Há uma operação ideológica recorrente quando se discute a base popular da extrema direita: transformar a adesão de setores pobres ao bolsonarismo em prova de ignorância, falha moral ou inclinação natural à barbárie. Essa explicação conforta quem a formula porque dispensa a pergunta decisiva: que forma de vida o capitalismo produz quando dissolve vínculos de trabalho, comunidade, organização coletiva e futuro? A categoria de lumpemproletariado, em Marx, interessa justamente porque permite tratar essa questão sem romantizar a pobreza e sem criminalizar os pobres. Ela nomeia uma condição material de desenraizamento, não uma essência humana degradada.

O neofascismo não recruta apenas entre os proprietários, embora seja financiado e protegido por frações poderosas do capital. Ele precisa de uma massa disponível para a repetição de palavras de ordem, a caça a inimigos, a produção de medo e a defesa violenta da ordem. No Brasil, essa disponibilidade encontra terreno em populações submetidas à informalidade, ao desemprego intermitente, ao endividamento, à violência policial e à competição permanente pela sobrevivência. A extrema direita oferece a essas pessoas uma comunidade imaginária: não a solidariedade entre explorados, mas a pertença a uma nação purificada contra inimigos escolhidos.

Uma categoria de classe, não um insulto contra os pobres

Marx empregou o termo lumpemproletariado para se referir a estratos separados, de modo instável ou permanente, da organização regular do trabalho assalariado e da vida coletiva da classe trabalhadora. Não se trata de uma etiqueta para quem recebe pouco, mora na periferia ou depende de bicos. Um entregador que pedala doze horas por dia, uma auxiliar de limpeza terceirizada e um operador de call center vivem exploração brutal, mas estão inseridos na produção e na circulação do capital; possuem, ainda que sob formas fragmentadas, interesses comuns que podem ser organizados. O problema político aparece quando a precarização também destrói os meios pelos quais esses interesses se reconhecem e se tornam ação coletiva.

Na formulação marxiana, o lumpemproletariado podia ser mobilizado por forças reacionárias porque sua posição social instável facilitava relações de dependência pessoal, clientelismo e compra direta de lealdades. Essa observação não autoriza uma sentença eterna sobre qualquer pessoa sem emprego formal. O próprio capitalismo altera suas formas de dominação e produz novas zonas cinzentas entre emprego, desemprego, ilegalidade, trabalho informal e empreendedorismo compulsório. A categoria precisa ser usada historicamente: para compreender o desenraizamento contemporâneo, não para aplicar uma ofensa sociológica a quem está na base da pirâmide.

É precisamente nesse ponto que o discurso empresarial opera. O trabalhador sem direitos deixa de ser desempregado ou informal e passa a ser empreendedor; quem vende sua força de trabalho por tarefa é apresentado como dono de si; quem não consegue pagar aluguel ou comida recebe lições sobre mérito e planejamento. A ideologia não elimina a precariedade. Ela a torna culpa individual. Quando o aplicativo reduz taxas, bloqueia uma conta ou muda unilateralmente as regras, o entregador é chamado de parceiro. Quando não há corrida, não há salário, mas há a obrigação de assumir sozinho o risco. Trata-se de uma forma contemporânea de alienação: a pessoa experimenta a insegurança produzida pelo capital como defeito de sua própria conduta.

Da insegurança econômica ao ressentimento dirigido

A extrema direita não cria do nada a frustração que explora. Ela encontra uma vida social esvaziada por décadas de desindustrialização, terceirização, desmontes de serviços públicos, encarceramento em massa e precarização. Mas dá a esse sofrimento uma tradução fraudulenta. Em vez de apontar a empresa de plataforma que extrai valor sem assumir responsabilidade trabalhista, aponta o imigrante, o pobre mais pobre, a mulher que reivindica autonomia, o professor, o artista, o militante de esquerda, a pessoa negra que ocupa espaços antes reservados à branquitude, a população LGBTQIA+. O conflito entre capital e trabalho é recodificado como guerra moral entre uma maioria supostamente decente e minorias transformadas em ameaça.

O bolsonarismo foi particularmente eficiente nessa operação. Sua linguagem vulgar não foi mero acidente estilístico, mas uma técnica de identificação. Ao ostentar desprezo pelas instituições, pelos direitos humanos e pela mediação racional, ofereceu a muitos sujeitos humilhados a fantasia de participar do poder que os humilha. A arma, a agressão verbal e a celebração da polícia aparecem como compensação simbólica para quem não controla o próprio tempo, não possui proteção social e é tratado como descartável no mercado. A violência deixa de ser percebida como instrumento de manutenção da hierarquia e passa a ser imaginada como restituição de dignidade.

Gustave Le Bon, lido criticamente, ajuda a identificar como multidões podem ser conduzidas por imagens simples, repetição e contágio afetivo. Mas não basta falar de psicologia das multidões, como se o autoritarismo fosse um surto irracional desligado da economia. A multidão bolsonarista foi produzida também por redes materiais: igrejas convertidas em máquinas políticas, grupos empresariais, aparelhos de segurança, mídias digitais, redes locais de favor e um mercado de influenciadores que monetiza o ódio. O afeto coletivo circula por essas estruturas porque elas oferecem reconhecimento imediato onde a vida do trabalho oferece abandono.

Plataformas que organizam a desorganização

A tecnologia das plataformas aprofunda esse terreno. O trabalhador de aplicativo trabalha cercado por outros trabalhadores, mas sem local comum, horário comum, sindicato reconhecido ou vínculo jurídico estável. O algoritmo distribui tarefas, notas e punições; cada pessoa é empurrada a enxergar a outra como concorrente. A empresa se esconde atrás da aparência técnica de um sistema neutro, embora decida quem recebe renda, quem é bloqueado e quanto vale cada entrega. Heidegger advertia que a técnica moderna não é apenas um conjunto de instrumentos: ela organiza o mundo como reserva disponível para uso. Nas plataformas, o trabalhador aparece como recurso acionável, mensurável e substituível.

Essa atomização não conduz automaticamente ao fascismo. Ela pode gerar greves de entregadores, associações de bairro, sindicatos renovados e solidariedades que rompem a ficção do empreendedor isolado. Porém, sem organização duradoura, o mal-estar tende a buscar explicações rápidas. A Sociedade do Espetáculo descrita por Debord oferece essas explicações em fluxo contínuo: vídeos curtos, indignação calculada, conspiracionismo e líderes que encenam autenticidade enquanto operam dentro da própria máquina de mercantilização da atenção. A política vira consumo de identidades. O sujeito desorganizado recebe, em troca da ausência de poder real, a sensação de pertencer a uma tropa digital.

Isso ajuda a explicar por que a denúncia abstrata das fake news é insuficiente. A mentira prospera quando encontra uma experiência verdadeira de abandono. Quem espera meses por atendimento público, enfrenta o desemprego, vê a escola do filho sucateada e recebe ordens impessoais de um aplicativo tem razões concretas para desconfiar das autoridades. O neofascista sequestra essa desconfiança legítima e a volta contra a própria possibilidade de ação comum. Ele diz que todo sindicato é corrupto, toda universidade é inimiga, toda política social é privilégio, toda imprensa é conspiração. Assim, preserva intactos os poderes econômicos que fabricam a insegurança.

Não há combate ao fascismo sem reconstrução de vínculos

Chamar de lumpemproletariado qualquer eleitor de extrema direita é uma fuga elitista. Além de teoricamente pobre, ela entrega ao fascismo a representação exclusiva dos desamparados. A classe trabalhadora brasileira é heterogênea, racializada, atravessada por gênero, território, religião e formas muito distintas de inserção laboral. Ela não nasce progressista por ocupar determinada posição econômica. A consciência de classe é uma conquista política, construída em lutas, instituições e linguagens capazes de ligar sofrimentos dispersos à estrutura que os produz.

Também não se enfrenta o neofascismo com sermão civilizatório dirigido a quem foi expulso, repetidas vezes, das promessas de cidadania. É necessário disputar as condições que permitem sua base social: direitos trabalhistas para trabalhadores de plataforma, proteção contra o desemprego, renda e serviços públicos universais, combate à violência estatal, organização sindical nos territórios precarizados e comunicação política que nomeie os responsáveis pelo sofrimento. Isso não implica tolerar racismo, misoginia, LGBTfobia ou violência golpista. Implica compreender que punição moral sem transformação material deixa o terreno do ressentimento intacto.

A aposta anticapitalista é oposta à promessa fascista. Onde o fascismo oferece pertencimento pela exclusão, ela propõe solidariedade entre os que vivem do trabalho. Onde o fascismo oferece autoridade como remédio para o medo, ela propõe poder coletivo sobre as condições de existência. Onde o capitalismo produz sujeitos isolados e disponíveis para qualquer comando, a política de classe precisa reconstruir laços, memória e organização. O desenraizamento que a extrema direita converte em tropa não é destino: é resultado histórico, e pode ser enfrentado por outra forma de vida social.