A Escola de Frankfurt costuma aparecer nas aulas como uma lista previsível de autores alemães, conceitos e datas: indústria cultural, razão instrumental, teoria crítica. Essa apresentação escolarizada tem uma vantagem para quem domina o presente: deixa os conceitos no passado. Quando Adorno e Horkheimer são confinados a um verbete, a crítica perde justamente sua capacidade de atingir a máquina contemporânea. No Brasil das plataformas, a indústria cultural não é apenas a televisão que padroniza gostos; é a interface que transforma um trabalhador sem direitos em “parceiro”, a publicidade que vende autonomia a quem não controla nem o preço da própria corrida, e o algoritmo que converte necessidade em adesão subjetiva.
O entregador que pedala durante horas sob chuva e calor não precisa ter lido Dialética do Esclarecimento para experimentar a forma social que ela ajudou a descrever. Ele recebe comandos em uma tela, aceita ou recusa chamadas calculadas por critérios que não conhece, é avaliado por consumidores e depende de uma pontuação opaca para continuar trabalhando. A empresa se apresenta como mera intermediária tecnológica, quase uma espectadora neutra entre cliente e trabalhador. Mas ela determina ritmos, distribui oportunidades, estabelece punições e captura uma parte decisiva da riqueza produzida. O vocabulário da inovação encobre uma relação de classe.
É nesse ponto que Frankfurt deixa de ser matéria de prova e se torna instrumento de crítica. A teoria crítica não perguntava somente como a sociedade funciona. Perguntava por que relações históricas de dominação aparecem como naturais, inevitáveis ou desejáveis. O capitalismo de plataforma aperfeiçoou essa aparência. Em vez do patrão visível que manda e fiscaliza, há notificações; em vez do contrato de emprego, há termos de uso; em vez da jornada reconhecida, há a disponibilidade permanente. A dominação se torna mais eficaz quando se disfarça de escolha individual.
O que a Escola de Frankfurt vê onde a plataforma anuncia liberdade
Adorno e Horkheimer formularam a crítica da razão instrumental para mostrar que a racionalidade moderna pode ser reduzida ao cálculo de meios eficientes, sem indagar os fins humanos e políticos que orientam esse cálculo. Não se trata de rejeitar a técnica como se toda máquina fosse inimiga da liberdade. Trata-se de perguntar: eficiente para quem, sob qual propriedade e a serviço de que ordem social? O algoritmo que reduz o tempo de entrega pode parecer uma conquista técnica. Sob o controle privado de uma plataforma, porém, essa eficiência também pode significar mais pressão por velocidade, mais risco no trânsito, menor poder de recusa e maior extração de valor do trabalhador.
O entregador é chamado de empreendedor porque arca com bicicleta ou moto, combustível, manutenção, celular, plano de dados e o custo físico de permanecer disponível. A palavra promete independência, mas transfere riscos empresariais para quem tem menos recursos para suportá-los. Quando uma corrida paga pouco, o problema é apresentado como falha na estratégia individual: seria preciso trabalhar em melhor horário, conhecer melhor a cidade, aceitar mais pedidos, manter boa avaliação. A exploração deixa de ser uma relação objetiva entre capital e trabalho e passa a ser narrada como deficiência moral de quem não “soube aproveitar” a oportunidade.
Essa inversão é ideológica em sentido rigoroso. Para Marx, as relações sociais no capitalismo podem aparecer como relações entre coisas; a mercadoria e o dinheiro ocultam o trabalho e o conflito que os produzem. Nas plataformas, a ocultação ganha uma superfície sedutora. O consumidor vê apenas o mapa, o tempo estimado e o botão de gorjeta. A empresa aparece como aplicativo eficiente. O trabalhador se torna um ícone em movimento, uma peça da experiência de consumo. A relação entre alguém que precisa vender sua força de trabalho e uma corporação que organiza essa venda é apagada pelo design.
A precarização, assim, não é uma imperfeição acidental que será corrigida por uma atualização do aplicativo. É parte de seu modelo. A plataforma lucra ao fragmentar o coletivo de trabalhadores em indivíduos concorrentes, cada qual perseguindo sua própria taxa, seu próprio bônus, sua própria sobrevivência. O que poderia gerar solidariedade é reorganizado como competição. A urgência de pagar a conta da semana impede que muitos recusem uma corrida aviltante; a necessidade individual alimenta um sistema que rebaixa o valor de todos.
Indústria cultural, propaganda e o trabalhador que deve agradecer
A noção de indústria cultural é frequentemente achatada na ideia de que Adorno “não gostava de cultura popular”. O alvo da crítica era mais preciso e mais incômodo: a produção industrial de cultura que padroniza mercadorias, organiza atenção e oferece uma sensação administrada de escolha. No ambiente digital brasileiro, esse mecanismo não desapareceu; tornou-se íntimo, contínuo e personalizado. Vídeos curtos, anúncios de cursos de renda extra, influenciadores do empreendedorismo e campanhas corporativas formam um ecossistema em que a vida precária é apresentada como projeto de liberdade.
Não é necessário supor que todo entregador acredita passivamente nessa mensagem. Trabalhadores conhecem a injustiça daquilo que vivem, reclamam de bloqueios, organizam paralisações, trocam informações e inventam formas de resistência. A questão é que a ideologia não precisa convencer integralmente para funcionar. Basta que ofereça palavras disponíveis para interpretar a experiência. Se o sujeito é levado a pensar sua exaustão como falta de disciplina, a corrida mal paga como desafio e o bloqueio como problema técnico, a empresa obtém uma vitória antes mesmo de qualquer negociação.
A propaganda contemporânea já não precisa dizer abertamente “trabalhe mais para enriquecer”. Ela produz narrativas de superação nas quais o esforço individual aparece separado das estruturas que o limitam. O entregador sorridente em uma peça publicitária não é apenas uma imagem; é uma figura política. Ele ensina que o trabalho sem proteção deve ser admirado, que o risco deve ser internalizado e que pedir direitos seria incompatível com inovação. A indústria cultural fabrica consentimento não somente pelo entretenimento, mas pela transformação da exploração em identidade desejável.
Quando a empresa chama o trabalhador de parceiro, ela não suaviza uma palavra: ela disputa a interpretação da relação social.
Essa disputa tem efeitos materiais. Se há “parceria”, o vínculo empregatício parece um anacronismo; se há “flexibilidade”, a jornada sem limite parece uma preferência; se há “comunidade”, a organização coletiva parece ameaça externa. O léxico empresarial antecipa a defesa jurídica e política do capital. Como lembra a crítica marxista do direito desenvolvida por Alysson Mascaro, o Estado e as formas jurídicas não pairam acima da sociedade como árbitros puros: são atravessados pelas formas de reprodução do capitalismo. A luta por regulação e direitos é indispensável, mas não pode aceitar como horizonte final a humanização de uma exploração que a própria plataforma considera seu negócio.
A administração digital da vida e a recusa brasileira
O “mundo administrado”, expressão associada à tradição frankfurtiana, não designa uma conspiração centralizada que controla cada gesto. Designa uma sociedade em que instituições, mercados e técnicas passam a organizar a vida segundo exigências de cálculo, adaptação e desempenho. O trabalhador de call center conhece essa experiência há décadas: fala cronometrada, script, metas, supervisão e avaliação permanente. A plataforma leva esse padrão para a rua e lhe acrescenta o verniz da autonomia. O capacete substitui o uniforme, mas não elimina a subordinação; apenas a torna mais barata para a empresa e mais difícil de reconhecer publicamente.
Também por isso a crítica à técnica não pode cair em nostalgia. Ninguém defende que entregadores retornem ao telefone fixo, ao papel ou à informalidade sem mediação digital. A questão é a propriedade e o comando da infraestrutura. Um sistema técnico poderia reduzir deslocamentos inúteis, dar transparência aos critérios de distribuição de chamadas, assegurar renda mínima, impedir punições arbitrárias e ampliar a decisão dos trabalhadores. Sob o capitalismo de plataforma, os dados e os meios de coordenação são apropriados para intensificar produtividade e preservar o segredo empresarial. A técnica não decide sozinha; ela carrega a finalidade social de quem a controla.
Há uma razão para que a explicação neutra sobre a Escola de Frankfurt seja tão confortável em portais enciclopédicos. Ela permite admirar a crítica sem praticá-la. Fala-se em alienação cultural, mas evita-se perguntar por que trabalhadores são treinados para agradecer ao explorador; fala-se em racionalidade instrumental, mas evita-se examinar quem programa os indicadores e lucra com eles. A teoria vira patrimônio intelectual inofensivo quando é separada da luta de classes.
No Brasil, essa separação é ainda mais conveniente em um cenário no qual o bolsonarismo transformou a brutalidade social em virtude pública, exaltando o indivíduo armado, empreendedor e hostil a direitos coletivos. A promessa de que cada um se salva por conta própria encontra terreno fértil onde o trabalho já foi desprotegido e a sobrevivência foi privatizada. Combater essa ideologia exige mais do que desmascarar mentiras factuais. Exige recusar a forma de vida que chama abandono de liberdade e submissão algorítmica de modernização.
A Escola de Frankfurt permanece viva não como selo acadêmico, mas como incômodo. Ela obriga a olhar para o aplicativo e perceber, atrás da conveniência do pedido entregue, uma organização social que administra corpos, atenção e tempo em favor do lucro. O capacete do entregador não é um detalhe pitoresco da economia digital. É um lugar onde a técnica, a ideologia e a exploração se encontram — e onde a crítica só terá sentido se ajudar a converter isolamento em organização coletiva.
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