“Depedencias”, grafado assim, pode parecer apenas um tropeço de busca. Mas o termo permite nomear uma experiência que a linguagem empresarial costuma encobrir: a dependência não como defeito íntimo de quem não consegue se desligar do celular, mas como relação social organizada. No Brasil das plataformas, milhões de pessoas dependem de um aplicativo para trabalhar, pedir comida, deslocar-se, vender, receber pagamento ou simplesmente manter uma chance de renda aberta. A tela não criou a necessidade; ela se instalou sobre necessidades já produzidas por salários insuficientes, desemprego, desmontes de direitos e cidades estruturadas pela distância entre moradia, trabalho e consumo.
É por isso que explicar dependência como um verbete psicológico ou um problema de hábito é insuficiente. A pergunta decisiva não é por que alguém “fica preso” ao aplicativo, mas quem construiu as condições em que desligá-lo se torna um risco material. A plataforma oferece liberdade como linguagem e dependência como prática. Diz ao entregador que ele é parceiro, ao motorista que ele é empreendedor e ao consumidor que ele escolhe com autonomia. Entretanto, concentra as regras, os dados, a visibilidade, as taxas e a possibilidade de exclusão. O indivíduo é apresentado como soberano justamente quando está submetido a uma infraestrutura que não controla.
As depedencias não são vícios privados
O entregador de aplicativo que espera uma chamada numa avenida brasileira não está simplesmente usando uma ferramenta. Sua jornada é ritmada por notificações, mapas, pontuações, promoções e punições opacas. Se recusa corridas ruins, pode perder prioridade; se aceita todas, desgasta o corpo, a bicicleta ou a moto e arca com combustível, manutenção e acidentes. Se fica offline, não recebe. A empresa, por sua vez, evita reconhecer a relação como emprego e chama essa exposição permanente de flexibilidade. A dependência aparece, então, em sua forma concreta: não é apego abstrato à tecnologia, mas a necessidade de permanecer disponível para que a renda do dia talvez exista.
Marx ajuda a enxergar o núcleo desse arranjo. O trabalhador separado dos meios de produção precisa vender sua força de trabalho para sobreviver. A plataforma atualiza essa separação sem superá-la: o entregador pode possuir a bicicleta, a moto e o telefone, mas não possui o mercado que organiza as entregas, a base de clientes, o sistema de pagamentos nem o algoritmo que distribui trabalho. Possui os custos; a empresa possui a coordenação. A aparência de propriedade individual — “sua moto”, “seu horário”, “seu negócio” — serve para esconder a subordinação real e deslocar para o trabalhador os riscos que antes caberiam ao empregador.
Essa é uma forma contemporânea de extração de mais-valia, ainda que a empresa se esconda atrás da mediação técnica. Cada minuto de espera não remunerada, cada quilômetro pago abaixo do necessário, cada equipamento comprado a crédito e cada meta induzida por bônus compõem uma máquina de transferência de riqueza. A plataforma não precisa mandar por um chefe visível em todos os momentos; ela programa incentivos e escassez. O algoritmo é apresentado como cálculo neutro, quando é uma decisão empresarial transformada em ordem automática. Ele distribui oportunidades e castigos sem debate, sem transparência e frequentemente sem um responsável humano que possa ser confrontado.
A autonomia encenada pelo capitalismo de plataforma
Debord escreveu que o espetáculo não é apenas um conjunto de imagens, mas uma relação social mediada por imagens. A publicidade dos aplicativos realiza essa fórmula com precisão: mostra o trabalhador sorridente, dono da própria rotina, e o consumidor satisfeito com a conveniência de receber tudo depressa. A imagem apaga o trânsito, a chuva, a ameaça de assalto, a espera não paga, a exaustão e a ausência de proteção social. O consumo rápido exige que alguém esteja disponível para correr. A comodidade de uma ponta da tela repousa sobre a vulnerabilidade da outra.
A dependência também alcança quem pede a entrega. Não porque todo uso de aplicativo seja moralmente condenável, mas porque a organização social do serviço reduz alternativas coletivas. Restaurantes são pressionados a aderir para não desaparecerem das buscas; pequenos comércios pagam para aparecer; consumidores habituam-se a preços promocionais que não revelam o custo transferido ao trabalho; bairros periféricos dependem de plataformas quando o transporte e os serviços públicos são insuficientes. A empresa transforma uma função social — conectar produção, alimentação, deslocamento e pagamento — em propriedade privada de uma infraestrutura. Depois, cobra pedágio sobre a vida cotidiana.
Há aqui uma dimensão ideológica decisiva. O neoliberalismo ensinou a tratar toda necessidade como escolha individual e toda dificuldade como falha de planejamento. Se o entregador não ganha o bastante, dizem que deveria “se organizar melhor”; se está exausto, que deveria empreender com mais inteligência; se sofre um bloqueio, que deveria manter boa avaliação. A violência estrutural se converte em conselho de gestão pessoal. Meritocracia é a palavra elegante para esse deslocamento de culpa: ela faz parecer que resultados definidos por classe, território, raça, gênero e poder de mercado são simples retratos do esforço de cada um.
A dependência que interessa ao capital não é a do usuário incapaz de largar a tela; é a do trabalhador que não pode largá-la sem perder o sustento.
Heidegger advertia que a técnica moderna não é somente um conjunto de instrumentos à disposição, mas um modo de enquadrar o mundo como reserva disponível. A plataforma leva esse enquadramento ao cotidiano: o entregador vira capacidade de entrega geolocalizada; o restaurante, inventário disponível; o consumidor, perfil de demanda; a rua, rota calculável; o tempo, unidade de extração. Não se trata de demonizar telefone, mapa ou software. Trata-se de perguntar sob qual propriedade, com quais regras e para qual finalidade eles operam. Uma técnica submetida ao lucro tende a organizar pessoas como recursos descartáveis, ainda que a interface use cores amigáveis e prometa praticidade.
Romper dependências exige disputar a infraestrutura
A resposta não pode ser a fantasia individual de desinstalar aplicativos enquanto a sobrevivência continua condicionada por eles. Tampouco basta pedir que as empresas sejam mais éticas. O problema é político e trabalhista: transparência sobre critérios algorítmicos, direito de contestar bloqueios, remuneração que cubra tempo e custos, proteção previdenciária, segurança no trabalho, reconhecimento de vínculo quando há subordinação e organização coletiva dos trabalhadores. As mobilizações de entregadores no Brasil mostraram que a dispersão produzida pela tela não elimina a luta de classes. Ao contrário, ela a torna visível quando aqueles tratados como dados e parceiros interrompem a circulação da mercadoria.
Também é preciso recusar a ideia de que toda infraestrutura digital deva pertencer a corporações que operam sem controle democrático. Cooperativas, redes públicas, regulação efetiva e formas de propriedade social não são nostalgia de um mundo pré-tecnológico; são condições para que a técnica deixe de aprofundar a alienação. Alysson Mascaro insiste que o direito e o Estado, na sociedade capitalista, não pairam acima das classes. Essa advertência impede ingenuidade: leis podem ser capturadas pelos interesses empresariais e governos podem chamar precarização de inovação. Mas impede também o cinismo paralisante. Direitos conquistados alteram o terreno material da exploração e ampliam a capacidade de organização.
As depedencias que o capitalismo produz têm raízes materiais e, por isso, podem ser enfrentadas materialmente. O que hoje aparece como destino tecnológico é resultado de decisões sobre propriedade, trabalho e cidade. Enquanto a plataforma controlar os meios de conectar pessoas à renda e aos serviços, a promessa de autonomia continuará sendo uma vitrine para a subordinação. A questão não é tornar os indivíduos mais disciplinados diante da tela. É retirar das empresas o poder de fazer da necessidade uma fonte permanente de obediência.
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