Hegemonismo não é apenas a pretensão de um Estado em mandar sobre os demais. É a forma pela qual uma potência transforma seus próprios interesses econômicos, militares e tecnológicos em regra aparentemente universal. Sua força não reside somente em porta-aviões, sanções ou ameaças diplomáticas. Ela também se impõe por contratos, patentes, normas técnicas, mercados financeiros, plataformas digitais e pela educação política das classes dominantes periféricas. No Brasil, o hegemonismo aparece quando setores empresariais, militares e políticos aceitam que desenvolvimento significa ocupar o posto designado pelo centro do capitalismo: fornecedor de matérias-primas, comprador de tecnologia e território disponível para negócios estratégicos alheios.
Explicar o verbete em termos escolares — domínio de uma nação sobre outras — serve pouco para entender a experiência brasileira. A questão decisiva é saber como essa dominação se torna aceitável aqui. O trabalhador que entrega comida por aplicativo não vê uma bandeira estrangeira sobre sua bicicleta, mas depende de uma plataforma que captura dados, determina preços, estabelece punições automatizadas e remete parte decisiva do valor produzido para circuitos empresariais que ele não controla. O hegemonismo contemporâneo não exige administrar cada detalhe da periferia diretamente. É mais eficiente quando a dependência se apresenta como inovação, oportunidade e integração ao mundo.
O hegemonismo que se chama parceria em Alcântara
O Acordo de Salvaguardas Tecnológicas firmado entre Brasil e Estados Unidos, aprovado em 2019, oferece um retrato concreto desse mecanismo. Alcântara, no Maranhão, tem uma localização privilegiada para lançamentos espaciais por sua proximidade com a linha do Equador. Esse atributo poderia integrar um projeto público de pesquisa, formação científica e desenvolvimento tecnológico nacional e cooperativo. Mas o acordo foi vendido sobretudo como porta de entrada para negócios de lançamento com tecnologias controladas pelos Estados Unidos. A linguagem das “salvaguardas” parece neutra, técnica, inevitável. Contudo, ela revela uma assimetria: quem detém as patentes e os componentes decisivos define as condições de acesso ao território, ao conhecimento e ao mercado.
Não se trata de negar a necessidade de cooperação internacional nem de imaginar uma autarquia tecnológica romântica. Nenhum país produz sozinho todos os instrumentos de que necessita. O problema é a cooperação entre desiguais sob comando privado e imperial. Quando a tecnologia é propriedade monopolista, a parceria costuma significar aluguel de infraestrutura, submissão a regras externas e bloqueio da capacidade de aprender, copiar, adaptar e produzir. O país periférico fornece espaço, recursos públicos, mão de obra e estabilidade jurídica; o centro preserva a propriedade intelectual, a decisão estratégica e a maior parcela dos ganhos. Chamam isso de inserção competitiva. Marx chamaria atenção para a relação material que a frase encobre: quem controla os meios de produção controla o processo e apropria-se do excedente.
Em Alcântara, essa conta não pode apagar as comunidades quilombolas do entorno. A história do centro de lançamento já foi marcada por remoções e deslocamentos de famílias para agrovilas, com consequências profundas para modos de vida, trabalho e território. Sempre que o espaço é apresentado como vazio, técnico ou exclusivamente estratégico, desaparecem as pessoas que vivem nele. Essa é uma operação ideológica recorrente do hegemonismo: converte território habitado em ativo logístico e trata populações racializadas como obstáculo administrativo ao progresso. A soberania evocada pelos defensores do negócio raramente é a soberania de quem planta, pesca, circula e mantém vínculos históricos com a terra. É a soberania dos contratos, isto é, a liberdade do capital para explorar um ponto geográfico valioso.
Dependência não é atraso acidental
O capitalismo mundial não distribui funções por mérito nacional. A ideologia meritocrática, tão aplicada ao indivíduo precarizado, também aparece nas relações entre países: os ricos seriam ricos porque inovaram, os pobres deveriam se esforçar mais, abrir mercados e aceitar reformas. Mas o desenvolvimento das potências capitalistas esteve ligado à colonização, à escravidão, à pilhagem de recursos, à proteção de suas indústrias e ao controle das finanças. Quando esses mesmos países exigem liberalização dos demais, não oferecem uma receita universal; preservam uma hierarquia que lhes é favorável. O hegemonismo é, entre outras coisas, o poder de apresentar essa hierarquia histórica como resultado natural de competência.
É por isso que a dependência brasileira não se reduz a uma pressão externa que bastaria repelir com discursos patrióticos. Ela possui agentes internos. Bancos, exportadores, grandes proprietários, conglomerados de comunicação e parcelas do aparelho de Estado lucram com uma economia subordinada à exportação de commodities, ao endividamento e à compra de tecnologias estrangeiras. Para essa classe dominante, a soberania popular é inconveniente: exigiria orçamento para ciência pública, reforma agrária, controle social de recursos estratégicos, direitos territoriais, proteção trabalhista e planejamento econômico. É mais lucrativo prometer que o mercado internacional recompensará o país se ele se comportar bem.
A adesão bolsonarista aos símbolos e interesses da extrema direita estadunidense tornou essa subordinação especialmente explícita. Houve, naquele período, uma combinação entre anticomunismo delirante, destruição de políticas públicas, desprezo pela pesquisa nacional e alinhamento automático a agendas externas. Mas seria confortável demais imaginar que o hegemonismo entrou no Brasil apenas com Bolsonaro e saiu com ele. O bolsonarismo deu forma grotesca a uma disposição mais antiga das elites brasileiras: a de confundir submissão com modernidade e tratar qualquer projeto de autonomia econômica como atraso ideológico.
A técnica como comando e não como destino
Heidegger observou que a técnica moderna tende a enquadrar o mundo como reserva disponível. Em Alcântara, esse enquadramento é literal: terra, céu, posição geográfica e vidas comunitárias podem ser reduzidos a insumos de uma cadeia espacial. Mas a técnica não cai do céu como força autônoma. No capitalismo, ela é organizada por relações de propriedade e por decisões de classe. Um foguete pode servir à pesquisa meteorológica, à comunicação pública, ao monitoramento ambiental e à cooperação científica; pode também ampliar mercados privados de satélites e consolidar monopólios sobre infraestrutura orbital. A pergunta não é se o Brasil deve ser tecnológico. É quem decide a tecnologia, quem conhece seu funcionamento, quem paga por ela e quem se beneficia dela.
Debord ajuda a entender a camada espetacular dessa operação. Imagens de foguetes, centros modernos e promessas de milhões em investimentos produzem fascínio suficiente para deslocar as perguntas fundamentais. O brilho da inovação substitui o debate sobre propriedade, dependência e reparação territorial. Assim como o aplicativo transforma exploração em flexibilidade, o projeto espacial pode transformar cessão de capacidade estratégica em futuro. O espetáculo não mente necessariamente em cada imagem; ele organiza o visível de modo que as relações sociais decisivas fiquem fora do quadro.
Romper com o hegemonismo exige mais do que alternar parceiros geopolíticos ou buscar uma fatia mais vantajosa no mesmo mercado. Uma política soberana teria de subordinar acordos tecnológicos ao interesse público, garantir os direitos das comunidades quilombolas, financiar ciência e indústria sem entregar suas decisões a monopólios privados e construir formas de cooperação entre povos periféricos que não reproduzam relações coloniais. Isso inclui reconhecer que soberania não é a prerrogativa de militares, diplomatas ou acionistas. Ela só existe materialmente quando a maioria trabalhadora pode participar das escolhas sobre a riqueza, o território e a técnica que produz.
O Brasil não será menos dependente por hospedar operações sofisticadas controladas por outros, do mesmo modo que o entregador não deixa de ser explorado porque seu aplicativo usa inteligência artificial. A linguagem do futuro pode esconder relações muito antigas de expropriação. Alcântara mostra que o hegemonismo não é um capítulo distante da geopolítica: ele atravessa o chão brasileiro, seleciona quem pode decidir e tenta convencer os expropriados de que sua própria exclusão é o preço inevitável do progresso.
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