Classe dominante não é simplesmente o conjunto dos mais ricos, nem uma lista de bilionários que aparece em revistas de negócios. É a classe que, por controlar os meios de produção e as condições materiais da vida social, possui poder estrutural para decidir o que será produzido, sob quais regras se trabalhará, quem arcará com as crises e quais interesses o Estado tratará como prioridade. No capitalismo brasileiro, ela reúne proprietários de grandes empresas, bancos, fundos, grupos do agronegócio, incorporadoras, concessionárias, famílias patrimoniais e frações empresariais que comandam setores estratégicos. Sua força não depende de uma reunião secreta nem de uma unidade perfeita: nasce do lugar que ocupa na organização da economia.
Marx formulou a questão de modo decisivo: uma classe não se define pela renda isolada, mas por sua relação com os meios de produção. Quem precisa vender sua força de trabalho para viver integra, em sentido amplo, a classe trabalhadora; quem compra essa força de trabalho e se apropria do excedente produzido por ela ocupa a posição dominante. Entre esses polos há camadas intermediárias, pequenos proprietários, gestores e profissionais com remunerações distintas. Mas a estrutura permanece: poucos dispõem das empresas, da terra, do crédito, das plataformas e dos ativos; muitos dependem de trabalhar para proprietários ou para sistemas que lhes extraem trabalho em benefício de proprietários.
Como a classe dominante exerce poder no capitalismo brasileiro
O domínio de classe não se limita ao portão da fábrica, embora a fábrica continue existindo. Ele está no supermercado, na tarifa de energia, no aluguel, no aplicativo, no banco e no orçamento público. Um entregador que pedala doze horas para uma plataforma não negocia em pé de igualdade com a empresa que define corridas, bloqueios, taxas e critérios algorítmicos. Formalmente, pode ser chamado de parceiro ou empreendedor; materialmente, trabalha sob comando externo, sem controle sobre os instrumentos digitais que organizam seu serviço e sem a proteção correspondente a um emprego. A plataforma não eliminou a relação de classe: tornou-a mais opaca.
O mesmo vale para a professora submetida a metas, plataformas educacionais e contratos temporários; para a trabalhadora de call center cronometrada por sistemas que registram cada pausa; para o operador de logística cuja produtividade é medida até o limite físico. A classe dominante aparece, nesses casos, menos como a figura pessoal do patrão e mais como uma cadeia de propriedade, gestão, acionistas, softwares e contratos. O comando foi tecnificado, mas não deixou de ser comando. A linguagem empresarial celebra inovação; a experiência de quem trabalha registra intensificação, vigilância e insegurança.
É por isso que reduzir o problema à ganância individual é insuficiente. Há empresários gananciosos, evidentemente, mas a exploração não depende de um defeito moral particular. Uma empresa concorrendo num mercado capitalista é pressionada a cortar custos, elevar produtividade e ampliar lucros. E o custo mais imediatamente comprimível costuma ser o trabalho: salário, jornada, descanso, direitos, estabilidade. A classe dominante não precisa que todos os seus integrantes sejam pessoalmente cruéis para reproduzir um sistema que transforma necessidades humanas em oportunidades de rentabilidade.
Estado, direito e a aparência de neutralidade
O Estado capitalista não é um escritório privado da burguesia, onde cada decisão obedece mecanicamente à ordem de uma empresa. Ele possui burocracias, disputas institucionais, pressões populares e contradições próprias. Ainda assim, como enfatiza Alysson Mascaro ao examinar a forma política do capitalismo, sua estrutura jurídica e estatal organiza uma sociabilidade fundada na mercadoria, na propriedade privada e na exploração do trabalho. A igualdade perante a lei convive com desigualdades materiais gigantescas. O trabalhador e o proprietário aparecem como contratantes livres, ainda que um possa recusar um emprego sem perder seu patrimônio e o outro, frequentemente, não possa recusar sem ameaçar a própria sobrevivência.
Essa aparência jurídica é central. Quando a relação social é apresentada apenas como contrato entre indivíduos, desaparece a desigualdade que precede a assinatura. O entregador “aceita” os termos do aplicativo; a família “escolhe” pagar juros abusivos; o morador “decide” morar longe do emprego porque é onde o aluguel cabe no salário. A liberdade formal existe, mas opera dentro de uma necessidade material que não foi escolhida. A ideologia liberal chama isso de autonomia; a realidade chama de falta de alternativa.
Nas crises, o viés de classe se torna ainda mais visível. Direitos sociais, gastos públicos e salários são tratados como excessos que exigem austeridade, enquanto benefícios fiscais, renegociações de dívidas, crédito subsidiado e garantias ao sistema financeiro tendem a ser apresentados como requisitos técnicos da economia. A técnica econômica entra em cena como se não carregasse escolhas políticas. Heidegger alertava que a técnica moderna não é apenas um conjunto neutro de ferramentas: ela enquadra o real de determinada maneira, convertendo pessoas, natureza e tempo em recursos disponíveis. Sob o capitalismo, esse enquadramento serve à valorização do capital.
A classe dominante também governa pelas ideias
Uma dominação duradoura não se sustenta somente por polícia, tribunais ou demissões. Ela precisa produzir consentimento, ou ao menos resignação. A meritocracia cumpre essa tarefa ao transformar desigualdades históricas em desempenho individual. O jovem que entrega comida por aplicativo é convocado a se enxergar como empresário de si; se não prospera, a falha pareceria decorrer de sua disciplina, não da taxa da plataforma, do preço da gasolina, da ausência de direitos e da concentração de renda. O trabalhador exausto é convertido no réu de sua própria precariedade.
Debord descreveu a sociedade do espetáculo como uma organização social em que a relação entre pessoas é mediada por imagens. Hoje, a classe dominante não depende apenas dos meios tradicionais de comunicação, embora eles conservem enorme influência. Ela se beneficia de um ambiente digital em que ostentação, publicidade, empreendedorismo e performance individual ocupam o espaço da crítica às estruturas. O consumo de luxo aparece como mérito visível; a exploração que o financia fica fora do enquadramento. As redes não inventaram a desigualdade, mas oferecem uma máquina eficiente para estetizá-la e para dispersar a atenção de suas causas.
Isso ajuda a explicar por que parcelas exploradas podem apoiar programas e lideranças contrárias aos seus interesses objetivos. Não se trata de supor ignorância pura ou de insultar quem foi capturado por essa política. A extrema direita brasileira, especialmente o bolsonarismo, combinou ressentimento social real com uma explicação falsa para ele. Em vez de dirigir a revolta contra banqueiros, grandes proprietários, empresas que precarizam e estruturas de privilégio, deslocou-a para professores, movimentos sociais, servidores, povos indígenas, mulheres, pessoas LGBT e pobres que acessam direitos. O fascismo oferece pertencimento imaginário àqueles a quem o capitalismo nega segurança material.
Não há uma elite homogênea, mas há interesse de classe
Setores do agronegócio podem divergir do capital financeiro; industriais podem disputar políticas com importadores; empresas de tecnologia podem entrar em conflito com grupos de mídia. Essas divergências são reais, e tratá-las como uma conspiração monolítica empobrece a análise. Porém, as frações da classe dominante frequentemente se reencontram quando estão em jogo a proteção da propriedade, a contenção de salários, a flexibilização trabalhista, a criminalização de protestos ou a redução da capacidade popular de interferir na economia.
Também é preciso distinguir a classe dominante de seus porta-vozes ocasionais. Políticos, jornalistas, influenciadores, militares, juristas e economistas podem não ser proprietários relevantes, mas podem atuar na elaboração e difusão de visões de mundo favoráveis à ordem existente. A função ideológica não exige que cada agente receba ordens diretas de um empresário. Basta que compartilhe instituições, incentivos e pressupostos que tornam a propriedade concentrada algo normal, enquanto qualquer proposta de socialização da riqueza é tachada de ameaça à civilização.
Nomear a classe dominante, então, não é cultivar inveja contra pessoas ricas nem buscar um inimigo abstrato. É identificar a relação que organiza a exploração e impede que problemas coletivos sejam tratados como azares individuais. Enquanto a riqueza produzida socialmente for apropriada por uma minoria, a democracia permanecerá limitada pela chantagem econômica dessa minoria. A crítica de classe começa quando se recusa a aceitar que quem trabalha muito deva viver sob medo, ao passo que quem possui possa decidir, à distância, o destino de milhões.
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