Privatizar não é apenas transferir a administração de uma empresa pública para um grupo privado. É alterar o sentido político de atividades das quais depende a vida comum. Água, energia, transporte, saneamento, saúde, educação e comunicação podem ter custos materiais, trabalhadores, máquinas e redes complexas; mas não são mercadorias como um tênis ou uma assinatura de entretenimento. São condições para que alguém habite uma cidade, preserve a saúde, estude, trabalhe e exista com um mínimo de dignidade. Quando passam a ser organizadas prioritariamente pela lógica do lucro, ocorre uma conversão silenciosa e brutal: o que era direito se torna serviço, o serviço se torna produto, e o sujeito de direitos se torna cliente.
A diferença não é semântica. O cidadão pode exigir universalidade, continuidade, controle público e atendimento mesmo quando sua renda é insuficiente. O cliente recebe uma oferta contratual, uma fatura e, no limite, a interrupção do serviço. Seu vínculo já não é político, mas comercial. Se não pode pagar, não aparece como alguém privado de um direito: aparece como inadimplente. A linguagem empresarial realiza aqui uma operação ideológica decisiva. Ela esconde a desigualdade de classe sob termos aparentemente técnicos, como eficiência, sustentabilidade financeira, equilíbrio contratual e modernização.
O preço como critério de pertencimento
Todo serviço coletivo exige financiamento. A questão real é quem paga, como paga e para qual finalidade. Num regime orientado por direitos, o financiamento pode ser distribuído pela tributação progressiva, pelo orçamento público e por mecanismos de solidariedade social. Quem tem mais riqueza deve contribuir mais para assegurar que ninguém seja expulso do acesso ao básico. Sob a racionalidade privatista, a tarifa tende a se apresentar como medida natural do consumo individual. Cada pessoa deve pagar pelo que utiliza; cada unidade deve provar sua rentabilidade; cada área atendida deve justificar o investimento por sua capacidade de retorno.
Mas uma cidade não é um shopping center, e sua população não é uma coleção de consumidores equivalentes. Levar água tratada a uma periferia distante, manter uma linha de ônibus em horário de menor movimento, garantir atendimento em uma unidade de saúde de bairro ou conservar uma escola onde não há mercado consumidor lucrativo são tarefas que contradizem o cálculo estreito da rentabilidade. A empresa privada não precisa ser moralmente perversa para agir assim. Basta cumprir sua função: remunerar proprietários e ampliar valor. É justamente por isso que entregar direitos ao mercado não corrige uma suposta falha administrativa; submete necessidades humanas à finalidade que organiza o capitalismo.
Marx mostrou que a mercadoria não é simplesmente uma coisa vendida. Ela é uma forma social que faz relações entre pessoas aparecerem como relações entre coisas e preços. Na privatização, a relação entre a população e um bem indispensável é obscurecida pela conta mensal. A família que deixa de usar adequadamente energia, que adia um remédio, que percorre longas distâncias porque a passagem pesa no orçamento ou que convive com abastecimento precário não é tratada como expressão de uma ordem desigual. Torna-se um caso individual de consumo insuficiente. A violência estrutural se disfarça de escolha econômica.
A eficiência que escolhe quem merece ser atendido
Os defensores da privatização repetem que o Estado é ineficiente e que a gestão privada seria, por definição, mais ágil, inovadora e responsável. Trata-se de uma comparação fraudulenta quando se deixa de perguntar: eficiente para quê e para quem? Uma empresa pode reduzir custos cortando postos de trabalho, intensificando jornadas, terceirizando equipes, automatizando atendimento e abandonando regiões pouco lucrativas. Pode transformar o trabalhador em meta ambulante e o usuário em protocolo de call center. Seus relatórios podem melhorar enquanto piora a experiência de quem depende do serviço.
O trabalhador de atendimento telefônico conhece essa pedagogia da eficiência. Ele precisa resolver demandas em poucos minutos, seguir scripts, suportar monitoramento constante e lidar com a irritação de pessoas que não conseguem acesso a um serviço essencial. A empresa chama isso de produtividade. Na prática, transfere ao empregado a tarefa de administrar uma escassez criada por metas de lucro, cortes e contratos. Também o usuário é individualizado: em vez de uma política pública discutida coletivamente, recebe um labirinto de canais digitais, cobranças automáticas e respostas padronizadas. A privatização produz, simultaneamente, o cliente desamparado e o trabalhador precarizado.
Isso não significa idealizar toda instituição estatal. Serviços públicos podem ser burocráticos, insuficientes e mal administrados; muitas vezes são deliberadamente sucateados por governos que depois usam seu abandono como propaganda da venda. A crítica à precariedade pública, porém, deveria conduzir a mais investimento, planejamento democrático, concurso, controle social e responsabilização de gestores, não à entrega do patrimônio coletivo a agentes cuja obrigação legal é lucrar. Dizer que uma escola, uma companhia de saneamento ou um sistema de transporte público tem problemas não prova que seu remédio seja o mercado. Prova que direitos exigem disputa política e recursos.
O Estado não desaparece, apenas muda de lado
A propaganda privatista costuma vender a imagem de um Estado que se retira para deixar a sociedade respirar. É outra ficção. O Estado continua presente: desenha contratos, garante concessões, regula tarifas, protege a propriedade, oferece incentivos, assume riscos e, quando necessário, socorre negócios considerados estratégicos. O que se altera é a direção dessa força. Em vez de organizar um serviço a partir da necessidade social, ela passa a assegurar as condições para a valorização privada de uma infraestrutura construída, muitas vezes, com recursos públicos e trabalho coletivo.
Alysson Mascaro insiste que o Estado capitalista não deve ser compreendido como uma entidade externa e neutra diante das classes. Sua forma está vinculada às relações sociais do capital. Essa formulação ajuda a evitar duas ilusões: a de que basta ocupar o Estado para que ele se torne automaticamente popular e a de que o mercado seria uma esfera livre de poder político. Privatizações são decisões políticas de classe, ainda que sejam apresentadas como exigências inevitáveis da técnica ou das contas. Elas definem quem controla redes vitais, quem se apropria de receitas futuras e quem assume o ônus quando o serviço falha.
No Brasil, essa operação ganha força em momentos de crise fiscal fabricada ou agravada por escolhas regressivas. Direitos sociais são tratados como despesas excessivas; juros, renúncias e benefícios ao grande capital recebem o nome de responsabilidade. A população é convocada a aceitar menos em nome de um equilíbrio abstrato, enquanto fundos e conglomerados enxergam novas fronteiras de negócio. O bolsonarismo deu a essa agenda uma forma especialmente agressiva: atacou servidores, desprezou políticas públicas e vendeu a destruição da capacidade estatal como libertação. Mas a privatização não pertence exclusivamente a uma sigla. Ela atravessa governos sempre que a gestão do capitalismo é aceita como horizonte incontornável.
Da multidão de cidadãos ao isolamento dos clientes
Há ainda uma perda menos visível: a privatização fragmenta a experiência coletiva. Quem depende de um direito público pode reconhecer no outro alguém submetido à mesma política e, por isso, capaz de lutar junto por melhorias. Quem é reduzido a cliente tende a receber sua dificuldade como problema particular: negociar a dívida, procurar uma promoção, reclamar no aplicativo, trocar de fornecedor quando pode. A desigualdade material impede que essa liberdade de escolha seja real, mas a ideologia do consumo preserva a aparência de autonomia.
Debord descreveu uma sociedade em que a vida social se apresenta mediada por imagens e aparências. A privatização contemporânea também precisa de sua cena: aplicativos polidos, centrais digitais, campanhas que prometem inovação e slogans sobre liberdade. A interface pode ser veloz, mas não elimina a pergunta decisiva: quem fica sem acesso quando a renda falta? A tecnologia, nesse caso, não supera a exclusão; ela a torna mais administrável, mais opaca e menos escandalosa. Um bloqueio automático ou uma tarifa reajustada parecem decisões neutras de sistema, não escolhas que organizam a vida de milhões.
Defender o caráter público dos direitos não é defender filas, abandono ou tutela burocrática. É afirmar que bens indispensáveis não podem depender do poder de compra e que sua gestão deve responder à sociedade, com transparência e participação popular. O cidadão não é uma versão menos eficiente do cliente. É alguém que, ao lado de outros, possui direito sobre a riqueza socialmente produzida. Recuperar essa condição exige recusar a chantagem segundo a qual só há duas opções: um Estado degradado ou a empresa salvadora. Entre o sucateamento planejado e a tarifa como destino, há a luta por serviços efetivamente universais, públicos e governados pelas necessidades de quem trabalha.
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