O ódio político que circula nas redes não é uma erupção inexplicável de irracionalidade popular. Ele tem método, divisão de tarefas, infraestrutura técnica e interesse material. Quando centenas de perfis repetem a mesma mentira, atacam uma pessoa escolhida, inundam comentários com insultos ou fabricam a aparência de uma indignação nacional, não estamos necessariamente diante de uma multidão que chegou sozinha à mesma conclusão. Estamos diante de uma operação. A desinformação coordenada é uma indústria: há quem financie, quem planeje, quem produza, quem distribua, quem execute e quem mensure o resultado.
Chamar essa estrutura de milícia digital não deveria servir para alimentar o fascínio com uma suposta genialidade maligna dos operadores. O ponto é mais banal e, por isso mesmo, mais grave. Trata-se de uma engrenagem política adaptada à forma empresarial das plataformas. A mentira é produzida como mercadoria comunicacional; a indignação é embalada para circular; o medo organiza públicos; o ataque coletivo disciplina adversários. A recompensa pode ser dinheiro, posição partidária, contratos, visibilidade, proteção política ou a manutenção de uma ordem social que ameaça ruir quando os de baixo passam a exigir direitos.
A mentira não circula sozinha
A ideologia liberal gosta de explicar as redes por escolhas individuais. Cada perfil seria apenas um cidadão exercendo sua liberdade de expressão, compartilhando sua opinião e reagindo aos fatos. Essa imagem é conveniente porque apaga a organização. Ela transforma uma cadeia de comando em espontaneidade, um investimento em convicção e uma campanha em debate público. Não se nega que pessoas reais participem desses fluxos e acreditem no que divulgam. O que se recusa é a fábula de que essa crença nasce num terreno neutro, sem impulsionamento, sem roteiro, sem alvo e sem recompensa.
Uma operação de desinformação começa pela definição de uma ameaça útil. Pode ser o professor apresentado como doutrinador, o jornalista convertido em inimigo do povo, a universidade acusada de corrupção moral, o artista tratado como parasita ou o trabalhador pobre transformado em suspeito permanente. Em seguida, cria-se uma narrativa simples, capaz de produzir adesão antes da verificação: uma frase de efeito, um vídeo recortado, uma montagem, uma acusação sem prova. A rede de distribuição multiplica o material até que sua repetição lhe dê a aparência de fato. Por fim, mede-se o desempenho: alcance, compartilhamento, tendência, adesão de influenciadores, desgaste do alvo, pressão sobre instituições.
Essa mensuração é decisiva. O ódio digital não é só discurso; é trabalho por produtividade. Há conteúdo a entregar, audiência a reter, reações a provocar e adversários a silenciar. A lógica é familiar a quem trabalha em call center, em plataforma de entregas ou em setores submetidos a metas incessantes. Muda o produto, não a forma social. Onde o entregador é governado por uma pontuação opaca e o operador de telemarketing por indicadores de desempenho, o propagador profissional de desinformação é governado pela métrica do engajamento. A plataforma recompensa a atenção capturada, pouco importando se ela foi obtida por informação, humilhação ou pânico.
Plataformas vendem o terreno onde o fascismo recruta
As grandes plataformas não precisam escrever a mentira para lucrar com a sua circulação. Basta que ofereçam a infraestrutura, organizem a visibilidade por critérios de retenção e convertam toda interação em dado comercializável. O modelo de negócio premia conteúdos que interrompem, inflamam e polarizam. A indignação é especialmente rentável porque chama resposta, réplica, deboche e compartilhamento. Assim, a violência verbal não aparece como falha externa ao sistema técnico, mas como matéria-prima especialmente eficiente para seu funcionamento.
Heidegger alertava que a técnica moderna não é apenas um conjunto de ferramentas neutras: ela enquadra o mundo, tornando pessoas, objetos e relações disponíveis para uso e cálculo. Nas plataformas, a experiência política é enquadrada como fluxo de dados. O cidadão vira perfil; a opinião, engajamento; a revolta, tráfego; a mentira, ativo de performance. Esse enquadramento não obriga ninguém mecanicamente a se tornar fascista, mas constrói um ambiente em que a simplificação brutal e a perseguição encontram recompensa técnica. O problema não é o celular na mão de um indivíduo isolado. É a arquitetura econômica que faz da atenção humana uma mina a ser explorada.
Debord descreveu uma sociedade em que a relação entre pessoas é mediada por imagens. A milícia digital radicaliza essa mediação: não busca apenas representar a realidade, mas substituí-la por uma sequência incessante de cenas fabricadas. Um vídeo fora de contexto vale mais do que uma explicação; uma imagem de violência repetida vale mais do que a análise de suas causas; um boato emocional vale mais do que uma investigação. A vida pública torna-se espetáculo de perseguição, no qual o algoritmo oferece diariamente um inimigo para odiar e uma fantasia de pertencimento para consumir.
A multidão é convocada, não inventada do nada
Gustave Le Bon observou que multidões podem agir sob sugestão, contágio e simplificação afetiva. Essa percepção, frequentemente usada de forma conservadora para desprezar o povo, ganha outro sentido quando aplicada às redes: não há uma massa naturalmente irracional que deva ser tutelada por elites esclarecidas. Há sujeitos submetidos a condições materiais de insegurança, abandono e desorientação, inseridos num sistema de comunicação construído para explorar afetos. A operação fascista não cria do nada a frustração de quem vive salários baixos, serviços públicos deteriorados e medo do futuro. Ela sequestra essa frustração e a redireciona contra alvos mais vulneráveis ou politicamente convenientes.
É assim que o trabalhador precarizado pode ser conduzido a atacar outro trabalhador, o usuário do SUS a culpar o pobre pelo colapso do serviço, o morador periférico a desejar mais violência estatal contra a própria periferia. O bolsonarismo soube operar esse deslocamento: em vez de apontar para a classe dominante, para a concentração de riqueza ou para a precarização do trabalho, ofereceu inimigos culturais e morais. A raiva contra a exploração foi transformada em rancor contra professoras, artistas, mulheres, pessoas LGBT+, movimentos sociais, indígenas e qualquer voz identificada com direitos coletivos.
A eficácia dessa manobra não depende de que todos os participantes recebam salário ou obedeçam conscientemente a um comando. Toda indústria possui seu círculo de trabalho formal, seus prestadores, seus intermediários e seu público consumidor que também reproduz o produto. Nas milícias digitais, há núcleos que elaboram e coordenam, operadores que amplificam e uma base de aderentes que compartilha por identificação, medo ou desejo de reconhecimento. A forma espontânea da participação não elimina a direção organizada; ela a torna mais poderosa, pois empresta autenticidade popular a uma mensagem desenhada para conduzir a multidão.
O Estado não é espectador inocente da engrenagem
O combate às milícias digitais não pode ser reduzido a uma fantasia de limpeza moral das redes, como se bastasse remover alguns perfis para que a democracia se regenerasse. A questão envolve poder econômico, propriedade das infraestruturas, financiamento político, responsabilização de quem organiza campanhas e proteção efetiva das instituições e dos trabalhadores atacados. Também exige recusar a solução autoritária que usa o combate à mentira como pretexto para ampliar mecanismos de vigilância contra a população. A extrema direita prospera justamente quando o medo é convertido em autorização para controlar, punir e calar.
Alysson Mascaro insiste que o Estado e o direito não pairam acima das relações sociais: eles pertencem à forma política do capitalismo. Isso não significa que sejam irrelevantes ou que toda disputa institucional seja inútil. Significa que não se deve esperar deles uma neutralidade milagrosa. As mesmas instituições capazes de investigar redes de financiamento e violência são atravessadas por interesses de classe, por limites legais e por pressões políticas. A defesa democrática precisa disputar esses instrumentos sem confundir regulação com emancipação e sem deixar que as empresas de tecnologia decidam, sozinhas, quais formas de discurso terão alcance.
Desmontar a indústria do ódio requer expor sua materialidade. Perguntar quem paga, quem ganha, quem fornece infraestrutura, quem lucra com o tráfego e quem é protegido quando a mentira produz violência. Requer também reconstruir formas coletivas de vida política capazes de não depender do espetáculo algorítmico: sindicatos, organizações de bairro, movimentos populares, imprensa comprometida com a realidade e educação pública crítica. O ódio tem folha de pagamento porque o capitalismo encontrou nele uma mercadoria política altamente lucrativa. Tirar sua máscara espontânea é o primeiro passo para enfrentar não apenas seus perfis, mas a ordem que os torna rentáveis.
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