transforma essa exploração em prova de caráter. Se a renda é baixa, a culpa seria da falta de empenho. Se a conta é bloqueada, faltaria planejamento. Se o professor adoece por excesso de turmas, deveria organizar melhor seu tempo. A ideologia meritocrática converte desigualdades estruturais em falhas pessoais. Ela impede que trabalhadores reconheçam uma experiência comum e, com isso, dificulta a formação de solidariedade de classe.
O proletariado fragmentado e a política do isolamento
A fragmentação contemporânea não é apenas econômica; é também subjetiva. O trabalhador de plataforma não vê os colegas como companheiros de um mesmo processo produtivo, mas como concorrentes por uma corrida, uma entrega ou uma avaliação melhor. O professor contratado temporariamente disputa horas com outros professores. No call center, cada atendente é comparado em tempo real com a meta dos demais. A concorrência deixa de ser um episódio do mercado e passa a organizar a percepção que cada trabalhador tem de si mesmo.
Guy Debord ajuda a compreender esse movimento quando descreve a sociedade do espetáculo como uma relação social mediada por imagens. No trabalho plataformizado, a imagem do desempenho substitui a percepção da relação de exploração. Estrelas, notas, rankings, selos e painéis coloridos transformam subordinação em jogo. O trabalhador não recebe apenas ordens; recebe uma narrativa visual segundo a qual cada resultado revela seu valor individual. A avaliação permanente produz uma identidade mercantil: ser alguém passa a significar performar bem diante do sistema.
Esse mecanismo também produz anomia. As regras mudam sem negociação, os critérios de avaliação permanecem opacos e a decisão pode ser tomada por uma instância que não responde ao trabalhador. A instabilidade é naturalizada como característica do setor. Quando uma conta é suspensa ou uma escala é reduzida, não há necessariamente um responsável acessível para contestar a decisão. A impessoalidade técnica encobre uma decisão política: alguém definiu como o trabalho será distribuído e quem ficará com seus riscos.
Da invisibilidade à organização coletiva
Reconhecer o proletariado atual exige abandonar a nostalgia de uma classe trabalhadora homogênea, concentrada em grandes fábricas e representada por uma única identidade profissional. A classe existe na relação com o capital, não na semelhança externa entre uniformes. Isso não significa apagar diferenças de gênero, raça, território e qualificação. Ao contrário: significa compreender como essas diferenças são mobilizadas para distribuir de maneira desigual os salários, os riscos e a possibilidade de recusa.
No Brasil, a precarização recai com especial força sobre quem já enfrenta desigualdades históricas. O entregador que atravessa a cidade, a trabalhadora negra no telemarketing e a professora que acumula vínculos não vivem a exploração de maneira idêntica. Mas suas situações podem ser ligadas por uma estrutura comum: a necessidade de vender trabalho em condições definidas por quem controla o capital. A solidariedade não nasce de uma identidade abstrata; precisa ser construída a partir da disputa por remuneração, direitos, tempo de descanso, transparência dos critérios e controle sobre as ferramentas de trabalho.
Essa disputa exige também enfrentar a propriedade e o poder político que sustentam as plataformas. Não basta pedir que o algoritmo seja mais simpático ou que a empresa ofereça treinamentos de bem-estar. A questão é quem define as regras, quem fiscaliza seu cumprimento e quem se apropria da riqueza gerada por milhões de horas de trabalho. O direito pode reconhecer vínculos e limitar abusos, mas não supera sozinho uma estrutura em que a produção social permanece subordinada à valorização privada. A crítica precisa alcançar o Estado e as empresas sem confundir regulação com emancipação.
O proletariado contemporâneo aparece justamente onde o discurso neoliberal afirma haver apenas indivíduos livres. Ele está no celular que nunca pode ser desligado, na aula preparada fora do horário pago, na voz que repete um roteiro diante do cliente e na bicicleta que se desgasta para entregar mercadorias alheias. Sua novidade não está em ter deixado de ser explorado, mas em ser explorado por mecanismos que transformam a exploração em escolha, competição e oportunidade.
Nomear essa realidade é mais do que uma disputa semântica. Sem a categoria de proletariado, cada trabalhador permanece preso à explicação privada de sua própria dificuldade. Com ela, a precariedade deixa de parecer acidente individual e passa a ser reconhecida como relação social. O algoritmo pode distribuir as ordens, a propaganda pode vender autonomia e o mercado pode chamar tudo de inovação. Ainda assim, por trás da interface, alguém continua trabalhando para que outro acumule.
Comentários
Seja o primeiro a comentar.
Deixe um comentário
Seu comentário será publicado após aprovação.