Louis Althusser foi um filósofo marxista francês cuja contribuição decisiva está em explicar por que uma sociedade desigual não precisa recorrer o tempo todo à violência aberta para se manter. A resposta é que o capitalismo não domina apenas quando a polícia reprime uma greve ou quando a Justiça protege a propriedade: ele também forma indivíduos que aprendem a reconhecer a ordem existente como normal, inevitável e até desejável. Essa é a chave de sua teoria da ideologia, particularmente útil para entender o Brasil em que o entregador se chama de empreendedor, o professor sobrecarregado se culpa por não dar conta e o operador de telemarketing é medido por indicadores que lhe roubam até o ritmo da fala.

Não se trata de dizer que as pessoas são marionetes sem pensamento, nem de reduzir toda experiência humana a uma conspiração abstrata. Althusser oferece algo mais incômodo: a ideologia funciona precisamente porque se torna prática cotidiana, linguagem comum, instituição, hábito e gesto. Ela não precisa se apresentar como mentira grosseira. Pode aparecer como conselho profissional, campanha de banco, aula de educação financeira, algoritmo de aplicativo ou sermão sobre mérito. Sua eficácia está em organizar a maneira pela qual cada pessoa compreende a si mesma e o seu lugar no mundo.

Louis Althusser e a pergunta sobre como a dominação se reproduz

Para Althusser, a questão não era somente como o capital explora trabalhadores na produção, como Marx demonstrou ao analisar a extração de mais-valor. Era também como as condições dessa exploração se reproduzem de uma geração para outra. Uma fábrica não funciona apenas porque possui máquinas e matéria-prima; ela precisa de trabalhadores disciplinados, especializados de modo desigual, habituados à hierarquia e compelidos a vender sua força de trabalho. Precisa, ainda, de uma sociedade que trate a propriedade privada dos meios de produção como fundamento intocável.

É nesse ponto que entra sua distinção entre aparelhos repressivos e aparelhos ideológicos de Estado. Os primeiros operam predominantemente pela coerção: polícia, tribunais, prisões, Forças Armadas. Eles são indispensáveis quando a ordem encontra resistência aberta. Os segundos operam predominantemente pela ideologia: escola, família, meios de comunicação, instituições religiosas, estruturas jurídicas, formas culturais e políticas. A distinção é analítica, não mecânica. Uma escola pode punir; a polícia também difunde valores. Mas ela permite enxergar que o Estado capitalista não é apenas o cassetete visível quando a multidão se rebela. É também a longa educação que faz muitos aceitarem que não há alternativa antes mesmo de se rebelarem.

Althusser atribuiu à escola moderna um papel central nessa reprodução. Não porque professores sejam agentes conscientes de uma classe dominante, caricatura que nada explica, mas porque a escola distribui conhecimentos, credenciais e comportamentos num sistema social atravessado por classes. Ela ensina conteúdos; simultaneamente, ensina horários, avaliações, obediência a comandos, competição individual e a ideia de que o destino de cada um decorre de desempenho pessoal. Quando a desigualdade de origem reaparece como diferença de “talento”, “postura” ou “esforço”, a seleção social ganha aparência de justiça.

A ideologia é mais forte quando transforma uma relação histórica de poder em evidência cotidiana.

A interpelação que chama o trabalhador pelo nome

O conceito mais conhecido de Althusser é o de interpelação. A ideologia, diz ele, constitui indivíduos como sujeitos: ela nos chama, e nós respondemos. O exemplo clássico é o do policial que grita “Ei, você aí!”; ao se virar, alguém reconhece que aquele chamado lhe diz respeito. Não é uma cena limitada à rua. Somos convocados incessantemente por categorias sociais: cidadão, consumidor, pai, mãe, aluno, devedor, profissional, empreendedor, patriota. Ao reconhecermos essas nomeações, passamos a agir dentro das coordenadas que elas oferecem.

No capitalismo de plataforma, a interpelação ganhou interfaces coloridas e notificações. O aplicativo não diz frontalmente ao entregador que ele é subordinado; chama-o de parceiro. Não assume a responsabilidade de um empregador; oferece “flexibilidade”. Não apresenta a remuneração variável como mecanismo de transferência de risco; fala em oportunidade, desafio e ganhos conforme o esforço. O trabalhador, sem garantia de renda, férias, jornada delimitada ou proteção suficiente diante de acidente, é convocado a se enxergar como uma microempresa ambulante. A bicicleta, a moto e o celular passam a ser imaginados como capital próprio, ainda que o preço dessa suposta autonomia seja uma disponibilidade permanente à demanda da plataforma.

Essa linguagem tem efeitos materiais. Se o problema é definido como falta de dedicação individual, a luta por direitos parece desvio, preguiça ou atraso. Se o trabalhador é um empreendedor, a greve é vista como quebra de contrato entre iguais, e não como reação coletiva a uma relação assimétrica. A ideologia não elimina o conflito de classes; ela o desloca para dentro do indivíduo. A exaustão vira incapacidade de gestão. O salário insuficiente vira falha de planejamento. O desemprego vira falta de qualificação. A humilhação vira ausência de inteligência emocional.

Do mérito à culpa, a ideologia administra a precariedade

A meritocracia brasileira é um caso eloquente dessa operação. Num país marcado pela herança escravista, pela concentração de renda e por serviços públicos submetidos a cortes e privatizações, a fábula do ponto de partida igual é especialmente brutal. Ela pede que jovens de escolas desiguais disputem os mesmos postos e depois explica o resultado pela virtude dos vencedores. Pede que trabalhadores aceitem produtividade crescente com salários comprimidos e chama a sobrevivência dos poucos que ascendem de prova de que o sistema é aberto para todos.

Althusser ajuda a perceber que essa fábula não se sustenta somente em discursos de empresários ou influenciadores financeiros. Ela circula quando o call center converte cada conversa em meta, quando o professor precisa provar desempenho por formulários e índices, quando a empresa exige “atitude de dono” de quem não decide os rumos do negócio nem participa de seus lucros. O sujeito ideal do neoliberalismo é aquele que internaliza a vigilância: cobra-se antes que o chefe cobre, atualiza-se antes que o mercado exija, transforma toda hora livre em investimento na própria empregabilidade.

A técnica amplia essa capacidade de comando. Heidegger alertava que a técnica moderna não é mero conjunto neutro de ferramentas: ela enquadra o real para que tudo apareça como recurso disponível. Nas plataformas, esse enquadramento alcança o trabalhador de forma direta. Sua localização, velocidade, aceitação de corridas, avaliações e pausas tornam-se dados administráveis. O algoritmo parece uma entidade objetiva, mas condensa decisões empresariais sobre distribuição de tarefas, remuneração e punição. A opacidade técnica oferece uma nova máscara à velha exploração: não foi um patrão que rebaixou o ganho, foi “o sistema”.

Nem todo poder é persuasão, nem toda ideologia é apenas palavra

Há um risco em leituras apressadas de Althusser: imaginar que bastaria desmascarar um discurso para desfazer a dominação. Mas quem trabalha doze horas para pagar aluguel não permanece numa plataforma apenas porque acreditou em publicidade. Permanece porque precisa viver, porque o emprego formal é escasso, porque a proteção social foi atacada e porque a propriedade dos meios de produção está concentrada. A ideologia opera sobre essa necessidade real; ela não a inventa do nada. Por isso, crítica ideológica sem organização material pode produzir apenas lucidez impotente.

Também seria erro converter a teoria dos aparelhos ideológicos numa desculpa para desprezar a ação dos sujeitos. Instituições são terrenos de disputa. A escola pode reproduzir hierarquias, mas pode ser espaço de pensamento crítico e organização; a comunicação pode servir ao espetáculo descrito por Debord, no qual imagens substituem relações, mas também pode expor a realidade escondida pelo espetáculo. O ponto é não romantizar essas brechas. Elas existem porque há luta de classes dentro e fora das instituições, não porque as instituições tenham abandonado sua função social de reprodução.

No Brasil, o bolsonarismo demonstrou como a ideologia pode combinar ressentimento, moralismo, desinformação e desejo de autoridade. Sua força não nasceu apenas das redes sociais, embora elas tenham acelerado a circulação de afetos e falsidades. Nasceu de uma crise social em que parcelas da população foram levadas a identificar inimigos imaginários — professores, artistas, pobres, movimentos sociais, mulheres, pessoas negras e LGBTQIA+ — no lugar das estruturas que degradam sua vida. A extrema direita oferece pertencimento e explicações simples para dores reais, enquanto protege os interesses econômicos que tornam essas dores permanentes.

Ler Althusser hoje é recusar tanto o cinismo de quem vê manipulação total quanto a ingenuidade de quem chama toda escolha de liberdade. O trabalhador que aceita uma corrida ruim faz uma escolha, mas uma escolha cercada por necessidades construídas socialmente. Reconhecer esse cerco é o começo de outra política: não a promessa individual de vencer o algoritmo, mas a construção coletiva de direitos, controle sobre o trabalho e ruptura com a ordem que transforma vidas em recursos descartáveis. A ideologia perde sua aparência natural quando os sujeitos que ela separa se reconhecem como classe e voltam a nomear aquilo que lhes acontece: exploração.