Anomia, no Brasil dos aplicativos, não designa simplesmente uma sociedade sem normas. Ela aparece, com mais precisão, como uma ordem em que as normas existem em excesso para quem trabalha e desaparecem no momento em que deveriam proteger esse trabalhador. O entregador recebe metas, avaliações, bloqueios, tarifas variáveis, rotas definidas por software e cobranças automáticas; mas não recebe salário garantido, jornada delimitada, explicação para uma punição nem segurança diante de um acidente. A palavra que costuma ser usada para descrever um colapso moral pode, nesse caso, revelar outra coisa: a administração capitalista do desamparo.

Os verbetes enciclopédicos explicam a anomia como enfraquecimento das referências coletivas e das regras que organizam a vida social. A definição tem utilidade, mas é insuficiente quando se olha para a cidade brasileira. Não estamos diante de um vazio normativo espontâneo, como se a sociedade tivesse esquecido como estabelecer limites. Estamos diante de uma reorganização ativa dos limites. O neoliberalismo desmonta proteções públicas, fragmenta vínculos de trabalho e chama o resultado de autonomia. Depois, as plataformas ocupam esse terreno arrasado oferecendo uma mediação técnica que parece neutra, mas que decide quem trabalha, quanto ganha e quando deixa de existir para o sistema.

A anomia como método de gestão

O entregador que liga o aplicativo numa manhã não ingressa em um espaço livre. Ele entra numa fábrica sem paredes, cujo capataz é uma interface. A tela informa que há demanda em determinada área, oferece bônus condicionados a uma sequência de corridas, mede velocidade, registra recusas e produz uma nota cujo cálculo permanece oculto. Cada escolha parece individual: aceitar ou não uma entrega, estender ou não a jornada, atravessar ou não a cidade sob chuva. Contudo, a necessidade de pagar aluguel, comprar comida e manter a motocicleta transforma a escolha formal em compulsão material. A liberdade prometida pelo aplicativo é a liberdade de arcar sozinho com os riscos que antes eram, ao menos em parte, reconhecidos como responsabilidade patronal.

É nesse ponto que a anomia deixa de ser uma noção abstrata e ganha corpo. Há regra para obrigar o trabalhador a estar disponível, mas não há regra efetiva que lhe assegure remuneração suficiente. Há punição para a suposta baixa performance, mas não há instância acessível para contestar a decisão do algoritmo. Há vigilância sobre o percurso, mas não há responsabilidade proporcional da empresa pela integridade de quem percorre a cidade. A assimetria não é uma falha técnica a ser corrigida por um botão de atendimento. É o mecanismo que permite extrair trabalho sem assumir o custo político, jurídico e econômico de reconhecer quem trabalha.

Marx mostrou que a relação salarial capitalista não é uma troca equilibrada entre indivíduos livres: o trabalhador vende sua força de trabalho porque foi separado dos meios de produzir a própria existência. A plataforma atualiza essa separação sob uma linguagem mais sedutora. Em vez do operário diante do dono da fábrica, temos o “parceiro” diante de uma marca colorida; em vez da ordem direta do gerente, temos a notificação; em vez da demissão formal, temos o bloqueio. A aparência mudou porque a empresa precisa ocultar a relação de comando. Nomear o entregador como empreendedor é indispensável para que a subordinação permaneça sem os direitos que a palavra empregado carrega.

Quando a regra privada substitui a proteção coletiva

No trabalho de call center, a mesma estrutura se apresenta com outra aparência. A voz do operador é cronometrada, o tempo de pausa é monitorado, o script limita a fala e uma avaliação permanente associa rendimento a permanência no posto. Já no ensino, especialmente onde contratos temporários, plataformas educacionais e metas de desempenho se expandem, o professor acumula funções administrativas, responde a sistemas e vê a atividade pedagógica reduzida a indicadores. Em cada caso, a promessa gerencial é eficiência. O efeito concreto é a quebra da experiência comum de trabalho: cada pessoa é comparada com as demais, responsabilizada isoladamente por resultados que dependem de infraestrutura, demanda, gestão e condições sociais.

A anomia administrada prospera justamente porque impede que essa experiência se transforme facilmente em consciência coletiva. Se a renda do entregador varia conforme uma tarifa que ele não controla, se o operador teme perder a avaliação e se o professor precarizado disputa uma renovação de contrato, o problema aparece como deficiência pessoal. Trabalhou pouco, recusou corrida demais, não soube se organizar, não foi suficientemente resiliente. A meritocracia funciona aqui como uma ideologia de culpabilização: ela converte a insegurança estrutural em teste de caráter. O indivíduo precarizado é levado a investigar a si mesmo, quando deveria perguntar quem definiu as regras e quem se beneficia delas.

Essa é uma forma contemporânea de alienação. Não basta dizer que o trabalhador não controla o produto de seu trabalho; ele também não conhece o critério que organiza sua própria avaliação. O algoritmo é apresentado como técnica, e a técnica, como se estivesse acima de interesses sociais. Heidegger alertava que a técnica moderna não é apenas um conjunto de ferramentas: ela enquadra o mundo como reserva disponível à exploração. Nas plataformas, esse enquadramento alcança o tempo, o corpo e a atenção do trabalhador. A cidade vira mapa de extração; a chuva vira oportunidade de tarifa; a urgência de quem pede comida vira pressão sobre quem pedala. Tudo comparece como dado operacional, exceto a vida humana que sustenta a operação.

A cidade que naturaliza o desamparo

O cenário brasileiro torna esse processo especialmente brutal. A desigualdade histórica, o desemprego e a insuficiência de políticas públicas fornecem às empresas uma multidão de pessoas para quem “fazer uma renda” não é um complemento, mas uma necessidade imediata. A motocicleta financiada, a bicicleta desgastada, o celular com plano de dados e a mochila térmica são apresentados como capital inicial de uma pequena empresa individual. Na prática, são instrumentos comprados pelo próprio trabalhador para servir a uma cadeia de circulação de mercadorias e serviços controlada por grandes plataformas. O capital reduz seus custos fixos, transfere manutenção e acidente a quem trabalha e ainda celebra a operação como inovação.

A linguagem pública ajuda a consolidar a fraude. Reportagens de negócios costumam admirar a conveniência para o consumidor e a escala tecnológica; autoridades elogiam a modernização; influenciadores vendem disciplina financeira a quem mal consegue prever o valor da semana. Debord descreveu uma sociedade em que a relação social é mediada por imagens. A imagem do empreendedor de mochila nas costas cumpre essa função: ela substitui a relação concreta de exploração por uma narrativa de independência. O trabalhador aparece sorrindo como dono de seu tempo, enquanto a tela que carrega no bolso intensifica o comando sobre esse tempo.

Não há nada de inevitável nisso. A anomia não é uma consequência natural da tecnologia, nem um defeito moral dos que entram em aplicativos para sobreviver. Ela é produzida por decisões empresariais e políticas: tratar plataformas como simples intermediárias, enfraquecer vínculos trabalhistas, aceitar opacidade algorítmica e subordinar a proteção social à rentabilidade privada. O Estado, como lembra a crítica marxista do direito desenvolvida por Alysson Mascaro, não paira fora das relações de classe para corrigi-las com imparcialidade automática. Quando tolera que o comando empresarial se esconda sob o nome de autonomia, ele organiza juridicamente uma forma específica de dominação.

Enfrentar essa ordem exige recusar o vocabulário que transforma exploração em oportunidade. Transparência sobre critérios de bloqueio, remuneração e distribuição de chamadas; reconhecimento de direitos trabalhistas; proteção social que não dependa de uma corrida a mais; organização coletiva de entregadores, operadores e professores: tudo isso confronta a arquitetura do isolamento. O ponto decisivo, porém, é político. Uma sociedade que obriga milhões a viver sob regras que não podem conhecer, discutir ou contestar não sofre de ausência de ordem. Sofre de uma ordem feita para que poucos comandem e muitos aceitem o desamparo como destino individual.