A teoria crítica da tecnologia começa por recusar uma desculpa muito útil aos donos do poder: a de que as transformações técnicas aconteceriam por si mesmas, como uma tempestade diante da qual restaria à sociedade adaptar-se. Quando uma plataforma reduz a remuneração de um entregador, quando um sistema de metas acelera o trabalho de uma atendente de call center ou quando uma ferramenta de inteligência artificial elimina postos e amplia a vigilância sobre quem ficou, não estamos diante de uma decisão tomada pela máquina. Há empresas, investidores, gestores, proprietários e normas estatais que definem quais tecnologias serão desenvolvidas, para que finalidade e às custas de quem.
O discurso dominante chama isso de inovação. A palavra opera como um salvo-conduto moral: se é novo, seria inevitável; se é inevitável, qualquer resistência pareceria atraso; se alguém perde renda, direitos ou saúde, o problema seria sua incapacidade de se atualizar. Mas a técnica não cai do céu. Ela é produzida dentro de relações sociais determinadas. Sob o capitalismo, a questão decisiva não é apenas o que uma tecnologia pode fazer, mas quem controla seus meios, quem se apropria de seus ganhos e quem suporta seus danos.
Teoria crítica da tecnologia é crítica do comando sobre o trabalho
Marx não conheceu os aplicativos de entrega, as redes sociais ou os modelos de linguagem, mas forneceu a chave para compreender seu funcionamento social. A maquinaria capitalista não aparece apenas como um conjunto de instrumentos que auxilia o trabalhador. Ela reorganiza o processo produtivo para submeter o trabalhador ao ritmo, à medida e à autoridade do capital. O problema não está no objeto técnico isolado. Está em sua inserção numa relação em que uma classe possui os meios de produção e outra precisa vender sua força de trabalho para viver.
O entregador que pedala sob chuva não é propriamente autônomo porque pode ligar ou desligar o aplicativo. Sua suposta liberdade começa depois que a empresa definiu unilateralmente a tarifa, os critérios de distribuição das corridas, os bloqueios, as áreas de maior demanda e a opacidade das avaliações. Ele arca com bicicleta ou moto, combustível, manutenção, seguro, risco de acidente e tempo de espera. A plataforma, por sua vez, captura dados, coordena multidões de trabalhadores e apresenta essa relação como mero encontro tecnológico entre consumidores e parceiros.
A palavra parceiro é uma peça ideológica central. Ela apaga o antagonismo entre quem trabalha e quem lucra. Também transforma a ausência de direitos em escolha individual: se o ganho é baixo, faltaria estratégia; se o trabalhador é bloqueado, teria falhado na conduta; se adoece, não soube gerenciar a própria rotina. A tecnologia, nessa narrativa, funciona como uma máquina de desresponsabilização empresarial. O patrão se dissolve na interface, e a exploração se torna uma notificação automática.
O algoritmo não é neutro porque administra interesses
Fala-se muito em algoritmo como se ele fosse uma inteligência impessoal, quase uma entidade natural. Mas um algoritmo é uma sequência de regras, classificações e prioridades criada por instituições concretas. Ele pode servir para reduzir esforço, ampliar acesso a serviços e socializar conhecimento. Também pode, como ocorre frequentemente nas plataformas digitais, intensificar jornadas, fragmentar coletivos de trabalho e transferir para o empregado ou para o “empreendedor de si” toda a incerteza do negócio.
No call center, softwares medem pausas, duração de ligações, palavras usadas e avaliações de clientes. Na escola, plataformas impõem relatórios, formulários e metas que invadem o tempo de preparação e esvaziam a autonomia pedagógica do professor. Em depósitos e centros de distribuição, sensores e indicadores convertem cada gesto em dado comparável. A promessa de eficiência tem um conteúdo de classe: fazer mais em menos tempo, com menos gente, sob fiscalização mais minuciosa e com maior facilidade para substituir quem não acompanha o ritmo.
Essa é uma forma contemporânea de alienação. O trabalhador não se reconhece no produto, nem decide o processo que o produz; agora, muitas vezes, nem compreende os critérios pelos quais é avaliado. Uma nota cai, uma corrida deixa de aparecer, uma conta é suspensa, uma escala muda. A decisão vem sem rosto e sem possibilidade real de contestação. A opacidade técnica não é um defeito acidental: ela protege o poder de gestão contra o escrutínio de quem sofre suas consequências.
Quando a empresa chama de dado aquilo que, para o trabalhador, é salário, tempo, cansaço e sobrevivência, ela já escolheu um lado.
A técnica como destino é a ideologia mais conveniente
Heidegger percebeu que a técnica moderna não se reduz a ferramentas. Ela institui um modo de revelar o mundo em que tudo tende a aparecer como reserva disponível: natureza, tempo, corpos e relações humanas tornam-se recursos a calcular e explorar. Essa percepção ajuda a entender por que a vida submetida às plataformas parece permanentemente mobilizável. O entregador é disponibilidade geolocalizada. O professor é indicador de desempenho. O usuário de rede social é atenção convertível em receita publicitária. Até o descanso se torna intervalo a ser otimizado.
Mas uma crítica materialista precisa ir além da ideia de que haveria uma essência abstrata da técnica dominando a humanidade. O enquadramento técnico assume sua forma social atual porque o capitalismo precisa ampliar a acumulação, reduzir custos e controlar o trabalho. Não é “a tecnologia” que exige a exaustão de entregadores; é a concorrência entre capitais e a busca de lucro que fazem da tecnologia um instrumento de exaustão. Sem essa determinação, a crítica corre o risco de virar nostalgia: como se bastasse desligar telas e retornar a um passado menos mediado.
Não há retorno inocente a um mundo pré-digital, até porque a exploração não nasceu no smartphone. O desafio é disputar o conteúdo social da técnica. Uma ferramenta capaz de coordenar deslocamentos poderia reduzir jornadas e melhorar a logística urbana; sob monopólios privados, ela frequentemente rebaixa remunerações e congestiona cidades. Sistemas de inteligência artificial poderiam aliviar tarefas repetitivas e perigosas; nas mãos do capital, são mobilizados para cortar empregos, concentrar conhecimento e transformar trabalhadores restantes em supervisores de máquinas que lhes impõem cadência.
O espetáculo transforma exploração em experiência de consumo
Debord mostrou que o espetáculo não é apenas um amontoado de imagens, mas uma relação social mediada por imagens. As plataformas aperfeiçoaram essa mediação. O consumidor vê no aplicativo a conveniência de receber comida rapidamente; o investidor vê escalabilidade; a publicidade vê personalização. O trabalho que torna tudo isso possível permanece escondido atrás de um ícone que informa “pedido a caminho”. A velocidade da entrega exige uma cadeia de cozinheiros, separadores, atendentes, motoboys e operadores submetidos à pressão do tempo, mas a interface apresenta apenas uma experiência fluida.
A mesma lógica aparece na ideologia do empreendedorismo. Vídeos de influenciadores vendem autonomia, produtividade e liberdade financeira enquanto milhões de pessoas dependem de plataformas que podem alterar as regras de remuneração sem negociação coletiva. A vitrine mostra poucos casos de sucesso e oculta a massa que trabalha mais para ganhar menos. É a meritocracia adaptada ao ambiente digital: cada sujeito é levado a interpretar uma estrutura desigual como placar de sua competência individual.
Essa atomização tem consequências políticas. Trabalhadores dispersos, avaliados individualmente e postos em competição tendem a enxergar o colega como rival. A extrema direita prospera nesse terreno ao oferecer bodes expiatórios para uma angústia cuja origem é material: migrantes, pobres, servidores públicos, movimentos sociais, mulheres, nordestinos ou qualquer grupo que possa ser culpado pela frustração produzida pela ordem econômica. O bolsonarismo não é criado pelos algoritmos, mas encontra neles mecanismos de amplificação, segmentação afetiva e circulação de ressentimento.
Democratizar a técnica exige confrontar propriedade e Estado
Não basta exigir ética empresarial ou transparência como se corporações pudessem voluntariamente abrir mão de seu poder. Regras contra bloqueios arbitrários, direito à explicação de decisões automatizadas, proteção de dados, vínculos trabalhistas e negociação coletiva são conquistas necessárias. Mas elas enfrentam um limite: a infraestrutura digital continua concentrada em empresas cuja finalidade é valorizar capital. Como insiste Alysson Mascaro ao pensar o direito e o Estado, as formas jurídicas não pairam acima da sociedade; elas operam em uma totalidade capitalista e não eliminam por decreto a divisão entre proprietários e não proprietários.
Isso não torna a luta por regulação inútil. Torna-a insuficiente quando separada da disputa pela propriedade, pela organização dos trabalhadores e pelo controle democrático da produção. Uma plataforma de entrega não deveria ter o direito de decidir sozinha as condições de existência de milhares de pessoas apenas porque possui o código e a marca. Dados produzidos socialmente, infraestrutura urbana sustentada publicamente e trabalho coletivo não podem permanecer como fontes privadas de renda extraordinária.
A teoria crítica da tecnologia, então, não pede que abandonemos a técnica nem que reverenciemos cada novidade. Ela obriga a perguntar, diante de cada aplicativo, sistema de inteligência artificial ou mecanismo de vigilância: que relação de poder ele consolida? Quem ganha tempo e quem o perde? Quem decide seus critérios? Quem pode contestá-los? Enquanto essas perguntas forem substituídas pela reverência à inovação, a tecnologia continuará aparecendo como destino. Quando forem feitas por trabalhadores organizados, ela poderá deixar de ser instrumento de comando e tornar-se parte de uma vida menos alienada.
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