Simulacro é uma representação que deixa de remeter a uma realidade independente e passa ela própria a produzir aquilo que entendemos como real. Não se trata, simplesmente, de uma mentira que poderia ser desmascarada pela apresentação dos fatos, nem de uma cópia imperfeita de um original intacto. No simulacro, a imagem, a narrativa, a métrica e a encenação assumem tal força social que a vida passa a ser vivida conforme elas exigem. Uma pessoa não apenas mostra felicidade nas redes: aprende a medir sua felicidade pela capacidade de exibi-la. Um político não apenas comunica um projeto: torna-se, para multidões organizadas por telas, a personagem que ocupa continuamente o campo da atenção.
A palavra tem uma longa história filosófica, mas ganhou seu sentido contemporâneo sobretudo na crítica de Jean Baudrillard à sociedade de consumo e aos meios de comunicação. Para ele, o capitalismo avançado não vende somente objetos úteis; vende signos, distinções e estilos de vida. O automóvel, o condomínio, o celular, a marca de roupa e o perfil digital valem também pelo que anunciam sobre quem os possui. A mercadoria deixa de parecer uma relação social de exploração e aparece como linguagem de prestígio, liberdade ou pertencimento. O simulacro é a forma extrema desse processo: não uma imagem pendurada sobre a realidade, mas uma imagem que se torna o terreno no qual a realidade social é reconhecida.
O que é simulacro além de uma simples falsificação
Chamar todo simulacro de “falsidade” é insuficiente. Uma notícia deliberadamente inventada pode ser falsa; uma propaganda pode ocultar defeitos de um produto; uma fotografia pode ser manipulada. Em todos esses casos, ainda supomos uma verdade externa contra a qual a fraude pode ser comparada. O simulacro é mais profundo porque embaralha essa relação. Ele não precisa convencer todos de que algo aconteceu exatamente como mostrado. Basta que imponha os critérios pelos quais algo será sentido, lembrado e julgado.
Um exemplo banal ajuda a compreender. A imagem publicitária de uma empresa de entrega apresenta o entregador como empreendedor livre, conectado à cidade, dono do próprio horário. Ela não precisa negar que ele pedala sob chuva, arca com custos, enfrenta acidentes e depende de um algoritmo opaco para sobreviver. Seu efeito ideológico é outro: organiza esses fatos sob a linguagem da autonomia. A exploração deixa de aparecer como subordinação e reaparece como escolha individual. Quando essa imagem passa a orientar a opinião pública, a legislação e até a autopercepção de parte dos trabalhadores, temos mais que publicidade enganosa: temos uma realidade social administrada por seu simulacro.
Marx já havia oferecido uma ferramenta decisiva para entender esse mecanismo ao analisar o fetichismo da mercadoria. Na circulação capitalista, as relações entre pessoas aparecem como relações entre coisas: salário, preço, contrato, desempenho, avaliação. O produto parece possuir valor por natureza, enquanto o trabalho humano, a desigualdade de poder e a apropriação privada da riqueza desaparecem da cena. O simulacro contemporâneo radicaliza essa inversão. A plataforma se apresenta como tecnologia neutra; o algoritmo, como cálculo objetivo; a empresa, como mera mediadora entre indivíduos livres. A relação de classe que estrutura tudo isso é empurrada para fora da imagem.
Do espetáculo à plataforma que mede a existência
Guy Debord formulou que o espetáculo não é um conjunto de imagens, mas uma relação social entre pessoas mediada por imagens. Essa formulação impede uma crítica moralista, como se o problema fosse apenas “usar demais o celular”. O espetáculo é uma forma de organização social. Ele separa os indivíduos de sua própria experiência, transforma participação em contemplação e converte acontecimentos em mercadorias de atenção. Nas plataformas digitais, essa mediação é ainda mais invasiva porque cada gesto produz dado, cada reação é mensurada e cada interesse pode ser devolvido ao usuário como publicidade, recomendação ou vigilância.
O simulacro, nesse ambiente, não é apenas o filtro que altera um rosto. É o perfil como substituto da pessoa; é o indicador de produtividade como substituto do trabalho; é a nota dada pelo cliente como substituto da dignidade profissional; é a quantidade de seguidores como substituta de reconhecimento político ou cultural. Um professor é pressionado por indicadores, formulários e metas que prometem tornar a educação transparente, enquanto as condições materiais da escola, o tamanho das turmas e a exaustão docente permanecem tratados como ruído. Um operador de call center precisa obedecer ao tempo médio de atendimento, parâmetro que finge traduzir qualidade, embora converta a conversa humana em uma unidade de extração de valor.
Não há nisso uma oposição ingênua entre uma realidade pura e qualquer técnica. Toda sociedade produz símbolos, imagens e mediações. A questão é quem controla os meios de produzir essas mediações, quais interesses elas servem e que vida material elas escondem. Heidegger advertia que a técnica moderna tende a enquadrar o mundo como reserva disponível, algo calculável e explorável. Sob o capitalismo de plataformas, esse enquadramento alcança o próprio sujeito: trabalhador, consumidor e eleitor aparecem como conjuntos de dados, segmentos de mercado e alvos de previsão. A promessa de personalização esconde a transformação da pessoa em matéria-prima informacional.
O simulacro político não é ilusão inocente
Na política brasileira, o simulacro encontra terreno fértil na crise de representação, na concentração dos meios de comunicação e na circulação acelerada de conteúdos pelas redes. O bolsonarismo não pode ser explicado somente por desinformação, embora a mentira organizada tenha sido uma de suas armas. Sua força esteve em produzir uma cena contínua de guerra cultural: um líder encenado como antissistema mesmo ocupando o Estado, uma família apresentada como unidade moral ameaçada, um “povo” abstrato oposto a inimigos internos escolhidos conforme a conveniência. A imagem da rebeldia serviu para proteger interesses muito concretos: militarização, desmonte de políticas públicas, ataque a direitos trabalhistas, devastação ambiental e preservação de privilégios de classe.
Esse mecanismo funciona porque oferece uma experiência afetiva. O medo, o ressentimento e a sensação de pertencimento podem ser mais imediatos que uma análise das causas da precarização. Gustave Le Bon, ainda que marcado pelos limites conservadores de seu tempo, observou como a multidão pode ser mobilizada por imagens simples, repetição e contágio emocional. A extrema direita digital transformou esse diagnóstico em técnica de propaganda: frases curtas, inimigos permanentes, vídeos recortados, escândalos ininterruptos. Mas seria um erro atribuir a adesão popular a uma suposta irracionalidade natural das massas. A multidão é formada numa sociedade que retirou segurança material de milhões e lhes entrega, em troca, narrativas que individualizam o fracasso e oferecem culpados visíveis.
O simulacro político também aparece quando a democracia é reduzida ao desempenho de comunicação. A autoridade parece derivar da viralização; a competência, de uma estética de eficiência; a honestidade, de gestos teatrais contra uma corrupção sempre localizada no adversário. Enquanto isso, a estrutura que subordina o Estado à reprodução do capital permanece pouco visível. Como insiste Alysson Mascaro, o Estado e o direito não são recipientes neutros, disponíveis de modo idêntico a qualquer projeto. Eles operam em formas sociais ligadas à mercadoria, à propriedade privada e à exploração do trabalho. A imagem de um Estado acima das classes é, ela mesma, uma peça central da ideologia.
Romper o simulacro exige recuperar as relações materiais
Desfazer o poder do simulacro não significa abandonar imagens, recusar tecnologias ou acreditar que bastaria revelar “a verdade” numa postagem bem argumentada. A crítica precisa perguntar sempre: que relação material esta imagem torna invisível? Quem lucra com a narrativa de autonomia? Que infraestrutura sustenta a aparente gratuidade da rede? Que trabalho está oculto atrás da conveniência de receber uma compra em minutos? A resposta reconduz da tela à cadeia logística, do influenciador à publicidade, da métrica ao comando gerencial, da promessa de escolha à ausência de alternativas reais.
Também exige organização coletiva. O entregador que identifica no discurso do empreendedorismo uma forma de controle pode continuar dependente do aplicativo se estiver isolado. A crítica ganha força quando se converte em associação, sindicato, greve, cooperativa, luta por regulação e defesa de direitos universais. Contra a figura do indivíduo que deve vender a própria vida como marca, a ação coletiva reafirma uma verdade incômoda para o capitalismo: ninguém produz sozinho a riqueza que depois aparece como sucesso privado.
O simulacro não desaparece por decreto, pois ele está entranhado nas formas de consumo, comunicação e poder do capitalismo contemporâneo. Mas sua aparência inevitável pode ser rompida quando a experiência social volta a ser lida por suas determinações: classe, propriedade, trabalho, raça, gênero e disputa pelo Estado. A imagem do empreendedor feliz, do algoritmo imparcial ou do líder salvador perde parte de seu encanto quando se enxerga a máquina social que ela ajuda a manter. É nesse deslocamento da aparência para as relações que a crítica deixa de ser contemplação e se torna possibilidade de transformação.
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