Big data costuma aparecer como promessa de eficiência, inovação e inteligência. A palavra chega embrulhada pela propaganda das empresas de tecnologia, como se estivéssemos diante de um instrumento neutro, disponível para qualquer finalidade. Mas, sob o capitalismo realmente existente, big data não é um simples conjunto volumoso de informações: é uma infraestrutura de extração. Extrai valor de cada clique, de cada corrida aceita por um motorista de aplicativo, de cada rota percorrida por um entregador, de cada segundo de atenção capturado por uma plataforma. O dado não cai do céu. Ele é produzido por corpos em movimento, por trabalhadores submetidos a métricas e por consumidores convertidos em matéria-prima de um mercado que precisa prever, induzir e administrar comportamentos.

Quando uma professora é obrigada a alimentar sistemas com relatórios intermináveis para provar produtividade, quando um operador de call center tem cada pausa cronometrada, quando um entregador descobre que seu ganho depende de um cálculo opaco que muda sem explicação, estamos diante de algo maior que modernização administrativa. O que se chama de transformação digital é, muitas vezes, o aprofundamento da alienação do trabalho. Marx mostrou que o trabalhador é separado do produto, do processo e de si mesmo. No regime das plataformas, essa separação ganha uma camada nova: o trabalhador também é expropriado da informação que ele próprio gera. Seu trajeto, seu ritmo, sua eficiência, sua linguagem, seu cansaço convertido em padrão estatístico: tudo isso volta contra ele como comando automático.

Big data como captura da vida social

O capital sempre dependeu de medir, classificar e controlar o trabalho. A novidade não está no impulso de dominação, mas na escala e na intimidade da coleta. Big data é o sonho patronal de abolir zonas de opacidade da vida social. A empresa quer saber não apenas quanto o empregado produz, mas em que horário rende mais, quando hesita, quanto tempo leva para responder, quais trajetos escolhe, que tipo de cliente evita, que linguagem mobiliza para convencer ou acalmar. No caso das plataformas, esse controle se estende para fora do local tradicional de trabalho. O motorista leva o aplicativo no bolso e, com ele, uma central de vigilância portátil. O entregador pedala pela cidade, mas carrega consigo uma coleira algorítmica.

Chamar isso de liberdade empreendedora é uma fraude ideológica. A retórica do empreendedorismo vende autonomia ao mesmo tempo que dissolve garantias e aprofunda a submissão. O trabalhador supostamente livre não conhece os critérios reais que organizam sua remuneração, sua visibilidade ou sua punição. Ele recebe metas sem chefe visível, ordens sem voz humana, sanções sem direito de defesa. O algoritmo aparece como técnica, não como mando. É exatamente aí que sua força política se intensifica. Heidegger ajuda a perceber esse movimento quando identifica a técnica moderna não como mero instrumento, mas como modo de enquadramento do real. O mundo passa a ser revelado apenas como reserva disponível. No capitalismo de dados, o trabalhador e o usuário são enquadrados como estoques de informação explorável.

Esse enquadramento não atinge apenas o chão precário das plataformas. O professor universitário é empurrado para sistemas de avaliação que transformam ensino e pesquisa em indicadores comparáveis. O bancário já não atende pessoas, mas metas. O atendente de telemarketing não conversa: executa scripts calibrados por análise de dados. O hospital privado mede tempo de consulta, giro de leito, desempenho individual. O que se vende como gestão inteligente é a generalização de uma racionalidade em que toda atividade humana deve ser traduzida em dado tratável, comparável e rentável. A vida concreta, com suas hesitações, conflitos e tempos próprios, é forçada a caber na gramática da plataforma.

Da mercadoria ao comportamento previsto

Debord descreveu uma sociedade em que a relação social entre pessoas se apresenta como relação entre imagens. Hoje, essa lógica do espetáculo se articula com a mineração contínua de comportamento. Não basta mais exibir mercadorias e estilos de vida; é preciso monitorar a reação do público em tempo real, testar afetos, modular impulsos, ajustar o fluxo de conteúdo para prolongar permanência e consumo. O espetáculo tornou-se interativo sem deixar de ser hierárquico. O usuário parece participar, mas sua participação é formatada, medida e monetizada. Ele acredita escolher, enquanto seus gestos alimentam máquinas de previsão.

Nesse sentido, big data não serve apenas para vender mais produtos. Serve para organizar a percepção social. Plataformas aprendem quais temas irritam, quais medos mobilizam, quais palavras fixam atenção. A extrema direita compreendeu isso cedo. O bolsonarismo prosperou num ambiente em que a circulação de ressentimento, mentira e pânico moral podia ser acelerada por sistemas desenhados para premiar engajamento. Não é que o algoritmo invente o fascismo; seria uma ingenuidade tecnicista. Mas ele oferece a infraestrutura ideal para sua difusão molecular, para a repetição incessante de signos simplificados, para a fabricação de multidões excitadas e permanentemente disponíveis à manipulação. Le Bon já percebia a potência irracional das massas; o que as plataformas fizeram foi industrializar essa irracionalidade em escala cotidiana.

Há aqui uma afinidade profunda entre big data e política reacionária. Ambos operam por redução. A complexidade social é convertida em perfis, padrões, gatilhos e inimigos. O desemprego estrutural, a precarização e o colapso de expectativas não aparecem como resultado de uma ordem econômica, mas como emoções dispersas prontas para serem capturadas. A plataforma não precisa convencer pela coerência. Basta manter o sujeito preso num circuito de excitação, identificação e descarga. O dado extraído de sua navegação retorna como conteúdo ajustado para confirmar preconceitos, reforçar paranoias e impedir mediações racionais. A alienação digital não é um acidente colateral: é um modelo de negócio.

O segredo jurídico e político do big data

Seria um erro tratar essa dinâmica como excesso de algumas empresas gananciosas. A forma social do problema é mais funda. Alysson Mascaro insiste que direito e Estado não pairam acima das contradições do capital; eles as organizam e reproduzem. O discurso regulatório em torno dos dados frequentemente promete proteção individual ao usuário, como se bastasse consentir melhor, ler termos de uso ou punir abusos pontuais. Mas o núcleo da questão permanece intocado: a própria mercantilização dos dados e a legitimidade da extração privada de informação socialmente produzida. Enquanto os dados forem tratados como ativo estratégico de corporações e instrumento de governança do trabalho, a regulação tenderá a administrar a exploração, não a superá-la.

Isso aparece com nitidez quando se observa o segredo que envolve os sistemas algorítmicos. A empresa alega propriedade intelectual para esconder os critérios que definem remuneração, prioridade, bloqueio, crédito, publicidade e reputação. O trabalhador é julgado por uma caixa-preta. O consumidor é conduzido por uma caixa-preta. O cidadão é segmentado politicamente por uma caixa-preta. A assimetria é brutal: de um lado, transparência forçada da vida popular; de outro, opacidade protegida do comando empresarial. O big data, nessa configuração, não é conhecimento social compartilhado. É monopólio privado sobre a inteligibilidade da sociedade.

Não por acaso, as grandes corporações digitais se apresentam como inevitáveis. Dizem apenas organizar informação, conectar pessoas, oferecer conveniência. Essa autodescrição esconde a realidade material de armazéns, centros de distribuição, moderadores traumatizados, trabalhadores de clique, motoristas endividados, entregadores exaustos, professores e analistas soterrados por sistemas. O imaterial repousa sobre muito trabalho concreto. A nuvem tem dono, endereço, conta bancária e lobby. O brilho da inovação encobre uma velha operação capitalista: concentrar meios de produção, subordinar a força de trabalho e transformar dependência em lucro.

Contra a religião do dado

Existe uma dimensão ideológica especialmente poderosa na aura do dado. O número aparece como verdade sem sujeito, como se medir fosse o mesmo que compreender. A religião contemporânea da evidência quantificada naturaliza decisões políticas e empresariais, convertendo escolhas interessadas em necessidade técnica. Se o aplicativo reduziu a taxa por entrega, foi o sistema. Se o banco cortou postos, foi a análise. Se a escola impôs plataforma e metas, foi a modernização. O dado funciona como álibi. Ele apaga o conflito social e mascara o comando de classe sob a aparência de neutralidade operacional.

Romper com essa religião não significa rejeitar conhecimento técnico ou defender obscurantismo. Significa recolocar a técnica dentro da luta social. Quem produz os dados? Para que fins? Sob controle de quem? Com quais efeitos sobre trabalho, consciência e poder? Essas perguntas recolocam o problema em seu terreno real. O que está em disputa não é apenas privacidade individual, embora ela importe. Está em disputa a própria possibilidade de uma vida social não integralmente submetida à lógica da previsão mercantil e da vigilância permanente.

Se o capitalismo industrial disciplinava o corpo na fábrica, o capitalismo de dados pretende antecipar a conduta antes mesmo que ela se realize. Quer um trabalhador que se autoajuste, um consumidor previsível, um eleitor excitável, um sujeito permanentemente legível. É por isso que a crítica ao big data precisa ser crítica da forma social que o organiza. Sem enfrentar a propriedade privada das plataformas, a exploração do trabalho e a transformação de toda experiência em insumo econômico, continuaremos apenas discutindo limites morais para uma máquina cujo funcionamento depende exatamente de atravessar todos os limites.

O dado não é o novo petróleo, como repete o clichê empresarial. Petróleo é recurso natural; dado social é vida capturada. E uma sociedade que entrega sua memória, seu trabalho e seus afetos a sistemas privados de cálculo não está ficando mais inteligente. Está se tornando mais administrável.