Buscar fascistas significado pode parecer o desejo por uma definição de dicionário: seguidores de Mussolini, adeptos de um regime autoritário, inimigos da democracia. Nada disso é falso, mas é insuficiente para compreender por que a palavra retorna com força no Brasil. O fascismo não é uma peça de museu europeu nem um adjetivo reservado a figuras que usam uniforme preto. Ele é uma forma de organizar politicamente a crise social: produz um inimigo interno, promete ordem pela violência e oferece a uma parte da população a ilusão de pertencimento nacional enquanto preserva a dominação de classe.

É por isso que a discussão não pode terminar na pergunta sobre quem “merece” ser chamado de fascista. A questão decisiva é outra: que condições fazem trabalhadores precarizados, pequenos proprietários endividados, setores médios ressentidos e agentes do Estado aceitarem — ou desejarem — uma política que humilha, exclui e mata? No Brasil, o bolsonarismo deu a essa operação uma linguagem popular, digital e religiosa, sem precisar repetir literalmente os símbolos dos fascismos históricos. Sua novidade não elimina sua família política; adapta seus mecanismos à periferia capitalista, às plataformas e ao desmanche dos direitos sociais.

Fascistas significado além do insulto moral

Usar “fascista” como xingamento vazio é confortável porque dispensa análise. Também é confortável, para os defensores da ordem, tratar a palavra como exagero sempre que ela aponta para policiais celebrando execuções, empresários financiando ataques às instituições ou multidões pedindo intervenção militar. O primeiro esvaziamento banaliza o conceito; o segundo o torna inofensivo. Entre ambos, perde-se de vista que fascismo não é apenas uma personalidade cruel. É uma política de massas que canaliza angústias reais para alvos falsos e protege as relações sociais que produzem essas angústias.

O trabalhador de aplicativo que passa horas esperando uma corrida, paga combustível, manutenção e seguro do próprio bolso, recebe uma nota opaca do algoritmo e ainda é chamado de “empreendedor” conhece a insegurança sem necessariamente lhe dar esse nome. Quando a renda cai e o horizonte desaparece, a extrema direita oferece uma explicação pronta: a culpa seria do pobre que recebe auxílio, do imigrante, do professor, do artista, da mulher que reivindica autonomia, do movimento social, do servidor público ou de uma conspiração difusa de “comunistas”. O alvo muda conforme a ocasião; a função é estável. Impedir que a exploração seja reconhecida como exploração.

Marx mostrou que as relações capitalistas aparecem como relações entre coisas, como se salário, preço e lucro fossem fatos naturais e não resultados de uma luta social. O fascismo trabalha dentro dessa aparência. Ele não convida o entregador a perguntar por que a plataforma concentra poder sem assumir obrigações trabalhistas. Convida-o a se sentir superior a quem está em situação ainda mais vulnerável. Não combate a classe dominante; fabrica uma comunidade imaginária na qual patrão, policial, empresário e trabalhador teriam o mesmo interesse sob a bandeira da nação.

O bolsonarismo fez da frustração uma arma

No Brasil, o bolsonarismo não foi uma anomalia gerada exclusivamente por redes sociais nem uma simples reação conservadora a costumes. Ele reuniu empresários interessados em reduzir custos trabalhistas, segmentos religiosos mobilizados por pânicos morais, estruturas militares seduzidas por tutela política e uma base social atravessada pela perda de direitos, pelo endividamento e pelo abandono estatal. Seu vocabulário de liberdade serviu repetidamente para atacar a organização coletiva do trabalho, desacreditar sindicatos e transformar a proteção social em privilégio.

A cena do call center ajuda a enxergar a materialidade disso. Uma atendente tem pausas cronometradas, metas que mudam sem negociação, supervisão contínua e o medo de perder o emprego por uma avaliação automatizada. Ela vive uma disciplina que é concreta, privada e cotidiana. Mas a propaganda reacionária desloca sua revolta para a política institucional: diz que seus problemas vêm de “vagabundos”, de direitos demais, de impostos abstratos ou de uma ameaça cultural. A empresa desaparece da narrativa. O gerente vira apenas alguém que “também trabalha”. A violência estrutural do capital se oculta atrás da guerra moral.

Essa é uma operação ideológica central. A meritocracia promete que cada um colherá aquilo que merece, mesmo quando a sobrevivência depende de jornadas exaustivas e de escolhas feitas por sistemas que ninguém controla. Se o indivíduo fracassa, a culpa é apresentada como falha pessoal; se protesta, ele passa a ser inimigo da ordem. O fascismo transforma essa culpabilização em desejo de punição. Quem não venceu na competição social pode obter, ao menos simbolicamente, a satisfação de ver outro grupo rebaixado.

A multidão digital não substituiu a política fascista

Gustave Le Bon observou, a seu modo conservador, como a multidão pode reduzir a crítica individual e se tornar permeável a imagens, palavras de ordem e afetos contagiosos. A extrema direita contemporânea aprendeu essa lição sem precisar concentrar todos numa praça. Grupos de mensagens, vídeos curtos, transmissões ao vivo e redes de influenciadores produzem uma multidão dispersa, permanentemente convocável e treinada para reagir. A mentira não precisa convencer pela consistência; precisa circular depressa, confirmar medos e dar ao participante a sensação de integrar uma missão.

Debord ajuda a avançar: na sociedade do espetáculo, a experiência é mediada por imagens que se apresentam como a própria realidade. O bolsonarismo fez da política uma sucessão de cenas de afronta, conspiração e humilhação pública. Cada escândalo alimentava a máquina porque mantinha a base em estado de guerra. A plataforma lucra com atenção, a liderança lucra com fidelidade e o debate público se deteriora. Não se trata de dizer que a tecnologia criou o fascismo. Trata-se de reconhecer que ela oferece infraestrutura para a circulação industrial do ressentimento e para a conversão de medo em engajamento rentável.

O ataque às sedes dos Três Poderes em 8 de janeiro de 2023 não caiu do céu nem pode ser explicado como o ato isolado de pessoas enganadas. Foi o ponto visível de uma longa pedagogia autoritária: desacreditar eleições, apresentar adversários como inimigos da pátria, naturalizar a intervenção militar e elogiar a violência como solução. Havia pessoas comuns entre os participantes, mas “pessoas comuns” não é sinônimo de inocência política. A normalidade social pode ser organizada para servir à barbárie.

Não há antifascismo sem enfrentar a exploração

Reduzir o combate ao fascismo à defesa abstrata das instituições democráticas é insuficiente. As instituições importam, e ataques golpistas exigem responsabilização rigorosa. Mas uma democracia que tolera fome, racismo estrutural, despejos, trabalho sem direitos e concentração obscena de riqueza deixa aberta a matéria-prima do autoritarismo. Como insiste Alysson Mascaro ao analisar as formas jurídicas e estatais, o Estado capitalista não é um árbitro acima das classes; sua aparência universal convive com a reprodução de uma sociedade profundamente desigual. Esperar que ele, sozinho, cure a doença que ajuda a administrar é uma ilusão perigosa.

O antifascismo consequente precisa defender salário, moradia, saúde, educação pública, sindicatos combativos e proteção para quem trabalha nas plataformas. Precisa enfrentar a militarização da vida social e recusar a ideia de que segurança se faz pela licença para matar. Precisa romper com a vergonha que o neoliberalismo impõe aos pobres e com o empreendedorismo compulsório que chama desamparo de autonomia. Não basta desmentir uma corrente de mensagens quando a vida material torna essa corrente verossímil para quem foi abandonado.

Os fascistas prosperam quando a exploração aparece como destino e a solidariedade parece impossível. Seu significado político está justamente nessa inversão: eles oferecem pertencimento para destruir a igualdade, ordem para aprofundar a violência e liberdade para desarmar quem vive do próprio trabalho. Nomear esse mecanismo com precisão não é exagero retórico. É uma condição para que o medo deixe de ser administrado pela extrema direita e se transforme em organização contra o capitalismo que o produz.