Pós-verdade é a condição política e cultural em que fatos verificáveis deixam de ser o principal critério para formar opinião, enquanto a identificação emocional com uma narrativa, um líder ou um grupo passa a decidir o que parece verdadeiro. Não significa que as pessoas tenham parado de receber informações: significa que a circulação excessiva, acelerada e segmentada de conteúdos torna possível selecionar “fatos” convenientes, desacreditar qualquer fonte incômoda e transformar crenças em identidade. A mentira, nesse quadro, não precisa convencer a todos; basta produzir confusão, cansaço e lealdade entre os já convertidos.

Origem: da propaganda à pós-verdade

O termo ganhou grande circulação na década de 2010, sobretudo depois de campanhas como a do Brexit e a eleição de Donald Trump, mas o mecanismo é bem mais antigo. Estados, igrejas, empresas e movimentos autoritários sempre usaram propaganda para moldar percepções. O fascismo histórico fez disso uma técnica de governo: repetição, fabricação de inimigos, apelo ao medo e à grandeza nacional, substituição da análise das condições materiais por mitos de raça, ordem e destino.

A novidade não é que a política tenha descoberto a mentira. É que a infraestrutura digital industrializou sua produção, distribuição e personalização. Redes sociais e mecanismos de busca não organizam o debate público segundo relevância democrática ou compromisso com a verdade; organizam-no segundo atenção, retenção e lucratividade. Conteúdo que indigna, assusta ou confirma preconceitos tende a circular mais porque mantém usuários conectados, gera dados e vende publicidade.

Como a pós-verdade opera

A pós-verdade não exige que uma falsidade seja plenamente crível. Ela funciona quando instala a suspeita generalizada: se tudo seria manipulação, se toda imprensa “mente”, se todo dado é interesseiro, então a evidência perde força e o sujeito se refugia naquilo que reafirma sua comunidade. O debate deixa de perguntar o que aconteceu? e passa a perguntar de que lado você está?.

Esse processo combina fragmentos verdadeiros, interpretações distorcidas, imagens fora de contexto e falsificações diretas. Uma informação pode ser tecnicamente correta e, ainda assim, servir à mentira quando é recortada para ocultar causas, proporções e relações. A divulgação isolada de um crime, por exemplo, pode alimentar pânico moral e racismo sem explicar a desigualdade, a violência policial ou as condições de vida que estruturam a questão.

Também há uma divisão social do trabalho da desinformação. Empresários de plataformas fornecem a infraestrutura; grupos políticos produzem e testam mensagens; influenciadores lhes dão rosto e intimidade; perfis automatizados amplificam; usuários comuns distribuem o material como se prestassem um serviço à família ou à pátria. A aparência espontânea dessa circulação esconde interesses econômicos e projetos de poder.

No Brasil: bolsonarismo, plataformas e medo social

No Brasil, a pós-verdade encontrou terreno fértil na crise de representação política, na concentração dos meios de comunicação, na precarização do trabalho e no uso massivo de WhatsApp, YouTube, Telegram e outras plataformas. O bolsonarismo não se sustenta apenas em notícias falsas isoladas. Sua força reside na construção de um universo em que universidades, jornalistas, artistas, movimentos sociais, profissionais da saúde e instituições eleitorais aparecem como inimigos de um “povo de bem” permanentemente ameaçado.

Durante a pandemia de covid-19, essa lógica teve efeitos concretos: ataques à vacinação, promoção de tratamentos sem eficácia comprovada e relativização das mortes. Não se tratava somente de ignorância individual. Havia uma disputa pelo sentido da realidade, em que reconhecer a gravidade da crise significava confrontar a narrativa de um governo comprometido em preservar a atividade econômica e sua base política, ainda que à custa da vida dos trabalhadores.

O entregador de aplicativo que recebe dezenas de vídeos no celular entre uma corrida e outra, a professora pressionada por mensagens de grupos de pais e a trabalhadora de call center submetida a metas exaustivas não dispõem das mesmas condições de tempo, descanso e acesso a fontes confiáveis que setores mais protegidos. A crítica à pós-verdade não pode, por isso, tratar quem compartilha uma mentira como defeituoso moral. A exaustão, a insegurança e o isolamento criam necessidades reais de pertencimento e respostas rápidas.

Uma crítica para além da checagem

Checar fatos é necessário, mas insuficiente. Desmentidos pontuais raramente desfazem uma crença que oferece identidade, explicação simples e inimigos visíveis. Além disso, a própria economia das plataformas recompensa a controvérsia: a correção sóbria costuma render menos atenção que a mentira escandalosa. Combater a pós-verdade exige enfrentar o poder das empresas de tecnologia sobre a circulação da informação, defender comunicação pública e jornalismo independente e reconstruir espaços coletivos de formação política.

Há ainda um limite decisivo: uma sociedade fundada em desigualdade produz diariamente experiências que parecem desmentir o discurso oficial. Quando o trabalhador ouve que a economia melhora, mas enfrenta aluguel alto, jornada extensa e salário insuficiente, sua desconfiança tem uma base material. A extrema direita captura esse mal-estar e o dirige contra bodes expiatórios. Uma resposta democrática e socialista precisa recolocar no centro as causas reais: exploração do trabalho, concentração de riqueza e domínio privado sobre a técnica e a informação.