Comunismo o que é não é uma pergunta inocente quando aparece numa busca, numa sala de aula ou numa conversa de família. Ela chega carregada por décadas de Guerra Fria, catequese anticomunista, manchetes que chamam qualquer política pública de ameaça totalitária e uma direita brasileira que transformou a palavra em insulto automático. O problema desse repertório não é apenas sua pobreza intelectual. É sua função ideológica: impedir que se faça a pergunta mais perigosa para a ordem existente. Por que uma minoria pode possuir os meios que tornam a vida de todos possível — terra, fábricas, logística, dados, plataformas — enquanto a maioria depende de vender diariamente sua força de trabalho para sobreviver?
Enciclopédias podem informar que o comunismo é uma doutrina política e econômica associada a Marx, à propriedade coletiva e à superação das classes. Isso é correto, mas insuficiente. O que interessa é perceber que comunismo não começa como desenho administrativo de um Estado que distribui tudo; ele começa como crítica material a uma sociedade em que quem trabalha não controla o trabalho, seus instrumentos, seu ritmo nem o destino da riqueza que produz. É a recusa de tratar essa expropriação como lei da natureza. No Brasil das plataformas, essa crítica deixa de parecer assunto de museu quando se observa um entregador pedalando sob chuva para cumprir uma meta que não definiu, guiado por um algoritmo que não conhece e remunerado por uma empresa que frequentemente se apresenta como mera intermediária tecnológica.
Comunismo o que é quando a plataforma chama exploração de autonomia
O entregador não é submetido ao velho patrão de relógio de ponto e escritório, mas isso não o torna livre. A plataforma fixa ou influencia preços, distribui chamadas, organiza punições, estabelece critérios opacos de bloqueio e concentra os dados de toda a operação. Ao trabalhador restam os custos: bicicleta ou moto, combustível, manutenção, celular, internet, risco de acidente, tempo de espera e insegurança diante de uma conta que pode ser desativada sem diálogo real. A palavra parceiro, repetida pela empresa, é uma peça de publicidade destinada a tornar aceitável aquilo que, em termos concretos, é subordinação sem direitos.
Marx chamou de mais-valia a parcela de riqueza produzida pelo trabalhador e apropriada pelo proprietário dos meios de produção. Não se trata de uma relíquia da fábrica inglesa do século XIX. A plataforma atualiza esse mecanismo ao extrair valor do trabalho de milhares de pessoas e ao converter cada trajeto, avaliação, clique e localização em informação proprietária. O aplicativo não inventou o trabalho do entregador; ele organizou esse trabalho sob uma forma que amplia o poder de comando empresarial e dispersa os trabalhadores, dificultando sua organização coletiva. A tecnologia, nesse caso, não é uma força neutra que caiu do céu. Ela é desenhada e administrada dentro de relações capitalistas de propriedade.
É precisamente aí que a pergunta sobre o comunismo ganha conteúdo. Comunismo significa, em seu núcleo, a superação de uma sociedade em que os produtores são separados dos meios de produzir e reproduzir a vida. Não é a promessa infantil de que ninguém precisará trabalhar, nem a fantasia de uma burocracia que decidirá individualmente cada desejo. É a perspectiva de organizar coletivamente a produção social para que ela responda às necessidades humanas, e não à acumulação privada. Se a logística urbana depende de uma multidão de trabalhadores, de vias públicas, de restaurantes, de redes de comunicação e de infraestrutura social construída por gerações, por que o comando e o excedente devem pertencer a acionistas e fundos distantes?
O espantalho do Estado serve para preservar a propriedade
Quando alguém pergunta “mas e as experiências históricas que se disseram comunistas?”, a questão é legítima e não exige silêncio nem devoção. Houve revoluções, guerras, bloqueios externos, industrializações aceleradas, burocratizações e violências de Estado que precisam ser examinadas sem hagiografia. Mas reduzir comunismo a qualquer Estado que tenha usado esse nome é uma operação tão grosseira quanto definir liberalismo apenas pelos golpes, colonialismos e massacres cometidos por Estados capitalistas. Mais importante: para Marx, o comunismo não era a eternização do Estado, mas a transformação das condições sociais que tornam necessário um aparato separado de dominação de classe.
Isso não absolve experiências históricas nem permite esconder seus fracassos. Ao contrário, impede que o debate seja feito com truques. O bolsonarismo soube explorar esse truque como poucos: chamava de comunismo uma universidade pública, o Sistema Único de Saúde, uma política de combate à fome, a defesa de direitos trabalhistas ou qualquer adversário que recusasse sua política de morte. A palavra virou senha de pânico moral. Como observou Gustave Le Bon ao tratar das multidões, palavras carregadas de imagens vagas podem mover afetos coletivos com enorme força. Na extrema direita, “comunismo” funciona menos como conceito e mais como recipiente onde se despejam medo, ressentimento e nostalgia de hierarquias.
O efeito político é concreto. Enquanto o debate público se perde na ficção de que um professor, uma artista ou um sindicato estariam prestes a implantar uma ditadura vermelha, o capitalismo realmente existente avança sem ser nomeado: privatiza serviços, desregula vínculos, entrega recursos públicos a interesses privados e chama toda precarização de modernização. O trabalhador que aceita jornadas extensas porque precisa pagar aluguel é convidado a enxergar como inimigo não a empresa que reduz sua remuneração, mas o colega que reivindica proteção social. A ideologia opera justamente quando as relações históricas parecem inevitáveis e seus beneficiários desaparecem de cena.
Não há liberdade onde sobreviver depende de obedecer ao algoritmo
A defesa do capitalismo costuma responder que o entregador é livre para desligar o aplicativo. É uma liberdade formal, parecida com a liberdade de escolher entre aceitar um emprego precário ou não pagar as contas. Marx distinguiu a liberdade jurídica abstrata da coerção material: trabalhadores são livres para vender sua força de trabalho, mas não são livres da necessidade de vendê-la quando não possuem meios próprios de viver. A igualdade do contrato encobre uma desigualdade anterior e decisiva entre quem detém propriedade, capital e poder de espera, e quem tem urgência.
Debord ajuda a enxergar outra camada dessa captura. A sociedade do espetáculo não apenas vende mercadorias; ela produz imagens que tornam a exploração admirável. O entregador aparece na publicidade como empreendedor sorridente, senhor do próprio tempo, enquanto sua rotina é definida por avaliações, incentivos variáveis e metas. O professor transformado em prestador de serviço, a trabalhadora de call center vigiada por métricas e o motorista pressionado por tarifas dinâmicas recebem a mesma mensagem: se não prosperaram, faltou esforço individual. A meritocracia converte uma estrutura de classe em defeito de caráter.
O comunismo não começa pela fantasia de tomar tudo de alguém; começa pela pergunta sobre quem produz tudo e por que quase nunca decide os rumos do que produziu.
Essa pergunta não pede que se idealize pobreza, escassez ou centralização autoritária. Ela exige imaginar instituições democráticas capazes de submeter a economia à deliberação dos que trabalham e vivem suas consequências. Exige discutir controle coletivo, redução do tempo de trabalho, socialização dos ganhos tecnológicos, serviços públicos robustos e formas de propriedade que não deixem necessidades vitais sob o comando de plataformas e mercados. O caminho concreto para isso não cabe numa fórmula, mas a direção é nítida: ampliar o poder social dos trabalhadores contra o poder privado do capital.
Talvez seja por isso que a simples palavra comunismo ainda provoque tanta reação. Ela recorda que o capitalismo não é sinônimo de civilização, liberdade ou natureza humana. É uma forma histórica de organizar a produção, fundada na separação entre propriedade e trabalho, e pode ser transformada. Para o entregador que sustenta a cidade sem participar das decisões sobre a plataforma que o explora, essa não é uma abstração acadêmica. É a possibilidade de deixar de ser tratado como acessório descartável de um aplicativo e passar a ser reconhecido como sujeito da riqueza social que ajuda a criar.
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