Colonialismo de dados é a apropriação sistemática da experiência humana — gestos, relações, deslocamentos, atenção, imagens, preferências e trabalho — como matéria-prima gratuita para gerar lucro e poder. Não se trata apenas de empresas que “coletam informações”, mas de uma nova fase da acumulação capitalista: plataformas e infraestruturas digitais transformam a vida cotidiana em fonte contínua de dados, tal como o colonialismo histórico transformou terras, corpos e recursos naturais em objetos de conquista e exploração.

Da conquista de territórios à captura da vida

O termo foi desenvolvido, entre outros, por Nick Couldry e Ulises A. Mejias para descrever a continuidade entre a violência colonial e a expansão das empresas de dados. A comparação não quer dizer que a dominação digital seja idêntica à escravidão, ao genocídio indígena ou ao saque colonial. Ela aponta uma mesma estrutura: uma força econômica se apresenta como portadora do progresso, impõe suas formas de organização e trata como disponível aquilo que pertencia a outros.

No colonialismo clássico, impérios europeus cercaram terras, dominaram populações e extraíram ouro, açúcar, borracha, café e minérios. No colonialismo de dados, grandes empresas cercam espaços de comunicação, trabalho, consumo, educação, saúde e circulação urbana. A matéria extraída não é somente um arquivo com nome e CPF. É a experiência social convertida em registro: o caminho feito pelo entregador, o tempo de resposta de uma atendente, a pausa do professor numa aula remota, a hesitação diante de um anúncio, as pessoas com quem alguém fala e os lugares que frequenta.

Essa extração depende de uma ideologia conhecida: a ideia de que tecnologia é naturalmente neutra e que entregar dados é o preço inevitável da conveniência. Assim, serviços privados passam a parecer infraestrutura pública. Conversar, pedir comida, procurar emprego, pagar uma conta ou marcar uma consulta parecem atos comuns; ao mesmo tempo, alimentam sistemas que classificam, preveem e influenciam comportamentos.

Como a extração opera

As plataformas capturam dados por meio de aplicativos, redes sociais, sistemas de pagamento, dispositivos conectados, câmeras, ferramentas corporativas e serviços públicos digitalizados. Uma parte dessa captura é autorizada formalmente por termos de uso extensos e incompreensíveis. Outra decorre da falta concreta de alternativa: quem precisa trabalhar, estudar ou acessar um serviço estatal não negocia em igualdade de condições com a plataforma que organiza o acesso.

Os dados ganham valor quando são combinados, comparados e processados. Eles permitem vender publicidade direcionada, treinar sistemas de inteligência artificial, calcular riscos, definir preços, controlar trabalhadores e projetar novos produtos. O ponto decisivo é que as pessoas produzem essa matéria-prima vivendo e trabalhando, mas não controlam seu uso nem participam das decisões e dos ganhos gerados por ela.

Isso aprofunda a alienação. Para Marx, o trabalhador alienado perde o controle sobre o produto e as condições de seu trabalho. No capitalismo de plataforma, perde também o controle sobre os rastros produzidos por sua própria existência. A experiência vira um ativo de terceiros. O indivíduo é tratado simultaneamente como consumidor, força de trabalho, objeto de monitoramento e produtor involuntário de dados.

O dado não é um recurso encontrado pronto na natureza: ele é extraído de relações sociais, organizado por sistemas técnicos e convertido em propriedade econômica.

Trabalho e vida sob comando algorítmico

Para um entregador de aplicativo, cada corrida produz muito mais do que uma entrega. Produz mapas de deslocamento, tempos de espera, aceitação ou recusa de pedidos, avaliações, áreas de maior demanda e padrões de produtividade. A empresa usa esse conjunto para distribuir chamadas, ajustar remunerações e intensificar o ritmo, enquanto o trabalhador recebe pouca ou nenhuma explicação sobre os critérios do algoritmo.

No call center, softwares registram duração das ligações, palavras usadas, pausas, tom de voz e índices de resolução. A vigilância aparece como “gestão de desempenho”, mas funciona como mecanismo de disciplinamento: cada segundo improdutivo para a empresa pode se tornar cobrança para quem trabalha. Já o professor submetido a plataformas educacionais deixa rastros de aulas, avaliações e interações que podem ser usados para padronizar seu trabalho, medir sua conduta e ampliar a dependência de sistemas privados.

O colonialismo de dados no Brasil

No Brasil, o fenômeno se combina com desigualdade, precarização e dependência tecnológica. A população fornece dados a empresas sediadas sobretudo no Norte global, enquanto servidores, sistemas operacionais, nuvens e modelos de inteligência artificial permanecem sob controle de poucas corporações. Municípios e governos contratam soluções privadas para educação, segurança e atendimento; empresas submetem trabalhadores a aplicativos; famílias dependem de plataformas para comunicação e informação. A digitalização não elimina relações de dependência: pode atualizá-las.

A Lei Geral de Proteção de Dados é uma conquista importante ao estabelecer direitos e obrigações. Mas consentimento individual e regras de privacidade, embora necessários, não bastam diante de monopólios que organizam o acesso ao trabalho e à vida social. Não há escolha plenamente livre quando recusar a coleta significa perder renda, mobilidade, comunicação ou um serviço essencial.

Contra a falsa inevitabilidade

Criticar o colonialismo de dados não significa defender uma volta a um passado sem tecnologia. Significa recusar que a infraestrutura digital seja organizada para extrair valor de todos e concentrá-lo em poucos. Isso exige transparência sobre algoritmos, limites à vigilância no trabalho, proteção coletiva dos dados, combate aos monopólios e controle democrático das tecnologias que já estruturam a vida social.

Mais profundamente, exige enfrentar a lógica que transforma qualquer aspecto da existência em mercadoria. Enquanto plataformas forem governadas pela rentabilidade e pela competição, a promessa de conexão tenderá a conviver com controle, precarização e expropriação. A disputa não é apenas sobre quem guarda os dados, mas sobre quem decide para que a técnica serve e sob quais relações sociais ela será desenvolvida.