O conceito de subjetividade costuma ser reduzido à ideia de mundo interior: opiniões, sentimentos, traços de personalidade, escolhas privadas. Essa redução é conveniente para a ideologia dominante porque faz parecer que o sujeito se produz sozinho, como se cada pessoa fosse autora soberana de seus desejos e fracassos. Mas ninguém entra no mundo como uma consciência pronta, apartada da história. A subjetividade é formada nas relações sociais, nas instituições, na linguagem, na família, na escola, no trabalho e nos dispositivos técnicos que organizam a experiência cotidiana. Sob o capitalismo, ela é também um terreno de disputa: o capital não explora apenas o tempo e a força física de quem trabalha; procura fabricar o modo como esse trabalhador percebe a si mesmo.
Não se trata de negar a singularidade humana ou de imaginar indivíduos como marionetes sem conflito. Trata-se de recusar a fábula liberal segundo a qual a vida social seria resultado de escolhas livres feitas por sujeitos previamente constituídos. A ordem é inversa: as condições materiais ajudam a constituir os sujeitos que, depois, são chamados a se responsabilizar individualmente por condições que não controlam. O entregador que pedala por horas sob chuva não é apenas alguém vendendo sua força de trabalho. É interpelado para se enxergar como parceiro, empreendedor, guerreiro, dono do próprio horário. A exploração contemporânea funciona melhor quando a pessoa explorada incorpora a linguagem de quem a explora.
O conceito de subjetividade contra o mito do indivíduo autônomo
Marx desmontou a imagem do indivíduo burguês como origem natural da sociedade. Os seres humanos produzem sua vida em relações determinadas, e é nesse processo que produzem a si mesmos. A alienação do trabalho não significa somente receber pouco ou executar uma tarefa desagradável. Significa ver a própria atividade confrontar o trabalhador como algo alheio, comandado por outra vontade. Aquilo que ele cria — mercadorias, serviços, dados, riqueza — retorna como poder do capital sobre sua existência.
A subjetividade alienada nasce dessa inversão. O trabalhador aprende a medir seu valor pela produtividade, pela avaliação do cliente, pela meta batida, pela capacidade de permanecer disponível. Um operador de call center precisa controlar a entonação, esconder cansaço e transformar a própria voz em instrumento de venda ou contenção de conflitos. Uma professora submetida a plataformas de ensino, relatórios e metas administra não só aulas, mas indicadores que redefinem o que conta como educar. Em ambos os casos, a exigência econômica invade a maneira de sentir: ansiedade é tratada como falha de organização pessoal; exaustão, como falta de resiliência; revolta, como incapacidade de adaptação.
É por isso que a meritocracia tem tamanho peso ideológico. Ela não é apenas uma mentira sobre mobilidade social. É uma pedagogia da culpa. Ao atribuir resultados desiguais ao mérito individual, ela transforma desigualdades estruturais em defeitos morais. Quem não prospera deveria ter estudado mais, feito contatos melhores, trabalhado com mais disciplina, administrado melhor suas emoções. A classe dominante preserva seus privilégios e ainda obtém a adesão subjetiva de quem é prejudicado por eles.
Plataformas capturam desejo, medo e disponibilidade
Nas plataformas digitais, a fabricação da subjetividade ganha uma forma particularmente agressiva. O aplicativo organiza trajetos, preços, punições, prioridades e avaliações por meio de regras opacas. Ainda assim, apresenta a relação como liberdade: basta ligar o aplicativo e trabalhar quando quiser. A liberdade oferecida é a de escolher o momento da própria submissão à demanda, ao algoritmo e à necessidade imediata de renda. Sem salário garantido, proteção efetiva ou controle sobre o preço do serviço, o trabalhador recebe o risco como se fosse autonomia.
A gestão algorítmica dispensa boa parte da figura clássica do chefe, mas não elimina o comando; torna-o mais difuso e íntimo. A nota baixa do consumidor, a ameaça de bloqueio, a corrida recusada, a bonificação condicionada a longas jornadas e a incerteza sobre como o sistema distribui chamadas produzem uma vigilância contínua. O trabalhador passa a antecipar a máquina: aceita mais, acelera mais, sorri mais, silencia mais. O controle deixa de depender exclusivamente de uma ordem direta porque se instala como autocontrole.
Heidegger ajuda a compreender o problema quando pensa a técnica não como simples conjunto de ferramentas, mas como uma forma de desvelamento que enquadra o real como reserva disponível. O risco das plataformas não está no celular ou no software isoladamente. Está na racionalidade que converte pessoas, ruas, horários, afetos e relações em recursos calculáveis. O entregador aparece como ponto móvel no mapa; o usuário, como fluxo de consumo; a cidade, como campo de extração de dados; a vida, como estoque de disponibilidade. A técnica capitalista não apenas mede o mundo: impõe que o mundo se apresente como mensurável e rentável.
Quando o trabalhador precisa vender sua personalidade, sua cordialidade e sua disponibilidade para sobreviver, a subjetividade deixa de ser refúgio privado e passa a ser matéria-prima da acumulação.
Do espetáculo à adesão íntima
Debord identificou na sociedade do espetáculo uma forma de vida em que as relações entre pessoas são mediadas por imagens. Nas redes sociais, essa mediação não se limita à publicidade explícita. Cada perfil é convidado a se transformar numa pequena vitrine: opinião, corpo, rotina, indignação e vulnerabilidade passam a circular sob a pressão de visibilidade. A promessa é de expressão individual; o resultado frequente é a padronização da expressão segundo métricas de alcance, aprovação e consumo.
Essa dinâmica tem efeitos políticos. O bolsonarismo não pode ser explicado apenas por desinformação ou ignorância individual. Ele mobilizou ressentimentos reais, medos sociais e desejos de pertencimento, oferecendo uma comunidade imaginária contra inimigos escolhidos: pobres, mulheres, pessoas negras, população LGBTQIA+, indígenas, professores, artistas e movimentos sociais. A psicologia das multidões, discutida por Gustave Le Bon, registrava como coletividades podem operar por contágio, sugestão e simplificação. Mas seria um erro tratar isso como uma doença eterna da massa. No capitalismo contemporâneo, a indústria cultural, as plataformas e agentes políticos organizados fornecem a infraestrutura material para esse contágio.
O fascismo prospera quando a angústia produzida por uma sociedade desigual é deslocada para alvos vulneráveis, enquanto os poderes econômicos permanecem protegidos. Ele fabrica uma subjetividade autoritária: alguém que se percebe abandonado, mas aprende a desejar a violência contra quem está abaixo; alguém que sofre a precarização, mas vê no empresário uma figura de salvador; alguém que chama privilégio de liberdade e solidariedade de ameaça. A extrema direita não cria esse mal-estar do nada. Ela o captura, simplifica e arma.
Subjetividade é campo de luta, não destino psicológico
Falar em subjetividade, então, não é trocar a crítica da economia por uma conversa abstrata sobre emoções. É reconhecer que a dominação econômica precisa de formas de consciência, hábitos, afetos e identidades capazes de reproduzi-la. O direito e o Estado, como insiste a crítica marxista desenvolvida por Alysson Mascaro, não pairam acima das classes como árbitros neutros. Eles organizam juridicamente a sociabilidade capitalista e ajudam a apresentar relações de exploração como contratos entre iguais. A figura jurídica do trabalhador autônomo de plataforma sintetiza esse engano: formalmente independente, materialmente subordinado a uma empresa que controla as condições decisivas de sua sobrevivência.
Uma crítica consequente não responde a isso celebrando uma autenticidade individual supostamente intacta. Não existe um eu puro esperando ser libertado da sociedade. Há sujeitos atravessados por contradições, capazes de repetir valores dominantes e, ao mesmo tempo, insurgir-se contra eles. A experiência de exploração pode ser isolada em culpa ou convertida em reconhecimento coletivo. Quando entregadores se organizam, quando docentes recusam a degradação da escola em linha de produção, quando trabalhadores de call center denunciam metas desumanas, muda também o horizonte do que cada um pode imaginar sobre si.
A emancipação exige condições materiais: redução da jornada, proteção social, controle coletivo sobre a técnica, organização sindical, serviços públicos e ruptura com a propriedade que subordina a vida ao lucro. Mas exige igualmente disputar os sentidos que nos dizem quem somos. Contra o sujeito empreendedor de si mesmo, é preciso afirmar o sujeito que reconhece sua dependência recíproca e sua força coletiva. A subjetividade não é um detalhe psicológico à margem da política. É uma das oficinas onde o capitalismo fabrica consentimento — e onde uma sociedade socialista pode começar a fabricar solidariedade.
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