Autoritarismo é a disposição de obedecer a autoridades fortes, tratadas como indiscutíveis, e de exercer controle, punição e humilhação sobre pessoas situadas abaixo na hierarquia. Não se reduz a governos ditatoriais ou a líderes violentos: para Theodor Adorno, ele também se instala na subjetividade, como uma estrutura socialmente produzida que combina submissão aos poderosos, agressividade contra os mais fracos e apego rígido a normas, tradições e preconceitos. Essa disposição oferece uma falsa sensação de ordem a indivíduos formados numa sociedade desigual, competitiva e insegura.

Adorno e a personalidade autoritária

Após a ascensão do nazismo e a Segunda Guerra, Adorno e outros pesquisadores da Escola de Frankfurt buscaram entender por que parcelas da população aderiam ao fascismo, inclusive quando ele contrariava seus próprios interesses materiais. O resultado foi o estudo A personalidade autoritária, publicado em 1950. A questão não era descobrir uma essência psicológica eterna do fascista, mas investigar as condições sociais que tornam a dominação desejável, aceitável ou até prazerosa para muita gente.

Adorno identificou uma constelação de atitudes: convencionalismo rígido, submissão idealizada à autoridade estabelecida, agressividade dirigida a grupos vistos como desviantes e aversão à ambiguidade. A pessoa autoritária pode reverenciar polícia, patrão, chefe religioso, militar ou líder político, enquanto descarrega frustração em pobres, migrantes, minorias, mulheres, pessoas LGBTQIA+ e trabalhadores considerados indisciplinados. Ela respeita a força quando vem de cima e a reivindica quando pode aplicá-la sobre alguém.

Isso não significa que todo indivíduo preconceituoso seja automaticamente fascista, nem que o autoritarismo seja apenas uma doença individual. A contribuição decisiva de Adorno é mostrar que a subjetividade é atravessada pela sociedade. Onde a vida é organizada pela concorrência, pela obediência no trabalho e pelo medo da queda social, a promessa de um chefe capaz de restaurar ordem pode parecer mais concreta que a democracia.

Como o autoritarismo opera

O autoritarismo transforma conflitos sociais em problemas de comportamento e inimigos pessoais. Em vez de perguntar por que falta moradia, emprego estável, saúde ou escola pública de qualidade, ele procura culpados imediatos: o pobre que recebe auxílio, o jovem da periferia, o imigrante, o professor crítico, a mulher que recusa submissão. Assim, a desigualdade produzida pelo capitalismo aparece como falha moral de indivíduos ou grupos.

Essa operação depende de hierarquias. No trabalho, um gerente pode exigir disponibilidade permanente em nome de metas que não definiu; o trabalhador, sem poder questionar a empresa, pode reproduzir a mesma brutalidade com um subordinado. No call center, scripts, vigilância de tempo e ameaças de demissão treinam a obediência cotidiana. A autoridade deixa de ser discutida por seus efeitos e passa a ser venerada como valor em si.

O autoritarismo também precisa de simplificações. Problemas complexos são reduzidos a slogans; crítica vira traição; divergência vira ameaça; direitos viram privilégios. A figura do inimigo permite que a violência pareça defesa. É por isso que discursos de lei e ordem, quando separados da crítica à desigualdade e à violência estatal, podem legitimar práticas de exceção contra populações já vulnerabilizadas.

Autoritarismo no Brasil hoje

No Brasil, a herança escravista, o poder das elites econômicas, a violência policial e a precariedade do trabalho fornecem terreno concreto para formas autoritárias de sociabilidade. O entregador de aplicativo é chamado de empreendedor, mas é submetido a tarifas, bloqueios e avaliações definidos por uma plataforma que não negocia em condições de igualdade. Quando ele protesta por remuneração e proteção, pode ser tratado como inconveniente ou acusado de não querer trabalhar. A autoridade empresarial se esconde atrás do algoritmo.

Na escola, professoras e professores enfrentam outra face do problema quando ensinar história, desigualdade ou direitos humanos é apresentado como doutrinação. A tentativa de vigiar conteúdos e silenciar o debate não protege estudantes: protege uma ordem social que prefere a repetição à reflexão. O mesmo vale para a naturalização de que policiais possam abordar, prender ou matar seletivamente em nome da segurança.

O bolsonarismo deu expressão política concentrada a esse repertório, mas o autoritarismo não começou nem termina em um governo ou movimento. Ele pode sobreviver em instituições, relações de trabalho, meios de comunicação, igrejas, famílias e plataformas digitais. Combater o autoritarismo exige mais que defender regras formais da democracia: exige enfrentar as condições materiais de medo, desamparo e desigualdade que tornam a autoridade brutal sedutora.

Crítica social e democracia

A crítica de Adorno recusa duas saídas fáceis. A primeira é imaginar que bastaria educar indivíduos mal-informados, como se o preconceito não tivesse raízes em relações sociais reais. A segunda é tratar qualquer desejo de ordem como fascismo, ignorando que trabalhadores precisam de segurança, estabilidade e proteção. A questão é saber que ordem está sendo prometida, para quem ela vale e quem paga seu preço.

Uma democracia efetiva não é a obediência calma a autoridades supostamente neutras. Ela requer condições para que quem trabalha possa questionar patrões, governos e plataformas sem perder renda, direitos ou dignidade. Requer igualdade material suficiente para que a busca por proteção não se converta em culto ao chefe. O autoritarismo prospera quando a vida coletiva parece sem saída; a crítica social começa ao revelar que essa falta de saída é produzida, e pode ser transformada.