As anomias costumam ser apresentadas como um problema de desordem moral: quando as regras perdem força, os indivíduos ficariam sem referência e a sociedade entraria em colapso. A definição escolar tem sua utilidade, mas é politicamente insuficiente para o Brasil de entregadores que aguardam chamadas na calçada, operadores de call center medidos por segundos e professores obrigados a transformar cada aula em indicador de desempenho. O que se chama de anomia, nesses casos, não é a ausência de normas. É a coexistência de normas brutais e contraditórias: o trabalhador deve ser autônomo, mas obedecer ao aplicativo; deve empreender, mas aceitar uma remuneração que não controla; deve ser responsável pelo próprio destino, mas não dispõe de poder sobre as condições que o determinam.

Há uma vantagem ideológica em definir a crise social como falta de valores. Se o problema for a decadência moral de indivíduos desorientados, a estrutura econômica desaparece do campo de visão. Não se pergunta por que o emprego formal se tornou insuficiente ou inacessível para tantos, por que a proteção social é tratada como privilégio, nem por que empresas bilionárias podem transferir todos os riscos de sua atividade à pessoa que pedala sob chuva. Fala-se de desagregação, mas se evita nomear quem desagrega. Fala-se de escolhas ruins, mas não da produção sistemática de escolhas sem saída.

Anomias não são vazio de regras, mas regras sem pertencimento

Em sua formulação clássica, a anomia designa uma situação em que as referências sociais capazes de limitar expectativas e organizar a vida comum se enfraquecem. O conceito se torna mais potente quando deixa de ser uma etiqueta para a conduta individual e passa a iluminar a ruptura entre promessa social e experiência concreta. O capitalismo brasileiro promete ascensão por mérito a uma classe trabalhadora que encontra jornadas fragmentadas, salários rebaixados e direitos transformados em custos empresariais. A promessa não é apenas falsa em seu resultado; ela organiza a culpa de quem fracassa nela.

O entregador de plataforma é a figura acabada dessa contradição. A publicidade lhe oferece a imagem do parceiro livre, dono de seu horário e de sua bicicleta ou moto. Na prática, sua sobrevivência depende de aceitar corridas, preservar avaliações, circular onde a demanda é maior e se adequar a alterações unilaterais de tarifas, bônus e critérios de distribuição. Ele não recebe ordens de um chefe visível, o que não significa que esteja livre de comando. A ordem foi incorporada à tela: notificações, mapas, metas implícitas, rankings e punições opacas compõem uma chefia sem rosto, disponível o tempo inteiro e quase impossível de contestar.

Essa forma de mando aprofunda o desamparo porque individualiza aquilo que é coletivo. Se a renda cai, o problema parece ser a estratégia do trabalhador, sua baixa disposição, sua localização ou sua incapacidade de trabalhar mais horas. A empresa aparece como mera intermediária técnica, embora organize preços, acesso à clientela, avaliação e ritmo. Marx descreveu a alienação como a situação em que o produto e as condições do trabalho se voltam contra quem trabalha. Nas plataformas, esse movimento ganha uma interface amigável: o próprio instrumento que promete independência registra, classifica e disciplina o trabalhador.

Não há aqui uma sociedade sem normas. Há normas que já não precisam assumir a forma de direito ou de regulamento público para exercer força material. Os termos de uso podem ser alterados, uma conta pode ser bloqueada e um rendimento pode ser reduzido sem negociação equivalente. A precarização cria uma anomia peculiar: o sujeito está submetido a uma ordem, mas não reconhece nela uma regra comum que possa discutir, transformar ou cobrar. Ele recebe obrigações sem reciprocidade.

A meritocracia administra as anomias pela culpa

O neoliberalismo não elimina a necessidade de explicações para o sofrimento social; ele oferece uma explicação conveniente. Onde há desemprego, bico e endividamento, ele enxerga falha de qualificação. Onde há exaustão, vê baixa resiliência. Onde há desigualdade racial e territorial, recomenda esforço individual. A meritocracia é menos uma crença inocente na recompensa do esforço do que uma tecnologia de administração da culpa. Ela impede que a experiência de insegurança se converta imediatamente em consciência de classe, pois cada pessoa é convocada a tratar a própria exploração como um projeto íntimo de aperfeiçoamento.

O professor pressionado por plataformas educacionais e metas administrativas conhece bem esse mecanismo. Sua atividade depende de vínculo, tempo de preparação, troca intelectual e estabilidade mínima. Mas a racionalidade gerencial mede desempenho por relatórios, engajamento padronizado, preenchimento de sistemas e resultados isolados de qualquer condição social dos estudantes. Se a escola não oferece estrutura ou se a turma chega atravessada pela fome, pelo trabalho precoce e pela violência, a resposta institucional tende a recair sobre o desempenho individual do docente. A mesma máquina que deteriora o trabalho exige que ele sorria, se reinvente e produza evidências de entusiasmo.

No call center, a anomia toma outro aspecto. Há roteiro, supervisão, monitoramento, metas e linguagem corporativa em excesso. Contudo, quase nada disso produz pertencimento ou sentido compartilhado. O atendente deve representar a empresa perante um consumidor irritado, administrar problemas que não criou e manter uma cordialidade calculada enquanto seu tempo é cronometrado. A regra é total, mas a comunidade é inexistente. O trabalhador conhece minuciosamente o procedimento e desconhece qualquer poder efetivo sobre ele. A disciplina contemporânea não precisa de estabilidade; ela funciona, muitas vezes, precisamente pela ameaça da substituição.

O espetáculo transforma abandono em destino pessoal

Debord compreendeu que a sociedade do espetáculo não é apenas uma coleção de imagens, mas uma relação social mediada por imagens. No Brasil das plataformas, a imagem do empreendedor feliz cumpre uma função decisiva: ela torna desejável a própria condição precária. Vídeos de rotina produtiva, discursos de alta performance e histórias isoladas de sucesso encobrem a massa de trabalhadores que não consegue pagar manutenção, combustível, aluguel e alimentação com a renda incerta do mês. A exceção vendida como exemplo moral torna-se um instrumento de silenciamento para a regra.

Essa mediação também ajuda a explicar a disponibilidade de parcelas da população para discursos autoritários. Quando a vida social perde garantias e a política institucional parece distante, o fascismo oferece uma falsa restituição de ordem. Ele encontra no ressentimento uma matéria-prima e aponta inimigos visíveis: pobres que acessam direitos, migrantes, movimentos sociais, professores, mulheres, pessoas negras, pessoas LGBTQIA+. Em vez de enfrentar o capital que organiza a insegurança, desloca-se a raiva para grupos ainda mais vulneráveis. O bolsonarismo explorou essa operação ao combinar culto da força, desprezo por direitos trabalhistas e fantasia de um povo moralmente puro ameaçado por inimigos internos.

Le Bon observou como multidões podem ser capturadas por sugestões, afetos e imagens simplificadoras. A leitura crítica desse processo não autoriza desprezo elitista pelo povo, como se a maioria fosse naturalmente irracional. Exige perguntar quem controla os meios de repetição, quais medos são ativados e que abandono material torna uma promessa autoritária sedutora. A multidão digital não brota do nada: ela é formada em ambientes de competição permanente, desinformação rentável e dissolução de espaços coletivos capazes de elaborar conflitos.

Contra a adaptação privada, reconstruir o comum

Tratar as anomias como defeito psicológico ou moral é uma maneira de adaptar pessoas àquilo que as destrói. A resposta empresarial costuma ser treinamento emocional; a resposta conservadora, disciplina familiar, policial ou religiosa; a resposta tecnocrática, mais dados e mais monitoramento. Todas deixam intacta a organização da vida que subtrai tempo, salário, proteção e voz política. Heidegger advertiu que a técnica não é neutra quando passa a enquadrar tudo como recurso disponível. O trabalhador convertido em dado de produtividade é visto como estoque ajustável, não como sujeito de necessidades e direitos.

O contrário da anomia não é uma sociedade de obediência. É uma sociedade em que as normas nasçam de relações reconhecíveis, discutíveis e materialmente sustentáveis. Isso pressupõe trabalho com direitos, limites reais à exploração algorítmica, transparência sobre critérios de bloqueio e remuneração, organização sindical capaz de alcançar os trabalhadores dispersos e serviços públicos que reduzam a chantagem da sobrevivência imediata. Pressupõe também abandonar a ficção de que cada pessoa deve carregar sozinha os riscos produzidos por empresas e governos.

O conflito dos entregadores por remuneração digna e proteção não é um ruído em uma economia moderna; é a revelação de sua verdade. Quando trabalhadores se organizam, interrompem serviços e tornam visível a dependência coletiva escondida pela tela, recusam a culpa que lhes foi atribuída. As anomias deixam então de parecer uma doença abstrata da sociedade. Aparecem como o nome de uma ordem capitalista que destrói vínculos para governar indivíduos isolados — e como a urgência de reconstruir, pela luta, aquilo que ela tentou tornar impossível: o comum.