Neofascismo não é um xingamento disponível para qualquer adversário político de direita, nem uma peça de museu restrita aos regimes europeus do século XX. É uma forma contemporânea de organizar a dominação quando a promessa liberal de prosperidade, mobilidade social e representação democrática já não consegue produzir consentimento suficiente. Seu terreno é a vida degradada: o salário que não alcança o mês, o entregador que trabalha sob chuva para cumprir metas invisíveis, a professora esmagada por avaliações e formulários, o operador de call center vigiado por segundos. Em vez de explicar essa miséria pela exploração capitalista, o neofascismo fornece inimigos mais convenientes: o pobre que recebe auxílio, a mulher que reivindica autonomia, o negro que ocupa espaços antes monopolizados, o indígena que impede o saque, o migrante, a esquerda, a universidade, a imprensa.

A operação é brutal e simples. Uma crise social causada pela concentração de riqueza é convertida em ressentimento moral; o ressentimento é dirigido contra grupos vulneráveis; e a autoridade que promete restaurar a ordem ganha licença para destruir direitos. Não se trata de uma irracionalidade acidental que invadiria uma sociedade normalmente equilibrada. Trata-se de uma racionalidade política adequada a um capitalismo que precisa ampliar a exploração ao mesmo tempo que reduz a capacidade coletiva de quem trabalha resistir.

Neofascismo como administração do medo social

O fascismo histórico mobilizou massas, culto ao chefe, nacionalismo agressivo, violência contra organizações populares e eliminação dos limites democráticos. O neofascismo preserva e adapta esse repertório em condições distintas. Nem sempre precisa abolir imediatamente as eleições ou fechar formalmente o Parlamento. Pode corroer por dentro as instituições, desacreditar toda mediação pública, atacar a ciência, normalizar milícias simbólicas e materiais, e apresentar a violência de Estado como defesa da família, da propriedade e da liberdade.

Essa adaptação é decisiva. O neofascismo contemporâneo pode falar a linguagem da liberdade justamente para defender a liberdade empresarial de explorar, demitir, contaminar e precarizar. Pode atacar o Estado enquanto exige polícia mais armada, fronteiras mais duras, prisões mais cheias e proteção pública para grandes interesses privados. Sua contradição é apenas aparente. O alvo não é o Estado em abstrato, mas qualquer dimensão estatal que limite o poder do capital ou reconheça direitos universais. Como observa a crítica marxista do Estado, desenvolvida no Brasil por Alysson Mascaro, o Estado não paira acima da sociedade como árbitro neutro; ele integra as formas políticas da reprodução capitalista. Quando a conciliação se torna difícil, sua face coercitiva aparece com maior nitidez.

É por isso que a reação neofascista se apresenta tantas vezes como revolta contra “o sistema”, embora ataque sindicatos, movimentos de moradia, indígenas, servidores públicos, universidades e partidos de esquerda — isto é, justamente os sujeitos e espaços capazes de confrontar o poder econômico. O banqueiro, o grande proprietário e a plataforma digital desaparecem do campo de visão. A indignação é desviada para uma guerra cultural interminável, em que o trabalhador é treinado para reconhecer como inimigo alguém ainda mais precarizado do que ele.

O bolsonarismo deu forma brasileira a essa máquina

No Brasil, o bolsonarismo não foi um acidente de comunicação nem o produto exclusivo de uma personalidade grotesca. Ele condensou uma reação de classe diante de avanços sociais limitados, mas intoleráveis para setores acostumados ao privilégio, e diante da crise que empurrou milhões para a insegurança. Sua força residiu em reunir empresários ultraliberais, forças de segurança, fundamentalismo religioso, setores do agronegócio, redes de desinformação e parcelas da classe trabalhadora feridas pela desorganização coletiva. A retórica antissistema serviu para proteger interesses muito materiais: privatização, desregulação, ataque trabalhista, destruição ambiental e enfraquecimento da proteção pública.

O neofascismo brasileiro também soube explorar uma herança autoritária que nunca foi realmente superada. A escravidão moldou hierarquias raciais e sociais; a ditadura empresarial-militar deixou instituições e hábitos políticos; a violência policial foi naturalizada contra a população periférica. Quando uma liderança autoritária elogia torturadores, ameaça adversários e trata mortes como incômodo administrativo, ela não inaugura uma barbárie estranha ao país. Ela verbaliza, com autorização de parcelas da sociedade, aquilo que a ordem cotidiana já pratica seletivamente.

A defesa bolsonarista da “família” desempenhou nesse processo uma função política precisa. Não era cuidado com famílias submetidas ao desemprego, à fome, à violência doméstica ou à falta de creche. Era a tentativa de restaurar uma autoridade patriarcal útil à disciplina social: o homem como proprietário moral da casa, a mulher como responsável privada pelo cuidado, a sexualidade como objeto de vigilância, a criança como pretexto para censurar professores. A palavra moralidade tornou-se arma contra a autonomia, nunca uma exigência dirigida ao poder econômico.

A multidão conectada e a fábrica de inimigos

Gustave Le Bon, apesar de seus limites conservadores, percebeu que a multidão pode ser conduzida por imagens, repetições e afetos mais do que por deliberação racional. O neofascismo digital industrializou essa percepção. Grupos de mensagem, vídeos curtos, canais de influenciadores e algoritmos não criam do nada o ódio social; eles o selecionam, aceleram e oferecem a cada pessoa uma sensação de pertencimento. A mentira eficaz não precisa ser sofisticada. Basta repetir que há uma ameaça iminente, atribuir-lhe um rosto e sugerir que apenas um chefe sem freios poderá enfrentá-la.

Debord ajuda a compreender a consequência: na sociedade do espetáculo, a relação social aparece mediada por imagens. A política passa a ser consumida como uma sequência de choques, humilhações e cenas de indignação. O escândalo substitui a análise; o gesto viril substitui o programa; a circulação substitui a verdade. A plataforma lucra com atenção e conflito, enquanto a extrema direita transforma cada comentário, cada compartilhamento e cada medo em infraestrutura de recrutamento.

Não há, porém, determinismo técnico. Heidegger alertava que a técnica moderna não é apenas um conjunto neutro de ferramentas: ela tende a enquadrar o real como reserva disponível para cálculo e uso. Nas plataformas, pessoas são reduzidas a perfis previsíveis, dados comportamentais e segmentos publicitários. O trabalhador de aplicativo é gerido como ponto móvel no mapa; o usuário é tratado como fonte de engajamento; a opinião é medida por sua capacidade de reter atenção. Essa arquitetura favorece o neofascismo porque transforma a política em estímulo permanente e enfraquece os tempos coletivos necessários para verificar, discutir e organizar.

Não basta derrotar o chefe, é preciso desarmar sua base social

Chamar o neofascismo pelo nome importa porque impede duas fugas convenientes. A primeira é tratá-lo como mera opinião legítima, como se pedir violência contra minorias ou negar a humanidade de adversários fosse apenas uma preferência no mercado de ideias. A segunda é imaginá-lo como loucura individual, o que absolve as classes e instituições que o financiam, difundem e normalizam. A extrema direita não cresce somente pela adesão fanática; cresce também pela covardia de quem aceita sua linguagem porque ela promete reduzir impostos, destruir direitos ou preservar privilégios.

O enfrentamento não será vencido por uma pedagogia abstrata de civilidade. É preciso reconstruir solidariedade material onde o capital produz isolamento. O entregador que disputa corridas com outros entregadores, a professora individualizada por metas, o jovem do telemarketing submetido a monitoramento constante e o desempregado transformado em empreendedor de si precisam encontrar formas de reconhecimento comum. Marx situava a alienação no trabalho: quem produz a riqueza não controla o que produz, nem o processo de produção, nem a vida social organizada por essa riqueza. O neofascismo prospera ao dar uma explicação falsa e personalizada para essa perda de controle.

A resposta anticapitalista precisa devolver à crise seus responsáveis reais. Não é o vizinho pobre que rebaixa salários, mas a empresa que lucra com a competição entre trabalhadores. Não é a professora que ameaça a família, mas a ordem que transforma cuidado, educação e saúde em mercadorias insuficientes. Não é a democracia que fracassa por ter direitos demais, mas porque foi subordinada ao poder econômico. Desarmar o neofascismo exige disputar instituições, conter sua violência e derrotar eleitoralmente seus representantes, mas exige sobretudo criar poder popular capaz de fazer da igualdade uma experiência concreta, e não uma palavra fácil de ser sequestrada pelo espetáculo.