Neofascismo é a forma contemporânea do fascismo: um movimento autoritário, ultranacionalista e antidemocrático que pode chegar ao governo por eleições e atuar inicialmente dentro das instituições que pretende corroer. Ele converte insegurança social, racismo, misoginia, medo da violência e frustração econômica em ódio contra inimigos escolhidos — esquerda, pobres, migrantes, mulheres, pessoas LGBT, movimentos sociais e instituições críticas. Nas plataformas digitais, a propaganda permanente, a mentira organizada e o assédio substituem parte da antiga coreografia de massas, mas não dispensam a violência física, a intimidação e a promessa de repressão.

Do fascismo histórico à sua atualização

O fascismo surgiu na Europa do entreguerras como resposta reacionária à crise social, ao avanço do movimento operário e ao temor das classes proprietárias diante de revoluções. Na Itália de Mussolini e na Alemanha de Hitler, combinou nacionalismo agressivo, culto ao chefe, militarização da política, perseguição a minorias, destruição das organizações de trabalhadores e colaboração decisiva de setores empresariais e conservadores. Não foi uma simples explosão de irracionalidade popular: foi também uma solução de força para preservar a ordem de classe quando a democracia liberal parecia incapaz de conter conflitos sociais.

O prefixo neo não indica uma repetição idêntica. Não há necessidade de camisa uniforme, partido único ou tomada imediata do Estado para que uma política fascistizante opere. O neofascismo aprende com a derrota histórica do fascismo clássico: apresenta-se como defesa da liberdade, da família, da pátria e da “gente comum”, enquanto deslegitima adversários como traidores ou inimigos internos. Explora eleições, parlamentos, tribunais, igrejas, meios de comunicação e redes sociais para normalizar a exceção antes de institucionalizá-la.

Como opera: crise, inimigo e espetáculo digital

O neofascismo prospera em sociedades marcadas pela precarização do trabalho, pelo endividamento, pela perda de direitos e pela sensação de abandono. Em vez de apontar o poder dos bancos, das grandes empresas e da classe dominante, oferece alvos mais vulneráveis. O entregador de aplicativo, pressionado por metas e tarifas definidas por uma plataforma, é convidado a culpar quem recebe auxílio público ou o imigrante, e não a empresa que transfere riscos e custos para suas costas. O professor submetido à falta de estrutura pode ser transformado em suspeito de “doutrinação”, enquanto o desmonte da educação pública sai de cena.

Essa operação é ideológica porque dá uma explicação simples e falsa para sofrimentos reais. A desigualdade deixa de ser produto do capitalismo e aparece como falha moral de indivíduos ou grupos. O desemprego vira preguiça; a pobreza, incapacidade; a crítica social, ameaça à nação. A promessa de ordem autoritária ganha força justamente onde o Estado social foi reduzido e o mercado passou a organizar a sobrevivência.

As plataformas digitais ampliam esse mecanismo. Algoritmos favorecem conteúdo que captura atenção, e indignação, medo e escândalo circulam com velocidade. Redes de influenciadores, canais de vídeo, grupos de mensagens e perfis aparentemente espontâneos podem repetir enquadramentos, atacar jornalistas, fabricar suspeitas e testar palavras de ordem. Não se trata apenas de desinformação isolada, mas da produção de uma realidade paralela na qual toda crítica confirma uma conspiração. O trabalhador de call center, monitorado por sistemas automatizados e exposto a jornadas exaustivas, pode encontrar nessas redes uma narrativa que transforma sua revolta legítima em hostilidade contra outros trabalhadores.

Neofascismo no Brasil

No Brasil, o bolsonarismo foi a expressão mais visível dessa dinâmica. Sua força reuniu antipetismo, anticomunismo fantasioso, militarismo, fundamentalismo religioso, racismo, misoginia e elogios à ditadura empresarial-militar. A retórica contra a corrupção e a “velha política” conviveu com a defesa de privilégios, armas, repressão e políticas econômicas que aprofundam a vulnerabilidade de quem trabalha.

O ataque sistemático à imprensa, às universidades, ao sistema eleitoral e ao Supremo Tribunal Federal não era um detalhe de estilo: buscava desgastar os limites institucionais à autoridade pessoal e tornar aceitável a ideia de que só um chefe forte poderia encarnar a vontade popular. A invasão e depredação das sedes dos Três Poderes em 8 de janeiro de 2023 mostrou que a mobilização digital pode transbordar para a ação organizada de rua. A tela não substitui inteiramente a milícia; ela recruta, coordena, radicaliza e dá aparência coletiva à violência.

Por que chamar de neofascismo exige precisão

Nem toda direita é fascista, e nem todo governo autoritário realiza um regime fascista. Usar o termo com precisão ajuda a reconhecer um processo: a construção de inimigos absolutos, a recusa da igualdade, o culto da violência, o ataque às organizações populares e a subordinação da vida democrática a uma ordem de mercado e de força. O neofascismo pode avançar sem abolir de uma vez as eleições, sobretudo quando parcelas da elite econômica julgam que ele serve para conter demandas trabalhistas e sociais.

Combatê-lo não se resume a corrigir boatos nas redes ou defender abstratamente as instituições. Exige enfrentar as condições materiais que alimentam seu apelo: trabalho alienado, insegurança econômica, abandono dos serviços públicos, concentração de riqueza e isolamento social. Sem organização coletiva nos locais de trabalho, nos bairros, nas escolas e nos movimentos sociais, a indignação tende a ser capturada por quem oferece bodes expiatórios em lugar de transformação.