Autoengano é a disposição de sustentar crenças confortáveis contra evidências incômodas, sobretudo quando reconhecer a realidade exigiria mudar de posição, de interesse ou de vida. Não se trata apenas de mentir para si mesmo de modo deliberado, nem de cometer um engano inocente: é um trabalho psíquico e social de tornar suportável uma situação que, vista sem filtros, pediria ruptura, responsabilidade ou conflito. Numa sociedade desigual, o autoengano não nasce só da fraqueza individual. Ele é alimentado por ideologias que apresentam relações de exploração como escolhas livres, privilégios como mérito e catástrofes coletivas como problemas privados.

Entre a mentira consciente e a crença conveniente

Quem se autoengana frequentemente conhece, em algum nível, aquilo que procura negar. O empresário que diz que seus funcionários são “uma família” pode saber que demitirá parte deles para preservar a margem de lucro. O consumidor que atribui sua exaustão apenas à falta de organização pode perceber que trabalha demais, mas evita ligar esse cansaço às exigências do emprego. A crença confortável não precisa eliminar inteiramente os fatos; basta reorganizá-los, minimizá-los ou cercá-los de justificativas.

Por isso, o autoengano não deve ser reduzido a uma falha moral individual ou a um diagnóstico psicológico apressado. Há pessoas que negam uma perda, uma dependência ou uma violência porque ainda não dispõem de condições materiais e afetivas para encará-las. Mas há também um autoengano que protege posições de poder: a recusa em reconhecer que a própria segurança repousa no trabalho precário de outros, que a riqueza não decorre somente de esforço ou que certas opiniões produzem efeitos concretos sobre vidas vulneráveis.

Ideologia e preservação da ordem

Na crítica marxista, a ideologia não é simplesmente uma coleção de ideias falsas postas na cabeça das pessoas. Ela é uma forma de perceber o mundo que oculta as relações sociais que o produzem. O autoengano participa desse mecanismo quando transforma estruturas históricas em destino pessoal ou naturalidade. “Sempre haverá pobres”, “quem quer consegue”, “o mercado recompensa os melhores” e “política não se mistura com trabalho” são frases que parecem explicar a realidade, mas servem para dispensar a pergunta sobre quem controla a riqueza, quem decide as regras e quem arca com os riscos.

Marx mostrou como, no capitalismo, relações entre pessoas podem aparecer como relações entre coisas. A mercadoria parece ter valor por si, como se preços, salários e lucros fossem propriedades naturais dos objetos. O autoengano cotidiano acompanha esse fetichismo: compra-se uma entrega rápida sem considerar a jornada do entregador; celebra-se a conveniência do aplicativo sem olhar a transferência de custos e riscos para quem pedala; trata-se o algoritmo como uma força neutra, não como instrumento administrado por empresas com interesses definidos.

O autoengano se torna socialmente eficaz quando uma explicação conveniente permite continuar vivendo como antes sem enfrentar quem paga o preço dessa normalidade.

Como ele opera no cotidiano

O autoengano opera por seleção. Destaca casos excepcionais e descarta padrões; chama de “oportunidade” aquilo que é falta de alternativa; converte coerção econômica em autonomia. O entregador de aplicativo pode repetir que é empreendedor porque essa linguagem oferece alguma dignidade diante de uma atividade sem salário garantido, proteção trabalhista ou controle sobre o próprio tempo. A responsabilidade maior, porém, não é dele: está nas plataformas, na publicidade e no discurso empresarial que vendem liberdade onde existe subordinação organizada por metas, notas e bloqueios.

O mesmo vale para o professor que compra com recursos próprios materiais básicos e interpreta esse gasto como vocação, quando o Estado e as instituições se desobrigam de oferecer condições adequadas de trabalho. Ou para a atendente de call center que se culpa por não atingir metas deliberadamente inalcançáveis, em vez de reconhecer uma gestão que usa monitoramento, competição e ameaça de demissão para extrair mais trabalho. O autoengano individual encontra aí uma máquina pronta para produzi-lo: cada pessoa é levada a atribuir a si o fracasso que foi socialmente fabricado.

Autoengano no Brasil hoje

No Brasil, a desigualdade extrema convive com narrativas que moralizam a sobrevivência. A figura do empreendedor de si ajuda a ocultar o desemprego, a informalidade e a redução de direitos. Quem vende comida na rua, dirige por aplicativo ou faz bicos pela internet é celebrado como exemplo de iniciativa, enquanto a ausência de renda estável e proteção social desaparece da cena. Não se trata de desprezar a inventividade de quem precisa sobreviver, mas de recusar que ela seja usada para naturalizar o abandono.

Também no debate político, o autoengano prospera quando a indignação seletiva substitui a análise. Corrupção, violência e crise econômica são tratadas como defeitos exclusivos de um grupo adversário, nunca como problemas ligados a instituições, interesses de classe e formas persistentes de poder. As plataformas digitais intensificam esse processo ao organizar ambientes em que cada usuário recebe confirmação contínua de suas crenças. A repetição, o escândalo e a pertença a um grupo podem valer mais do que a verificação dos fatos.

Romper não é apenas “aceitar a verdade”

Romper com o autoengano exige mais do que boa vontade ou acesso a informação correta. Muitas pessoas já recebem sinais suficientes de que algo está errado, mas reconhecê-los pode ameaçar renda, identidade, vínculos familiares ou a esperança de ascensão. A crítica social precisa considerar esse custo sem absolver as mentiras que sustentam opressões. Desfazer o autoengano implica ligar experiências aparentemente privadas — ansiedade, dívida, esgotamento, medo de cair de padrão — às relações de trabalho e poder que as organizam.

Essa passagem é política. Quando o entregador deixa de enxergar a si apenas como empreendedor isolado e se reconhece como trabalhador entre outros trabalhadores; quando o professor recusa tratar o sucateamento como sacrifício inevitável; quando a atendente percebe que a meta é uma técnica de dominação, abre-se a possibilidade de ação coletiva. A realidade pode ser incômoda, mas é somente ao encará-la que se deixa de confundir adaptação com liberdade.