Reificação é a transformação de relações entre pessoas, capacidades humanas e decisões coletivas em propriedades aparentemente naturais de coisas, números e mecanismos impessoais. Desenvolvido por György Lukács a partir da crítica marxiana ao fetichismo da mercadoria, o conceito mostra que, no capitalismo, não apenas produtos são comprados e vendidos: o tempo, a atenção, o conhecimento, o cuidado e a própria personalidade passam a ser tratados como recursos quantificáveis. A reificação faz parecer que o salário, a meta, o algoritmo ou o preço mandam por si mesmos, escondendo as relações de exploração e poder que os produzem.

De Marx a Lukács: a coisa que governa as pessoas

Marx analisou o fetichismo da mercadoria para explicar por que um produto vendido no mercado parece possuir valor por natureza. Uma camiseta, por exemplo, aparece diante do consumidor como um objeto com preço, marca e qualidade. Ficam apagados o trabalho de quem costurou, as jornadas, a matéria-prima, a cadeia logística e a relação entre patrões e trabalhadores que tornou aquela peça possível.

Lukács, sobretudo em História e consciência de classe, radicaliza esse diagnóstico. Para ele, a forma mercadoria não fica limitada ao comércio de objetos: ela organiza a sociedade inteira. Quando tudo precisa ser calculado, padronizado, comparado e administrado para circular como valor, as relações humanas assumem a aparência de relações entre coisas. A reificação é justamente essa objetivação alienada: um mundo criado por seres humanos se apresenta a eles como uma realidade rígida, externa e inevitável.

Isso não significa que coisas, técnicas ou medidas sejam ruins em si. O problema é histórico e social: sob o capitalismo, a medida serve à acumulação privada e submete a vida à rentabilidade. O trabalhador deixa de aparecer como sujeito que produz riqueza e passa a ser visto como custo, desempenho, indicador ou “capital humano”.

Como a reificação opera no trabalho e na consciência

A reificação depende de práticas cotidianas. A divisão extrema das tarefas separa quem trabalha do sentido total do que produz. A burocracia transforma decisões políticas em procedimentos técnicos. A concorrência coloca trabalhadores uns contra os outros. E a gestão por metas converte tempo, disposição e inteligência em unidades de rendimento.

Num call center, a fala de uma atendente pode ser reduzida a tempo médio de atendimento, número de chamadas, taxa de conversão e nota de satisfação. Ela não é considerada uma pessoa que escuta e resolve problemas em condições frequentemente extenuantes, mas uma unidade produtiva monitorada por painéis. Se adoece, se precisa de uma pausa ou se recusa a seguir um roteiro absurdo, o sistema registra uma queda de performance. A relação social entre empresa, gestão e trabalhadora aparece como um dado técnico: a métrica parece exigir o sacrifício.

Com isso, a reificação alcança a consciência. As pessoas podem passar a interpretar desemprego como falha individual, exaustão como falta de disciplina e desigualdade como resultado natural de talentos diferentes. A ideologia não precisa apenas mentir deliberadamente; ela opera quando a estrutura social se torna invisível e seus efeitos parecem fatos inevitáveis. A frase “o mercado está pedindo” frequentemente cumpre essa função: apresenta interesses de empresas e investidores como se fossem uma voz neutra da realidade.

Reificação no Brasil das plataformas e da avaliação permanente

No Brasil, a expansão das plataformas digitais tornou a reificação especialmente visível. O entregador de aplicativo é apresentado como parceiro, microempreendedor e dono do próprio tempo. Na prática, sua jornada, sua rota, sua remuneração e até sua permanência na plataforma são condicionadas por regras opacas, tarifas variáveis e avaliações controladas pela empresa. Seu trabalho aparece na tela como entrega concluída, nota do cliente, taxa de aceitação e disponibilidade. A pessoa concreta — com cansaço, risco de acidente, custos de manutenção e necessidade de renda — é reduzida a dados gerenciáveis.

O algoritmo, então, ganha uma aparência quase soberana. Diz-se que “o sistema” distribuiu menos corridas ou que “a demanda” baixou, como se não houvesse uma empresa definindo critérios, apropriando-se de informações e protegendo seu lucro. A tecnologia não cria sozinha a reificação; ela pode aprofundá-la quando é organizada para extrair mais trabalho, controlar condutas e deslocar responsabilidades empresariais para indivíduos isolados.

Na educação, um professor também enfrenta essa lógica quando seu trabalho é comprimido em indicadores de aprovação, frequência, produtividade acadêmica ou desempenho em testes. Ensinar envolve vínculo, preparação, escuta e elaboração coletiva — atividades que não cabem inteiramente em planilhas. Mas a gestão empresarial da escola e da universidade tende a reconhecer apenas o que pode ser contabilizado. O que não vira número parece não existir, embora seja precisamente o que sustenta a formação humana.

Uma crítica à naturalização capitalista

A força crítica do conceito de reificação está em recusar a ideia de que as formas atuais de trabalho, consumo e administração são inevitáveis. Preço, algoritmo, produtividade e avaliação são construções sociais. Podem parecer autônomos porque o capitalismo separa os produtores das decisões sobre o que, como e para quem produzir.

Reconhecer a reificação não é negar a materialidade das necessidades nem imaginar uma vida sem técnica ou organização. É identificar quem controla os instrumentos, quais interesses orientam as medidas e por que a riqueza social produzida por muitos retorna como poder sobre eles. Contra a redução da vida a desempenho e valor de mercado, a crítica de Lukács recoloca uma questão política: recuperar o controle coletivo sobre relações sociais que hoje se impõem como coisas.