O problema da concentração de renda no Brasil não é que a riqueza deixe de ser produzida. Ela é produzida em volume crescente, com máquinas, sistemas de gestão, metas, jornadas intensificadas e trabalhadores permanentemente conectados. O problema é político: quem se apropria dela. A linguagem empresarial chama esse processo de eficiência; a propaganda liberal o chama de progresso; o trabalhador o reconhece no corpo, quando entrega mais, atende mais, vende mais, mas continua calculando se o salário chegará até o fim do mês.
A promessa capitalista é conhecida. Se a produtividade aumenta, todos ganham: a empresa lucra, o consumo cresce e os salários acompanham a expansão da riqueza. No Brasil real, essa promessa tem sido uma ideologia funcional. Não porque os salários nunca subam nominalmente, nem porque a valorização do salário mínimo e negociações coletivas não tenham produzido ganhos em determinados períodos. O ponto decisivo é outro: esses ganhos não alteram o mecanismo pelo qual a maior parcela do valor novo criado pelo trabalho é convertida em propriedade, lucro e renda financeira de uma minoria.
Dados da World Inequality Database, referentes a 2021, ajudam a dimensionar a brutalidade da estrutura: os 10% mais ricos do país ficaram com cerca de 59% da renda nacional, enquanto os 50% de menor renda receberam aproximadamente 10%. Não se trata de uma distância entre pessoas que simplesmente trabalharam com diferentes níveis de empenho. Trata-se de uma divisão social organizada entre quem precisa vender sua força de trabalho e quem detém empresas, terras, ativos financeiros e o poder de decidir o destino do excedente produzido por milhões.
Produtividade não é sinônimo de salário
Marx identificou o núcleo dessa relação ao mostrar que o salário não remunera integralmente a riqueza produzida pelo trabalhador. Ele compra a força de trabalho por um período; o que essa força cria acima de seu custo de reprodução aparece como mais-valia, isto é, como valor apropriado pelo proprietário. A tecnologia não aboliu essa engrenagem. Ao contrário, tornou-a mais precisa. Um software mede o tempo de atendimento, uma câmera vigia a linha de produção, um algoritmo distribui corridas, uma planilha converte cada minuto em indicador de desempenho. O trabalhador brasileiro é convocado a produzir mais em menos tempo, mas não passa a comandar a riqueza adicional que ajudou a criar.
No call center, a produtividade se chama tempo médio de atendimento, taxa de resolução, vendas por ligação e adesão ao roteiro. A atendente recebe metas progressivamente mais agressivas, é monitorada por sistemas que registram pausas e pode perder remuneração variável por critérios que não controla. Se o atendimento fica mais rápido, a empresa reduz custos e amplia sua capacidade de atender clientes. A parcela disso que retorna à trabalhadora depende de uma relação de força desigual, não de uma lei natural da economia. Frequentemente, retorna como cobrança maior, ameaça de desligamento ou prêmio instável que desaparece no mês seguinte.
Na educação, o professor vê a mesma lógica sob aparência moralmente mais aceitável. Plataformas de ensino, turmas infladas, correção digital, relatórios e exigências burocráticas prometem modernizar a escola. Na prática, podem ampliar o número de estudantes por docente e estender o trabalho para a noite, para o celular e para o domingo. A instituição economiza com pessoal e transforma o professor em operador de tarefas fragmentadas. A produtividade cresce porque uma mesma pessoa realiza mais trabalho; o salário, porém, permanece comprimido por contratos frágeis e pela desvalorização sistemática da atividade docente.
O entregador mostra onde a diferença foi parar
O caso dos trabalhadores de aplicativos expõe a mentira com menos disfarce. Em 2022, o IBGE estimou em 1,5 milhão o número de pessoas ocupadas por meio de plataformas digitais de transporte de passageiros e entrega de comida e produtos. Esses trabalhadores tinham jornada média semanal superior à dos demais ocupados: 46 horas, ante 39,6 horas. Embora o rendimento mensal médio pudesse parecer um pouco maior, o dado relevante é o rendimento por hora, menor do que o dos trabalhadores que não atuavam por plataformas. Trabalha-se mais tempo para obter uma remuneração horária pior.
O aplicativo chama isso de autonomia. Mas o entregador não define livremente o preço de sua corrida, a área de maior demanda, a taxa descontada, o bloqueio da conta ou a regra de distribuição dos pedidos. Ele arca com a bicicleta, a moto, o combustível, o celular, a internet, a manutenção, o acidente e a chuva. A plataforma concentra os dados, decide as regras e cobra pelo acesso ao mercado que ela própria monopoliza. A produtividade do entregador — mais pedidos, rotas otimizadas, espera reduzida — é capturada por uma empresa que sequer assume a condição de empregadora.
É essa a direção da diferença entre riqueza produzida e renda recebida: lucro empresarial, remuneração de acionistas, valorização patrimonial e expansão do poder de quem controla a infraestrutura econômica. No Brasil, dividendos distribuídos a pessoas físicas permanecem isentos de imposto de renda desde 1995. Enquanto isso, a tributação sobre consumo incide sobre a vida cotidiana de quem compra comida, gás, roupa e remédio. O trabalhador paga imposto embutido no que consome; o grande proprietário encontra proteção legal para a renda que recebe por possuir capital. Não é uma distorção técnica. É uma escolha de classe inscrita no Estado.
A meritocracia transforma privilégio em virtude
Para que essa concentração pareça aceitável, não basta a coerção econômica. É preciso uma narrativa. A meritocracia cumpre essa tarefa ao converter resultados desiguais em qualidades morais. O milionário aparece como inovador; o trabalhador exausto, como alguém que ainda não se esforçou o suficiente. O empresário que herdou patrimônio, crédito, contatos e uma estrutura jurídica favorável é celebrado como exemplo de coragem. A mulher que soma dois empregos, transporte precário e cuidado doméstico recebe conselhos sobre disciplina financeira.
Essa ideologia apaga o que está diante dos olhos: ninguém enriquece isoladamente. Uma empresa depende de estradas, energia, trabalhadores formados em escolas públicas, sistema de saúde que repara corpos adoecidos, tribunais que fazem cumprir contratos e forças policiais que protegem a propriedade. Alysson Mascaro insiste que o Estado capitalista não é um árbitro externo que ocasionalmente erra; sua forma jurídica organiza e reproduz relações sociais fundadas na mercadoria, no contrato e na propriedade privada. Quando o Estado desonera o capital, flexibiliza vínculos e preserva privilégios tributários, não está apenas administrando mal. Está operando dentro da lógica que protege a acumulação.
O bolsonarismo ofereceu uma versão particularmente agressiva dessa pedagogia da desigualdade. Ao atacar sindicatos, naturalizar a violência patronal e tratar direitos trabalhistas como entraves ao empreendedorismo, ajudou a apresentar a precarização como liberdade. Mas seria confortável demais atribuir o problema apenas à extrema direita. A concentração de renda persiste porque é estrutural ao capitalismo brasileiro, atravessa governos e se alimenta de uma classe dominante que aceita qualquer discurso desde que seus lucros, suas isenções e seu poder de mando permaneçam intactos.
O espetáculo da riqueza esconde a exploração
Debord escreveu que o espetáculo não é apenas um conjunto de imagens, mas uma relação social mediada por imagens. No Brasil, a concentração de renda ganha uma vitrine permanente: influenciadores vendem luxo como prova de mérito, bancos anunciam prosperidade, plataformas exibem histórias de empreendedores que “viraram o jogo”. O objetivo não é somente estimular o consumo. É fazer o explorado desejar a posição do explorador, em vez de questionar a relação que produz ambos.
A riqueza cresceu, sim, em capacidade produtiva, tecnologia, circulação de mercadorias e extração de trabalho. A parte do trabalhador, contudo, continua submetida ao salário, à meta e à insegurança. Romper com a concentração de renda exige mais do que programas compensatórios indispensáveis para aliviar a miséria. Exige disputar salários, reduzir jornadas, reconstruir direitos, tributar patrimônio e lucros, enfrentar o poder das plataformas e retirar da propriedade privada o direito de decidir sozinha sobre a riqueza socialmente produzida. Enquanto o aumento da produtividade for tratado como propriedade exclusiva do capital, cada avanço técnico será apresentado ao trabalhador não como libertação, mas como uma nova forma de cobrança.
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