Imperialismo não é uma palavra reservada aos livros de história, às guerras do século XX ou às imagens de tropas estrangeiras ocupando um território. Ele continua sendo uma relação material entre países, classes e capitais: um mecanismo pelo qual centros econômicos concentram tecnologia, finanças, patentes e poder de decisão, enquanto periferias como o Brasil fornecem trabalho barato, matérias-primas, terras, dados e mercados consumidores. A bandeira nacional hasteada em Brasília não elimina a dependência quando decisões decisivas sobre crédito, investimento, cadeias produtivas e comunicação são tomadas em conselhos de administração, fundos financeiros e plataformas sediadas fora daqui.
Tratar o imperialismo como coisa morta interessa precisamente a quem lucra com ele. Se a dependência aparece como simples resultado de incapacidade administrativa, corrupção local ou falta de mérito individual, desaparece do quadro a estrutura que subordina a economia brasileira à valorização de capitais que não obedecem às necessidades do povo brasileiro. A ideologia liberal transforma uma relação histórica de dominação em defeito moral do dominado: o país seria pobre porque não se modernizou bastante; o trabalhador seria pobre porque não empreendeu bastante. Assim, a espoliação ganha o verniz da responsabilidade individual.
O imperialismo como comando sobre a riqueza produzida aqui
Na tradição marxista, o imperialismo não significa apenas a presença de uma potência estrangeira mandando diretamente em outro país. Ele corresponde a uma fase em que o capital busca, para além de suas fronteiras, novos espaços de lucro, fontes de recursos, mercados e trabalho explorável. O desenvolvimento desigual não é um acidente corrigível com boa vontade diplomática. É uma condição da acumulação capitalista: alguns territórios concentram os meios mais avançados de produzir, financiar e controlar; outros são mantidos como fornecedores subordinados, mesmo quando possuem indústria, cidades gigantescas e instituições formais de Estado.
O Brasil oferece uma cena nítida dessa engrenagem. Exporta commodities agrícolas e minerais em larga escala, enquanto importa máquinas, tecnologias estratégicas, componentes, softwares e direitos de propriedade intelectual que concentram valor. Não se trata de dizer que toda exportação é, por si, imperialista, nem de imaginar uma autarquia romântica. O problema é a posição subordinada numa divisão internacional do trabalho em que a maior parte do valor e do poder de decisão se desloca para fora, enquanto aqui permanecem a devastação ambiental, a pressão sobre territórios indígenas e camponeses, os empregos instáveis e a vulnerabilidade aos preços internacionais.
Quando a terra é organizada para atender à rentabilidade de grandes cadeias globais, a comida deixa de ser primariamente uma questão de abastecimento popular e passa a ser ativo de exportação. Quando o minério sai bruto ou pouco processado, a riqueza geológica se converte em lucro privado distante, enquanto comunidades convivem com barragens, contaminação e destruição de seus modos de vida. O imperialismo, nesse sentido, não é uma força exterior que age sem aliados internos. Ele depende de uma classe dominante brasileira disposta a negociar o território, o orçamento público e a força de trabalho em troca de sua participação nos ganhos.
Plataformas digitais são a nova infraestrutura do imperialismo
A dependência contemporânea também circula pelo celular. O entregador de aplicativo que pedala sob chuva em São Paulo, Recife ou Belo Horizonte parece integrar uma economia moderna e sem fronteiras. Mas ele trabalha em uma infraestrutura que não controla: o aplicativo define preços, distribui corridas, bloqueia contas, captura dados e altera regras unilateralmente. A empresa se apresenta como mera intermediária tecnológica, embora exerça um poder concreto de organização do trabalho. Ela não precisa possuir a bicicleta nem contratar formalmente o trabalhador para extrair valor de sua disponibilidade permanente.
Essa forma de uberização tem uma dimensão imperialista quando as plataformas concentram no exterior a propriedade do código, das marcas, das patentes, das bases de dados e dos mecanismos financeiros, deixando nas cidades brasileiras os custos da reprodução da força de trabalho. O entregador compra a moto, paga combustível, arca com manutenção, sofre acidentes e enfrenta jornadas extensas; a plataforma transforma essa circulação em informação comercializável e em renda para investidores. A exploração deixa de parecer exploração porque se disfarça de autonomia. Mas autonomia sem controle sobre preço, algoritmo e condições de trabalho é apenas a antiga subordinação capitalista com interface amigável.
Marx mostrou que a maquinaria, sob o capitalismo, não é neutra: ela pode ampliar a capacidade humana de produzir, mas é introduzida como meio de intensificar o domínio do capital sobre o trabalho. A técnica digital repõe esse conflito em outra escala. O algoritmo não é um sujeito mágico nem uma invenção inevitavelmente opressiva; ele é propriedade de empresas e é programado dentro de relações sociais determinadas. Quando decide quem trabalha, quanto recebe e quem se torna invisível na plataforma, ele funciona como instrumento de comando. A dependência tecnológica brasileira não é apenas falta de computadores nacionais: é ausência de controle coletivo sobre infraestruturas que passaram a mediar trabalho, comunicação e consumo.
A dívida disciplina o Estado e protege a classe dominante
O imperialismo opera ainda pela linguagem aparentemente técnica das finanças. Juros, classificação de risco, metas fiscais e confiança do mercado são apresentados como fenômenos naturais, diante dos quais governos devem se curvar. Porém, por trás dessa gramática existe uma hierarquia concreta: credores, fundos, bancos e grandes proprietários de capital exigem que o Estado garanta a remuneração de seus ativos. Quando o orçamento é comprimido, não se corta uma abstração; cortam-se políticas de saúde, educação, moradia, cultura e proteção social das quais depende a maioria trabalhadora.
Alysson Mascaro insiste que o Estado capitalista não é um árbitro externo entre interesses iguais. Sua forma jurídica organiza e reproduz relações sociais fundadas na mercadoria, na propriedade privada e na exploração. Isso ajuda a entender por que a soberania nacional não pode ser reduzida a discursos patrióticos ou à defesa ritual da bandeira. Um Estado que protege sem hesitação o rentismo, privatiza infraestruturas estratégicas e submete direitos sociais ao humor dos mercados pode falar em nação enquanto administra a dependência. O direito oferece aparência universal a decisões que, na prática, preservam privilégios de classe e tornam a vida popular objeto de ajuste.
É nesse terreno que o bolsonarismo encontrou parte de sua força. Seu nacionalismo barulhento conviveu sem constrangimento com a submissão aos interesses do capital financeiro, com a entrega de patrimônios públicos e com a hostilidade à ciência, à educação e à organização dos trabalhadores. O fascismo não precisa abolir o mercado para servir à dominação; frequentemente, oferece uma solução autoritária para os estragos produzidos pelo próprio capitalismo. Ele desloca a raiva social contra migrantes, pobres, movimentos populares, professores e minorias, protegendo as estruturas que produzem desemprego, endividamento e humilhação.
Contra a fantasia de uma soberania sem povo
Há uma versão conservadora da crítica ao imperialismo que merece recusa. Ela lamenta a perda de poder nacional, mas sonha com um capitalismo brasileiro forte, disciplinado e capaz de explorar melhor seus próprios trabalhadores. Troca-se a dependência externa pela exaltação de empresários nacionais, militares e grandes proprietários, como se a classe dominante interna tivesse interesses idênticos aos da população. Não tem. O empresário que reduz salários para competir globalmente, o latifundiário que expulsa comunidades para ampliar monoculturas e o banqueiro que lucra com juros não se tornam aliados do povo por possuírem documento brasileiro.
Uma política anti-imperialista consequente precisa ligar soberania à transformação das relações de classe. Isso significa defender controle público e democrático sobre setores estratégicos, ciência e tecnologia orientadas às necessidades sociais, integração solidária entre povos latino-americanos, proteção dos territórios e direitos trabalhistas capazes de alcançar também quem trabalha por aplicativo. Significa, sobretudo, negar que o país deva aceitar a precarização como preço inevitável da inserção internacional.
Debord escreveu que o espetáculo não é um conjunto de imagens, mas uma relação social mediada por imagens. A publicidade das plataformas, a celebração do empreendedor solitário e a retórica de modernização cumprem função semelhante: fazem a dependência parecer escolha e a exploração parecer oportunidade. Romper essa aparência exige olhar para quem controla os meios técnicos, financeiros e jurídicos da vida social. O imperialismo persiste porque se atualiza; enfrentá-lo exige que trabalhadores deixem de ser tratados como custo de uma economia alheia e se tornem sujeitos do poder sobre aquilo que produzem.
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