A polarização que atravessa a política brasileira não nasceu simplesmente da diferença entre opiniões nem de uma súbita incapacidade nacional de conversar. Ela possui uma infraestrutura econômica. Redes sociais, motores de recomendação e mercados publicitários descobriram que a atenção humana rende mais quando é capturada pela raiva, pelo medo e pela sensação de pertencimento a um campo sitiado. A briga permanente não é apenas tolerada pelas plataformas: ela é o formato mais eficiente para manter pessoas conectadas, produzindo dados, vendo anúncios e oferecendo gratuitamente sua vida social ao capital.
Isso não significa que os conflitos políticos sejam falsos. A desigualdade é real, o racismo é real, a violência policial é real, a destruição de direitos trabalhistas é real, assim como é real o projeto autoritário que encontrou no bolsonarismo uma de suas formas mais agressivas. O problema está em como a máquina digital recorta tais antagonismos. Ela reduz processos históricos, interesses de classe e decisões institucionais a uma sucessão incessante de escândalos, frases de efeito, vídeos curtos e inimigos individuais. A plataforma não precisa inventar todo o conflito; basta-lhe selecionar, amplificar e monetizar aquilo que impede a reflexão de alcançar suas causas.
O conflito convertido em matéria-prima
O modelo de negócio das grandes plataformas depende de permanência, recorrência e previsibilidade. Quanto mais tempo alguém passa rolando uma tela, reagindo a uma provocação ou retornando para responder a um desconhecido, mais sinais comportamentais entrega. Esses sinais alimentam sistemas de segmentação comercial e política. A pessoa não é a cliente principal: é simultaneamente força de trabalho não remunerada, fornecedora de dados e mercadoria oferecida a anunciantes, campanhas e intermediários. Sua indignação é capturada como valor.
Marx mostrou que o capitalismo não se limita a trocar objetos no mercado; ele organiza relações sociais de modo que o trabalho apareça como coisa e a coisa adquira poder sobre quem a produziu. Nas plataformas, a alienação ganha uma camada peculiar. O usuário imagina estar apenas opinando, informando-se ou defendendo uma causa, mas participa de uma engrenagem que transforma sua atividade comunicativa em ativo privado. O comentário furioso, o compartilhamento alarmado e a resposta sarcástica parecem atos espontâneos. Ao mesmo tempo, integram uma produção contínua de circulação, visibilidade e lucro.
É por isso que a moderação empresarial tem limites tão estreitos. Plataformas podem remover conteúdos quando há risco jurídico, pressão pública ou ameaça à reputação de suas marcas, mas não têm interesse estrutural em acabar com o ambiente que converte choque em tráfego. A linguagem civilizada e o debate informado não desaparecem por falha moral de indivíduos; eles perdem espaço porque costumam ser menos rentáveis do que a ofensa que exige réplica, a mentira que demanda desmentido e a humilhação que convoca uma multidão.
A política rebaixada à torcida
O bolsonarismo compreendeu com especial brutalidade essa lógica. Sua comunicação não dependia prioritariamente de consistência programática, mas da ocupação incessante da atenção por meio de inimigos: professores, artistas, jornalistas, movimentos sociais, indígenas, feministas, trabalhadores organizados, instituições democráticas e qualquer figura que pudesse ser apresentada como ameaça abstrata à ordem. A provocação calculada produzia reação; a reação confirmava para seus seguidores a narrativa de perseguição; a narrativa gerava novo engajamento. Não se tratava apenas de discurso, mas de uma técnica política ajustada ao mecanismo de distribuição das plataformas.
Chamar isso de simples excesso dos dois lados é reproduzir uma mentira confortável. Há uma assimetria entre a crítica social que aponta exploração, racismo e autoritarismo, e uma extrema direita que mobiliza preconceito, violência e fantasias conspiratórias para proteger hierarquias. Mas a arquitetura digital pode converter até essa assimetria em espetáculo equivalente. Debord descreveu uma sociedade em que a experiência social é mediada por imagens e a realidade aparece como representação separada de quem a vive. Na tela, a greve, a fome, a violência contra uma mulher ou uma ameaça golpista podem surgir lado a lado com a piada, a publicidade e o comentário de um influenciador. O acontecimento perde espessura histórica e torna-se mais um objeto de consumo rápido.
Assim, a divergência sobre salário, moradia, saúde pública ou jornada de trabalho é deslocada para identidades de torcida. O trabalhador de call center que cumpre metas monitoradas minuto a minuto, o professor submetido a contratos instáveis e o entregador que pedala sob chuva para cumprir uma corrida mal paga possuem problemas materiais concretos. Entretanto, ao abrir o celular, recebem uma dieta de guerras culturais desenhada para fazê-los discutir símbolos sem tocar na propriedade, na exploração e na organização coletiva do trabalho. A política torna-se uma arena em que se escolhe um time, enquanto os donos da arena vendem ingressos, dados e publicidade.
A multidão conectada e o ressentimento administrado
Gustave Le Bon, apesar dos limites conservadores de sua psicologia das multidões, percebeu que coletividades podem ser conduzidas por imagens simples, repetição e contágio afetivo. A plataforma atualiza esse mecanismo sem exigir a presença física da praça ou do comício. Ela fabrica multidões intermitentes, disponíveis a qualquer hora, treinadas por notificações e recompensas para reagir antes de compreender. Um boato não precisa convencer racionalmente todos os seus destinatários; basta acionar medo ou repulsa suficientes para circular. A circulação, e não a verdade, é o critério decisivo do sistema.
Essa dinâmica é particularmente corrosiva num país em que a insegurança material já produz sofrimento cotidiano. O trabalhador precarizado sabe que sua vida está apertada, que o aluguel pesa, que a jornada invade o descanso e que os serviços públicos são insuficientes. A extrema direita oferece culpados mais fáceis do que o capital: o pobre que recebe benefício, o imigrante, a professora, a pessoa trans, o artista, o movimento popular. As plataformas oferecem o circuito perfeito para essa compensação imaginária. Em vez de reconhecer a estrutura que explora, o sujeito é convidado a desfrutar por alguns segundos da punição simbólica de alguém transformado em inimigo.
A esquerda não está fora dessa captura apenas porque defende causas justas. Também pode confundir alcance com organização, viralização com consciência e indignação com estratégia. Um post acertado contra um empresário ou um político pode circular intensamente e, ainda assim, terminar como combustível para o mesmo mecanismo que dispersa a atenção. A questão não é abandonar a disputa digital, pois ela atravessa a vida social, mas recusar sua gramática como horizonte. Não basta vencer a frase do dia se as condições para pensar coletivamente permanecem subordinadas ao lucro de empresas que lucram com a fragmentação.
Romper o circuito exige recolocar a classe no centro
Falar de polarização como produto não é pedir conciliação com fascistas nem lamentar, com nostalgia abstrata, um suposto passado de debate sereno. É identificar quem ganha quando a sociedade inteira é mantida em estado de excitação e impotência. A empresa de tecnologia ganha com o tempo de tela; anunciantes ganham com a atenção segmentada; operadores políticos autoritários ganham com o medo disseminado; elites econômicas ganham quando a revolta popular se volta contra alvos laterais. Quem perde é a capacidade de reconhecer interesses comuns entre os explorados.
O antídoto não é uma higiene individual de consumo, como se bastasse silenciar perfis e ajustar configurações. Trata-se de enfrentar o poder privado que organiza a comunicação pública, defender regulação democrática que limite a opacidade algorítmica e, sobretudo, reconstruir vínculos políticos fora do regime da reação instantânea. Sindicato, associação de bairro, movimento por moradia, coletivo estudantil e organização popular não são relíquias de uma era anterior à internet. São espaços em que a experiência deixa de aparecer como dado isolado e pode tornar-se compreensão compartilhada.
A briga que nos vendem prospera quando cada pessoa acredita estar sozinha diante de uma tela e cercada por inimigos. A política emancipatória começa quando o entregador percebe no professor, na auxiliar de enfermagem e no operador de telemarketing não adversários de uma disputa cultural infinita, mas companheiros submetidos a formas distintas da mesma ordem. A plataforma deseja uma multidão excitada; a luta de classes exige uma coletividade consciente de quem produz a riqueza e de quem se apropria dela.
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