Colonialismo de dados é o conceito que descreve a apropriação massiva de informações pessoais e sociais por corporações e Estados, em paralelo com a exploração colonial de terras, recursos e povos. A comparação não é uma metáfora superficial. Se o colonialismo clássico transformava territórios e trabalho humano em fontes de riqueza para metrópoles, o capitalismo de plataforma transforma cada gesto conectado — uma rota de entrega, uma conversa, uma compra, uma espera no ponto de ônibus, uma avaliação de desempenho — em recurso extraível, processável e rentável. A vida social passa a ser tratada como jazida de dados.

Isso não significa que dados substituíram a exploração material. O entregador que pedala sob chuva, a atendente de call center que repete um script durante horas e o professor pressionado a alimentar plataformas educacionais continuam produzindo riqueza sob condições concretas, corporais e frequentemente degradantes. O que muda é que seu trabalho e sua existência passam a gerar uma camada adicional de valor: informações sobre produtividade, comportamento, circulação, consumo, emoções e vínculos. A plataforma não quer apenas vender um serviço; quer conhecer, antecipar e induzir condutas.

O problema central, então, não é que uma empresa “saiba demais” sobre indivíduos isolados, como se tudo se resolvesse com senhas fortes e termos de uso mais claros. O colonialismo de dados institui uma relação estrutural de poder. De um lado, estão empresas com infraestrutura, servidores, capital, propriedade intelectual e capacidade de cruzar milhões de registros. De outro, estão populações convertidas em fontes permanentes de informação, sem controle real sobre a coleta, o uso e os efeitos desse conhecimento.

Colonialismo de dados não é apenas vigilância

Vigilância é parte decisiva do processo, mas o conceito vai além. Ser vigiado é ser observado; ser colonizado por dados é ter aspectos da vida capturados, classificados e incorporados a uma estrutura econômica que deles extrai valor e poder. Uma câmera com reconhecimento facial em uma rua, por exemplo, não registra somente um rosto. Ela pode integrar uma arquitetura que define quem é suspeito, quem pode circular, quem será abordado e quais territórios serão tratados como zonas de risco. Quando esse sistema opera sobre uma sociedade racialmente desigual como a brasileira, a técnica não paira acima da história: ela tende a reproduzir e ampliar suas violências.

Os pesquisadores Nick Couldry e Ulises A. Mejias desenvolveram o termo para enfatizar justamente essa continuidade histórica. O colonialismo não foi apenas ocupação militar; foi a imposição de um regime no qual terras, corpos, saberes e relações de povos colonizados se tornaram disponíveis para apropriação externa. No presente, as grandes plataformas naturalizam a ideia de que comunicar-se, deslocar-se, trabalhar, namorar, estudar e informar-se exige entregar rastros digitais. A captura aparece como condição inevitável da participação social.

A promessa de conexão gratuita encobre uma troca desigual: a população entrega dados e tempo; as plataformas concentram conhecimento, lucro e capacidade de comando.

Essa desigualdade é agravada pela opacidade. Um usuário pode ver anúncios, recomendações e preços variáveis, mas não vê o modelo que o classificou como consumidor provável, trabalhador disponível ou risco financeiro. Um motorista de aplicativo recebe corridas, metas e bloqueios definidos por sistemas que não pode auditar. Ele é governado por uma avaliação permanente, mas não conhece os critérios que avaliam sua conduta. A linguagem empresarial chama isso de inovação; do ponto de vista do trabalho, trata-se de uma forma de administração unilateral e automatizada.

Da extração colonial à extração de comportamentos

O paralelo com o colonialismo clássico precisa ser usado com precisão. Não se trata de dizer que um clique equivale à violência direta da escravidão, do genocídio indígena ou do saque colonial. Essas experiências possuem determinações históricas próprias e uma brutalidade que não deve ser diluída em analogias fáceis. O ponto é outro: reconhecer que a acumulação capitalista volta a depender de tornar disponível aquilo que antes não era mercadoria. No passado, foram terras comunais, matérias-primas e força de trabalho submetida. Agora, também são relações sociais, atenção, hábitos e previsões sobre o futuro.

Marx mostrou que o capitalismo não nasce de uma troca equilibrada entre proprietários livres. Sua origem envolve expropriação: a separação violenta entre trabalhadores e os meios que lhes permitem viver. O colonialismo de dados atualiza essa lógica no campo informacional. Não somos proprietários efetivos da infraestrutura pela qual nos comunicamos, nem das bases que armazenam nossas ações, nem dos modelos que convertem esses registros em decisões lucrativas. Mesmo quando há um botão formal de consentimento, ele costuma ser aceito sob coerção prática: recusar pode significar não trabalhar, não acessar um serviço público, não acompanhar a escola dos filhos ou não participar das relações sociais mediadas por determinada plataforma.

O dado, isoladamente, não tem a aparência de uma mina de ouro. Seu valor depende de infraestrutura energética, trabalho técnico, cadeias globais de mineração, fabricação de chips, cabos, data centers e mão de obra precarizada que modera conteúdo, rotula imagens e treina sistemas de inteligência artificial. Por trás da aparência imaterial da nuvem, há territórios, gasto de água e eletricidade, trabalhadores submetidos a metas e conglomerados que comandam redes transnacionais. A palavra “digital” frequentemente serve para apagar essa materialidade.

O laboratório brasileiro da dependência de plataformas

No Brasil, o colonialismo de dados encontra terreno fértil na desigualdade, na desproteção trabalhista e na fragilidade da soberania tecnológica. Um entregador vinculado a um aplicativo fornece sua força de trabalho, arca com bicicleta ou moto, manutenção, combustível, seguro e risco de acidente. Ao mesmo tempo, alimenta a plataforma com dados preciosos: trajetos, horários de maior demanda, aceitação de chamadas, tempo de espera, padrões de consumo em bairros distintos e resposta a incentivos. A empresa centraliza essa inteligência e a utiliza para ajustar preços, distribuir trabalho e ampliar sua vantagem sobre trabalhadores, restaurantes e consumidores.

O mecanismo é semelhante no call center. Cada atendimento pode ser gravado, transcrito, medido e convertido em indicador de produtividade. Pausas, entonação, duração da chamada e aderência ao roteiro entram no campo da gerência algorítmica. A antiga disciplina fabril não desapareceu; ela ganhou telas, painéis em tempo real e métricas que parecem objetivas. A máquina não elimina o chefe: torna seu comando mais difuso, contínuo e difícil de contestar.

Nas escolas, plataformas educacionais prometem organização e personalização, mas também podem converter a atividade pedagógica em fluxo mensurável de acessos, tarefas, notas e interações. Sem política pública robusta, software livre, transparência contratual e proteção coletiva, a educação pública corre o risco de entregar sua memória e sua rotina a infraestruturas privadas. A questão não é rejeitar a tecnologia em nome de uma nostalgia analógica. É perguntar quem controla os meios técnicos, quais dados são apropriados e a serviço de que projeto social eles operam.

Estado, segurança e a fabricação de populações legíveis

As corporações não são as únicas beneficiárias dessa extração. Estados também acumulam dados para administrar políticas, fiscalizar, policiar e classificar a população. Há usos públicos legítimos de informação, especialmente em saúde, planejamento urbano e garantia de direitos. Mas a existência de uma finalidade pública não autoriza vigilância ilimitada nem terceirização opaca de dados coletivos para fornecedores privados. Quando bases estatais são integradas sem controle democrático, a população torna-se mais legível para o poder, enquanto o poder permanece ilegível para ela.

A tradição marxista ajuda a evitar uma ingenuidade recorrente: o Estado capitalista não é um árbitro exterior às relações de classe. Como formula Alysson Mascaro ao analisar as formas políticas e jurídicas do capitalismo, o direito e o Estado possuem uma materialidade ligada à reprodução dessa sociabilidade. A proteção de dados é necessária e deve ser defendida, mas não basta imaginá-la como antídoto completo. Leis podem limitar abusos, impor deveres de transparência e criar sanções; contudo, não desfazem por si sós a concentração privada da infraestrutura digital e do poder econômico que a sustenta.

O bolsonarismo expôs uma face particularmente agressiva dessa política: ataques à imprensa, hostilidade ao conhecimento científico, redes de desinformação e mobilização de ressentimentos por meios digitais. Mas seria um erro tratar o problema como exclusividade da extrema direita. A extrema direita explora e radicaliza uma infraestrutura de segmentação, espetáculo e vigilância que foi construída pelo capitalismo de plataforma. Debord já identificava uma sociedade em que a relação social aparece mediada por imagens; as plataformas aprofundam esse processo ao fazer de cada relação uma fonte de dados e de cada dado um instrumento para ordenar a visibilidade.

Recusar a inevitabilidade técnica

Heidegger advertiu que a técnica moderna tende a enquadrar o mundo como reserva disponível. No capitalismo de dados, esse enquadramento alcança a própria experiência humana: pessoas se tornam perfis, probabilidades, públicos-alvo e pontuações. A crítica não exige demonizar celulares ou imaginar que a técnica tenha uma vontade própria. Exige recusar a ideologia segundo a qual toda inovação empresarial é progresso social e toda coleta é preço natural da conveniência.

Enfrentar o colonialismo de dados requer controle público e democrático sobre infraestruturas essenciais, limites efetivos à vigilância estatal, transparência de sistemas automatizados e direitos coletivos para trabalhadores submetidos à gestão algorítmica. Requer também enfrentar o monopólio das grandes plataformas, pois não há autonomia real quando a comunicação social, o comércio, a mobilidade e o trabalho dependem de poucas empresas estrangeiras. A disputa pelos dados é, no fundo, disputa pela organização da vida comum. Enquanto essa matéria social continuar sendo extraída como propriedade de corporações, a promessa digital de liberdade seguirá funcionando como uma nova linguagem para a velha expropriação.