Comunismo significado não deveria ser uma pergunta respondida por um verbete escolar como se tratasse apenas de uma doutrina entre outras, definida por datas, líderes e bandeiras. A pergunta relevante é outra: que liberdade está em jogo quando se fala em comunismo? No capitalismo brasileiro, a palavra costuma aparecer como ameaça sempre que alguém propõe limitar o poder do patrão, taxar grandes fortunas, proteger direitos trabalhistas ou simplesmente impedir que um entregador seja descartado por um aplicativo. O anticomunismo não precisa demonstrar que o comunismo existe como perigo concreto; basta mobilizar a imagem de uma força obscura que viria tomar a casa, o salário e a religião das pessoas. Com isso, torna invisível a expropriação cotidiana já em curso: o tempo vendido, o corpo adoecido, a renda transferida para quem possui plataformas, bancos, terras e empresas.
O sentido crítico do comunismo começa justamente onde a propaganda termina. Para Marx, não se tratava de distribuir a pobreza nem de trocar um chefe privado por um burocrata onipotente. Tratava-se de superar uma ordem em que os meios necessários para produzir a vida pertencem a poucos, enquanto a maioria só sobrevive vendendo sua força de trabalho. Essa separação funda uma liberdade peculiar: o trabalhador é juridicamente livre para aceitar o emprego, mas não é livre das condições materiais que o obrigam a aceitá-lo. Pode escolher entre turnos, aplicativos e patrões; raramente pode escolher não submeter sua vida à necessidade de gerar lucro para outrem.
Comunismo significado diante da liberdade de obedecer
A ideologia dominante chama essa submissão de escolha individual. O entregador que pedala por horas sob chuva e calor seria empreendedor; a atendente de call center monitorada até na ida ao banheiro seria parte de uma equipe; o professor que acumula turmas, corrige trabalho de madrugada e compra material com o próprio dinheiro estaria investindo na carreira. Em todos esses casos, a linguagem empresarial recobre uma relação de poder. Quem define a remuneração, as metas, o ritmo, a avaliação e a possibilidade de desligamento não é quem trabalha. O trabalhador aparece como sujeito autônomo na propaganda, mas é objeto de uma administração que organiza sua rotina em função da rentabilidade.
É nesse ponto que o comunismo ganha significado concreto: ele nomeia a recusa de tratar como natural a propriedade privada dos meios que condicionam a existência coletiva. Não basta que o entregador possa clicar em “ficar online” quando quiser se, para pagar aluguel e comida, precisa permanecer conectado no horário de maior demanda, competir com milhares de outros e aceitar tarifas definidas unilateralmente. A autonomia prometida pela plataforma é a liberdade de arcar individualmente com bicicleta, combustível, manutenção, acidente, doença e ausência de renda. A empresa, por sua vez, conserva o controle decisivo: estabelece regras opacas, coleta dados, distribui chamados, pune condutas e altera pagamentos. A velha subordinação do trabalho ao capital não desapareceu; vestiu a fantasia técnica da inovação.
Chamar essa situação de empreendedorismo é fazer da necessidade uma virtude e da exploração um traço de personalidade.
Marx chamou de alienação o processo pelo qual o trabalhador se vê separado do produto de seu trabalho, da atividade que realiza, dos outros trabalhadores e de suas próprias capacidades. A plataforma aprofunda essa experiência porque apresenta o comando como cálculo neutro. Não há um gerente gritando na esquina, mas há um algoritmo que reduz ganhos, impõe prioridades, registra desempenho e pode bloquear uma conta sem negociação efetiva. A técnica não criou sozinha essa dominação. Ela é mobilizada por relações capitalistas que procuram extrair mais trabalho, reduzir custos e dissolver vínculos coletivos. O problema não é a existência de software; é quem o controla, para qual finalidade e sob que possibilidade de contestação.
A caricatura anticomunista e o caso brasileiro
No Brasil, a extrema direita transformou “comunismo” em palavra-curinga para produzir medo e disciplina. Durante o bolsonarismo, a acusação serviu contra professores, artistas, movimentos sem-terra, sindicatos, universidades, políticas de saúde e qualquer reivindicação por igualdade. Pouco importava que tais medidas não implicassem socialização dos meios de produção nem ruptura com o capitalismo. A eficácia da palavra está em dispensar análise: uma greve vira ameaça à ordem, uma aula de história vira doutrinação, uma política pública vira invasão da liberdade. O mecanismo lembra a psicologia das multidões estudada por Gustave Le Bon, não porque o povo seja irracional por natureza, mas porque imagens simples e afetos intensos podem substituir a investigação das relações reais.
O pânico moral contra o comunismo é especialmente útil quando a vida material se torna mais dura. Em vez de perguntar por que o preço dos alimentos sobe, por que o aluguel engole o salário ou por que um jovem com diploma encontra ocupações precárias, desloca-se a frustração para inimigos abstratos. O trabalhador é convidado a se reconhecer antes como proprietário ameaçado, patriota ofendido ou consumidor frustrado do que como parte de uma classe que vende trabalho. Mesmo quem não possui empresa, terra ou patrimônio significativo passa a defender a propriedade capitalista em geral, como se a defesa dos grandes proprietários fosse a defesa de sua própria dignidade.
Essa operação ideológica tem uma função prática: impedir que os explorados reconheçam interesses comuns. O entregador é posto contra o entregador pela lógica da corrida; o trabalhador terceirizado, contra o efetivo; o servidor, contra o empregado privado; o morador de periferia, contra o pobre ainda mais vulnerável. A meritocracia oferece a fábula que torna essa fragmentação suportável. Se cada resultado é apresentado como efeito exclusivo de esforço e talento, a desigualdade deixa de ser uma estrutura e se torna falha moral do indivíduo. O comunismo é demonizado porque recoloca a questão que essa fábula quer interditar: quem produz a riqueza, quem a apropria e quem decide os rumos da produção?
Não é o Estado abstrato que explora no aplicativo
Os adversários do comunismo frequentemente respondem à crítica lembrando experiências históricas marcadas por autoritarismo, repressão e burocratização. Essas tragédias não devem ser apagadas nem convertidas em detalhe incômodo. Mas usá-las como resposta automática a toda crítica do capital é um expediente intelectualmente pobre. Equivale a dizer que, porque Estados que se declararam socialistas produziram formas de dominação, a dominação capitalista deve ser aceita como destino. A crítica comunista consequente não exige trocar uma autoridade inacessível por outra; exige ampliar o poder social de decidir sobre aquilo que organiza a vida de todos.
Alysson Mascaro ajuda a perceber que o Estado e o direito não pairam acima da sociedade como árbitros puros. Eles se ligam a uma sociabilidade fundada na mercadoria, no contrato e na propriedade privada. Isso não significa que direitos trabalhistas, serviços públicos e garantias democráticas sejam irrelevantes; ao contrário, são conquistas que protegem vidas e abrem campos de luta. Significa que não bastará uma lei bem redigida para dissolver a estrutura que permite a empresas concentrarem poder econômico e político. Regular plataformas é necessário para conter danos imediatos; questionar a propriedade e o controle privado sobre a infraestrutura digital é necessário para atingir a raiz do problema.
Há quem responda que plataformas oferecem conveniência ao consumidor e renda a quem não teria outra opção. As duas coisas podem ser verdadeiras sem absolver o modelo. A questão comunista não é negar a utilidade da entrega rápida ou desejar voltar a um passado sem tecnologia. É recusar que a eficiência de um serviço dependa de jogar todo o risco sobre quem pedala e de converter cada deslocamento urbano em fonte de dados e lucro privado. Uma tecnologia socialmente orientada poderia organizar distribuição, transporte e comunicação com outras prioridades: tempo de trabalho reduzido, remuneração estável, segurança, participação dos trabalhadores nas decisões e acesso coletivo aos ganhos de produtividade.
Heidegger alertava que a técnica moderna tende a enquadrar o mundo como reserva disponível para exploração. Sob o capitalismo de plataforma, esse enquadramento alcança com brutalidade o próprio trabalhador: seu trajeto, sua avaliação, suas pausas e sua urgência tornam-se unidades calculáveis. A crítica comunista não é uma nostalgia artesanal; é a luta para que seres humanos não sejam administrados como estoque de energia disponível. Quando o algoritmo vale mais que o corpo que entrega a mercadoria, a promessa de inovação revela seu conteúdo de classe.
O que a palavra ainda pode abrir
Debord mostrou que o espetáculo não é apenas um conjunto de imagens, mas uma relação social mediada por imagens. O comunismo convertido em espantalho televisivo, meme de rede social ou sermão de palanque é parte desse espetáculo. A imagem substitui o debate sobre o trabalho concreto; a bandeira imaginária encobre a carteira assinada negada, o salário corroído e a jornada sem limite. Romper essa mediação exige devolver a palavra ao conflito real. Comunismo, nesse sentido, não é a senha para um paraíso administrado. É o nome de uma perspectiva histórica na qual a produção da vida deixa de obedecer ao lucro privado e passa a ser organizada pelos que efetivamente produzem.
Essa perspectiva começa menos por uma fórmula pronta do que por uma inversão decisiva: não perguntar se a maioria merece participar das decisões econômicas, mas por que uma minoria se considera autorizada a decidir sozinha sobre o trabalho, a cidade, os dados e o futuro coletivo. O entregador que exige remuneração justa, o professor que defende escola pública, a trabalhadora que luta contra metas abusivas e o sindicato que enfrenta a terceirização não estão realizando, por si só, o comunismo. Mas expõem a contradição que lhe dá significado: uma sociedade que se diz livre enquanto reserva o poder de comandar para quem possui e impõe a obediência a quem trabalha.
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