Massa é o nome dado a uma forma de agrupamento social em que pessoas separadas de seus vínculos, de sua experiência organizada e de sua capacidade de reflexão coletiva passam a reagir sob forte influência de imagens, palavras de ordem, afetos e lideranças. Gustave Le Bon descreveu esse processo como perda dos traços individuais numa “alma coletiva”, inclinada à impulsividade e à sugestão. Mas uma leitura crítica precisa ir além: a massa não surge de uma suposta irracionalidade natural do povo; ela é produzida por condições materiais de isolamento, exploração, medo e desorganização que o capitalismo aprofunda. Foi decisiva para a mobilização fascista no século XX e reaparece, sob novas mediações, nas plataformas digitais e na política de extrema direita.

Origem do conceito em Gustave Le Bon

Em Psicologia das Multidões, publicado em 1895, Le Bon procurou explicar por que indivíduos reunidos em multidões poderiam pensar e agir de modo diferente do que fariam isoladamente. Para ele, a multidão reduz a capacidade crítica, aumenta a contagiosidade dos afetos e torna seus participantes receptivos a afirmações simples, imagens fortes e chefes capazes de falar com convicção. Não é necessário que uma massa ocupe fisicamente uma praça: o essencial é que muitos indivíduos sejam capturados por uma mesma corrente de crenças e emoções.

Le Bon acertou ao perceber que a política não opera apenas por argumentos racionais e que símbolos, medos e desejos mobilizam coletivamente. Mas sua teoria traz limites profundos. Escrita por um intelectual conservador, ela frequentemente trata as classes populares como ameaça irracional à ordem. Assim, confunde a potência de organização dos explorados com uma patologia das multidões e deixa em segundo plano as razões concretas de uma revolta: fome, desemprego, jornadas exaustivas, desigualdade e violência estatal.

Como a massa é produzida

Uma crítica marxista não identifica automaticamente massa e povo. Trabalhadores que se organizam em sindicato, assembleia, greve ou movimento de moradia não são uma massa passiva: podem construir consciência, formular interesses e agir coletivamente contra a classe dominante. A massificação aparece justamente quando essa capacidade é bloqueada ou desviada, quando indivíduos atomizados são reunidos apenas como audiência, eleitorado, consumidores ou usuários de uma plataforma.

O capitalismo produz essa atomização todos os dias. O entregador de aplicativo trabalha sozinho, recebe ordens de um algoritmo opaco e disputa corridas com milhares de outros trabalhadores. O operador de call center segue scripts, metas e tempos de atendimento que reduzem sua atividade a comandos repetitivos. O professor, pressionado por avaliações, plataformas e sobrecarga burocrática, pode ter pouco tempo para elaborar coletivamente as condições de seu próprio trabalho. Cada qual enfrenta problemas comuns como se fossem fracassos particulares.

Nessas condições, a explicação simples ganha força: em vez de reconhecer a estrutura que precariza o trabalho, busca-se um culpado imediato — o imigrante, o pobre, o servidor público, a professora, o “vagabundo”, o inimigo político. A ideologia transforma conflitos de classe em guerra moral entre indivíduos e grupos. A massa é manipulável não porque lhe falte inteligência, mas porque lhe foram roubados tempo, estabilidade, informação e espaços de organização autônoma.

Fascismo, propaganda e espetáculo

Os fascismos do século XX exploraram precisamente essa disponibilidade social. Seus líderes ofereceram pertencimento a populações feridas por crises econômicas, derrotas nacionais e insegurança social, mas canalizaram a frustração contra minorias e organizações de trabalhadores. A promessa de unidade nacional ocultava a manutenção da propriedade, da hierarquia e do poder das elites. O chefe aparecia como encarnação da vontade popular; a crítica, como traição; a violência, como purificação.

O mecanismo não pertence apenas ao passado. A sociedade do espetáculo transforma acontecimentos complexos em cenas rápidas, slogans e personagens. A política passa a circular como indignação contínua: um vídeo recortado, uma frase fora de contexto, uma notícia falsa ou uma imagem humilhante podem mobilizar milhares antes que qualquer verificação ocorra. A repetição produz familiaridade; a familiaridade, aparência de verdade.

No Brasil das plataformas

No Brasil, a circulação digital intensificou formas de psicologia das multidões sem substituir a realidade material que as sustenta. Grupos de mensagens, redes sociais e sistemas de recomendação conectam pessoas isoladas e as mantêm em fluxos de confirmação afetiva. O problema não é a tecnologia em abstrato, mas seu controle por empresas que lucram com atenção, dados e permanência na tela. Conteúdos que despertam medo, raiva e escândalo tendem a render mais circulação do que explicações demoradas sobre orçamento público, relações de trabalho ou concentração de renda.

O bolsonarismo mostrou como essa dinâmica pode articular ressentimento, religiosidade reacionária, antipetismo, militarismo e desinformação. Não se trata de atribuir seus apoiadores a uma incapacidade individual de pensar. Trata-se de entender como parcelas socialmente desprotegidas foram incorporadas a uma narrativa que nomeava inimigos, oferecia identidade e convertia precariedade em ódio político. Ao mesmo tempo, empresários, operadores de plataformas e agentes políticos puderam se beneficiar dessa circulação.

Criticar a massa não pode significar desprezar as maiorias. O desafio é combater as condições que fazem indivíduos aparecerem apenas como público manipulável: trabalho alienado, insegurança social, monopólio da comunicação, desmonte de direitos e enfraquecimento das organizações coletivas. Contra a multidão conduzida por líderes e imagens, a saída não é uma elite esclarecida, mas a construção de sujeitos capazes de compreender e transformar as condições comuns de sua vida.