Polarização é a forma de organização do conflito político em que campos opostos passam a se perceber antes de tudo como inimigos absolutos. Nela, a discussão sobre trabalho, renda, serviços públicos, propriedade e poder tende a ser trocada por pertencimentos identitários: ser de um lado importa mais do que examinar o que cada lado defende. Isso não significa que todo conflito seja ruim ou que a política deva buscar uma harmonia artificial. A luta entre interesses de classe é real. O problema é quando ela é obscurecida por uma guerra de símbolos, personalidades e ressentimentos que preserva as estruturas responsáveis pela desigualdade.

Conflito político não é defeito

A ideia de que a polarização é sempre uma doença da democracia costuma partir de uma fantasia: a de que seria possível administrar uma sociedade capitalista sem antagonismos. Mas uma sociedade dividida entre quem possui empresas, terras, plataformas e patrimônio financeiro e quem precisa vender sua força de trabalho já é atravessada por conflito. A disputa por salário, jornada, direitos trabalhistas, moradia, orçamento público e controle das decisões econômicas não é uma anomalia: é expressão dessa divisão material.

O conflito se torna polarização empobrecedora quando a divisão social concreta é reorganizada como rivalidade moral entre torcidas. Em vez de perguntar quem lucra com a precarização do trabalho ou com a privatização de serviços, pergunta-se quem é mais patriota, mais honesto, mais moderno ou mais ameaçador. Cada campo passa a tratar o outro como uma massa homogênea e irrecuperável. O adversário deixa de ser alguém com quem se disputa o rumo da sociedade; torna-se a encarnação do mal, da ignorância ou da corrupção.

Como a polarização opera

A polarização funciona simplificando problemas complexos e oferecendo uma identidade pronta. Ela dá pertencimento, explicações rápidas e um alvo para a frustração. A insegurança produzida pelo desemprego, pelo endividamento e pela deterioração dos serviços públicos pode ser convertida em ódio contra grupos sociais, partidos, servidores, pobres ou imigrantes, sem tocar nos mecanismos econômicos que produzem essa insegurança.

As plataformas digitais aceleram esse processo. Seus sistemas de recomendação recompensam conteúdos que retêm atenção, e indignação, medo e escândalo costumam circular mais do que análise. A postagem que reduz uma greve a “vagabundagem” ou todo eleitor do outro campo a “fascista” é facilmente compartilhável porque confirma identidades já constituídas. O debate vira performance: vale menos compreender uma medida e mais demonstrar fidelidade ao grupo.

A polarização não elimina a política; ela pode reduzir a política a uma disputa de identidades compatível com a continuidade dos privilégios econômicos.

Isso não quer dizer que os dois polos sejam iguais, nem que todo posicionamento firme equivalha a extremismo. Há diferenças decisivas entre projetos autoritários e democráticos, entre políticas que ampliam direitos e políticas que os destroem. A falsa simetria, que condena qualquer lado “radical”, também serve para desarmar quem luta contra a exploração. A crítica é dirigida à forma pela qual o antagonismo é manipulado para impedir que a questão de classe apareça com clareza.

A polarização no Brasil

No Brasil, a disputa entre bolsonarismo e lulismo organizou grande parte da vida pública recente. Ela expressa conflitos reais, inclusive em torno da memória da ditadura, das políticas sociais, dos direitos das mulheres, da população negra e LGBTQIA+, da devastação ambiental e da relação com a democracia. O bolsonarismo, em particular, mobilizou autoritarismo, anticomunismo e preconceito como instrumentos políticos. Tratar isso como simples “opinião diferente” apaga seus efeitos concretos.

Ao mesmo tempo, a redução de toda a política a esse confronto pode proteger interesses que atravessam governos e coalizões. O entregador de aplicativo que pedala doze horas para pagar aluguel não deixa de ser explorado porque seu voto se encaixa em um campo ou outro. A professora submetida à sobrecarga, a metas burocráticas e a salários corroídos tampouco resolve sua situação com slogans eleitorais. No call center, trabalhadores monitorados por segundos, pressionados por metas e frequentemente adoecidos encontram uma forma particularmente nítida de exploração que raramente ocupa o centro das brigas digitais.

Quando essas experiências são tratadas apenas como combustível eleitoral, a política se afasta da organização coletiva. O trabalhador vira consumidor de opinião; a indignação, mercadoria de plataforma; e a crítica, uma senha de pertencimento. A classe dominante pode até preferir governos e políticas específicas, mas se beneficia de uma população ocupada em hostilidades permanentes enquanto a concentração de renda, a financeirização e a precarização avançam.

Romper a armadilha sem apagar as diferenças

Enfrentar a polarização não exige adotar uma pose neutra nem aceitar conciliações com autoritarismo. Exige recolocar as perguntas materiais: quem trabalha, quem decide, quem lucra e quem paga a conta. Exige também distinguir divergência de desumanização. Uma crítica consequente não transforma qualquer eleitor em inimigo essencial; investiga as condições que tornam determinadas ideias sedutoras e combate as forças que lucram com elas.

Politizar o conflito, nesse sentido, é fazer o movimento contrário da polarização vazia: sair da torcida e retornar às relações sociais. Não para negar as diferenças, mas para vinculá-las à luta por direitos, democracia substantiva e controle coletivo sobre a riqueza produzida por todos.