Alienaçã: a palavra chega ao mecanismo de busca truncada, quase como se tivesse perdido uma peça no caminho. Há algo involuntariamente adequado nisso. No capitalismo de plataforma, a experiência também chega truncada à consciência de quem trabalha: o entregador conhece o calor, a chuva, o trânsito, o medo do assalto e o valor insuficiente que aparece na tela; mas é induzido a não enxergar a relação social que organiza todos esses fatos. Ele se vê como um indivíduo fazendo corridas, não como parte de uma classe submetida a empresas que controlam o acesso ao trabalho sem assumir as responsabilidades de empregadoras. A alienação, aqui, não é uma definição escolar a ser decorada. É o processo concreto pelo qual a exploração se apresenta como escolha pessoal.

O discurso da plataforma é simples e eficaz: não há patrão, há parceiro; não há salário, há ganho; não há jornada, há flexibilidade; não há demissão, há bloqueio ou redução de chamadas; não há acidente de trabalho, há um infortúnio individual. Mudar os nomes não muda a realidade material, mas muda a forma como ela é percebida. E essa alteração da linguagem tem uma função política decisiva: impedir que a precarização apareça como conflito entre capital e trabalho. Se o trabalhador é um empreendedor, sua exaustão vira falha de gestão; se não alcança a renda necessária, faltou disciplina; se sofre um acidente, calculou mal o risco.

Alienaçã não é ignorância, é uma relação produzida

Marx tratou a alienação não como defeito psicológico nem como simples falta de informação. O trabalhador alienado é separado do produto de seu trabalho, do próprio ato de trabalhar, de sua potência humana criadora e dos outros trabalhadores. Essa separação não desaparece porque alguém recebe um curso de educação financeira ou abre um perfil nas redes sociais para falar de empreendedorismo. Ela nasce de uma organização social em que os meios de produzir e de distribuir riqueza pertencem a poucos, enquanto a maioria precisa vender sua força de trabalho para sobreviver.

O entregador brasileiro torna visível essa estrutura com brutal nitidez. Ele transporta uma mercadoria ou uma refeição cujo preço não controla; trabalha segundo um aplicativo cujo funcionamento não conhece; depende de notas, metas e incentivos definidos unilateralmente; arca com combustível, manutenção da moto, celular, plano de dados e equipamento; e recebe um valor que pode variar sem explicação compreensível. Seu trabalho cria valor para restaurantes, consumidores, investidores e donos da plataforma, mas ele não decide o destino dessa riqueza. Em muitos casos, sequer consegue prever se uma noite inteira na rua pagará as próprias despesas.

Chamar isso de autonomia exige uma inversão ideológica sofisticada. A liberdade de ligar o aplicativo só existe para quem tem a liberdade real de recusar a renda do dia. Para quem precisa pagar aluguel, comida, remédio ou dívida, o botão de ficar online não expressa soberania: expressa coerção econômica. A suposta independência é a forma contemporânea de transferir ao trabalhador os custos e os riscos antes reconhecidos como parte da relação empregatícia. O capital fica com a coordenação e a renda; o trabalhador fica com a máquina, o corpo e o perigo.

O algoritmo substitui o chefe sem abolir o mando

A ideologia empresarial celebra a ausência de um supervisor visível. Mas o chefe não desapareceu: foi convertido em sistema técnico. A ordem chega como notificação; a punição, como queda na distribuição de corridas; a avaliação, como nota do cliente; a vigilância, como geolocalização permanente. O poder se torna mais opaco justamente porque não se apresenta com rosto, escritório ou horário fixo. Quando o trabalhador pergunta por que recebeu menos chamadas ou foi bloqueado, encontra respostas padronizadas, canais automatizados e uma linguagem corporativa incapaz de reconhecer o conflito.

Heidegger ajuda a perceber que a técnica não é apenas um conjunto neutro de instrumentos à disposição de usuários livres. Sob determinado modo de organização, ela enquadra o mundo como reserva disponível para cálculo e extração. A plataforma enquadra a cidade dessa maneira: ruas viram rotas otimizáveis, restaurantes viram pontos logísticos, consumidores viram demanda, e trabalhadores viram disponibilidade mensurável. O entregador deixa de aparecer como sujeito de direitos e passa a ser tratado como dado operacional: alguém que deve estar próximo, aceitar rápido, mover-se depressa e custar pouco.

Essa gestão algorítmica produz uma alienação particular: o trabalhador é controlado por critérios que não consegue discutir porque não consegue vê-los. Não se trata de uma máquina autônoma que, por fatalidade técnica, decidiu governar pessoas. Há proprietários, investidores, executivos e estratégias de mercado por trás do código. O algoritmo é uma forma de administração capitalista, desenhada para concentrar comando e diluir responsabilidade. Quando uma empresa diz que “o sistema” tomou a decisão, ela protege a decisão política de distribuir riscos para baixo e lucros para cima.

A tela não elimina a exploração; ela lhe oferece uma interface amigável, individualizada e difícil de contestar.

A concorrência entre iguais impede que a classe se reconheça

Há outra camada do problema. A plataforma não depende apenas de controlar cada entregador; ela precisa colocá-los em concorrência contínua. Bonificações por desempenho, rankings, regiões mais disputadas e promessas de ganhos excepcionais transformam trabalhadores com interesses comuns em adversários ocasionais. Quem aceita a corrida mal paga pode parecer culpado por rebaixar o valor de todos; quem a recusa teme ser castigado pelo sistema. A empresa cria as condições dessa chantagem, mas a disputa é vivida entre aqueles que estão na mesma posição vulnerável.

É nesse ponto que a meritocracia opera como ideologia. Não basta dizer que alguns ganham mais porque se esforçam mais. É preciso ocultar que as condições de esforço são desiguais: a moto mais nova, o bairro de moradia, a possibilidade de trabalhar em horários perigosos, a rede de apoio para cuidar dos filhos, a saúde, o acesso a crédito e até a resistência física definem quem consegue permanecer conectado por mais tempo. O mérito funciona como narrativa para naturalizar resultados produzidos por propriedade, desigualdade e sorte social.

Debord descreveu uma sociedade em que a relação entre pessoas é mediada por imagens. Hoje, o espetáculo da plataforma veste colete, capacete e discurso motivacional. Vídeos de “entregadores de sucesso”, anúncios de flexibilidade e histórias de ascensão individual circulam como prova de que o modelo funciona. Eles não precisam ser inteiramente falsos para serem ideológicos. Basta que convertam exceções em norma e escondam a massa de gente que pedala ou pilota durante horas para alcançar uma renda frágil. A imagem do empreendedor vencedor transforma a precariedade coletiva em cenário para a fantasia privada de vitória.

Da alienação digital à organização contra o isolamento

O problema não é que trabalhadores usem celulares, aplicativos ou mapas digitais. A crítica anticapitalista à tecnologia não pede uma volta romântica a um passado sem internet. A questão é quem controla a infraestrutura, quem define suas regras e a serviço de que interesse ela funciona. Uma ferramenta capaz de coordenar deslocamentos, informar demanda e conectar pessoas poderia reduzir desperdícios e ampliar a autonomia coletiva. Sob o comando de grandes plataformas, porém, ela é organizada para extrair mais trabalho, fragmentar vínculos e fazer parecer inevitável aquilo que foi escolhido por empresas.

Por isso, a resposta à alienação não pode ser individual. Desligar o aplicativo, quando possível, é uma decisão de sobrevivência; não é solução para uma estrutura que empurra milhões à informalidade. O que rompe o isolamento são formas de reconhecimento e luta comuns: paralisações, associações, sindicatos renovados, cooperativas efetivamente controladas por trabalhadores e regulação que reconheça vínculo, remuneração digna, proteção previdenciária e transparência dos critérios algorítmicos. A resistência dos entregadores em cidades brasileiras já mostrou que a multidão conectada pela exploração pode também se conectar para enfrentá-la.

Há uma disputa de consciência embutida nessa luta. Enquanto o trabalhador for levado a interpretar sua condição como aventura empreendedora, a plataforma terá vencido antes mesmo da negociação. Nomear a relação é quebrar uma parte do feitiço: não é parceria quando uma parte fixa regras e a outra assume riscos; não é liberdade quando recusar trabalho significa faltar o necessário; não é inovação quando a novidade consiste em restaurar formas antigas de desproteção com uma camada de software. A alienação se sustenta porque faz o mundo existente parecer natural. A crítica começa quando esse mundo volta a aparecer como obra humana — e, por isso mesmo, como algo que pode ser transformado.