Neoliberalismo é o nome de uma ofensiva política que ensinou milhões de trabalhadores brasileiros a interpretar a própria exploração como falha pessoal. Sua força não está apenas nas privatizações, no corte de direitos ou na obsessão fiscal, embora tudo isso importe. Ela está na operação ideológica que apresenta a desigualdade como resultado natural de escolhas individuais: quem prospera teria se esforçado; quem passa fome teria administrado mal a própria vida; quem trabalha doze horas por dia sem segurança deveria agradecer pela oportunidade de “empreender”. O capital deixa de aparecer como relação de dominação e passa a surgir como cenário inevitável, quase como clima.

Essa operação precisa ser enfrentada sem a linguagem branda que trata o neoliberalismo como simples preferência técnica de economistas. Não se trata de uma divergência entre modelos administrativos equivalentes. Trata-se de uma forma histórica de organizar a sociedade em favor da acumulação privada, submetendo direitos, serviços públicos e a própria ideia de dignidade ao cálculo da rentabilidade. Quando a vida social é julgada pelos critérios da empresa, o trabalhador deixa de ser sujeito de direitos e passa a ser um custo a reduzir, um indicador a elevar ou um risco a transferir.

O neoliberalismo não encolhe o Estado, ele o reposiciona

A propaganda neoliberal repete que deseja um Estado menor, como se estivesse diante de uma rebelião libertária contra burocratas e privilégios. A experiência brasileira revela outra coisa. O Estado não desaparece quando se flexibiliza uma relação de trabalho, quando se reduz a proteção social ou quando se entrega um serviço ao mercado. Ele age ativamente para garantir contratos, proteger grandes patrimônios, produzir marcos regulatórios favoráveis e disciplinar os que dependem do salário. Sua ausência é seletiva: falta na fila do posto de saúde, na escola sem estrutura e na fiscalização do trabalho; comparece com enorme eficiência quando o interesse do capital exige socorro, segurança jurídica ou repressão.

Alysson Mascaro insiste que o direito e o Estado não pairam acima das classes como árbitros neutros. Essa chave é decisiva. A lei pode reconhecer direitos e abrir espaços reais de disputa popular, mas sua forma geral está vinculada a uma sociedade fundada na troca mercantil e na propriedade privada dos meios de produção. Por isso, reformas que prometem modernizar o mercado de trabalho costumam vender como liberdade aquilo que desloca os riscos empresariais para o indivíduo. A empresa economiza com vínculos; o trabalhador arca com doença, equipamento, transporte, tempo morto e incerteza. Chamar essa transferência de autonomia não muda sua natureza.

A precariedade vendida como escolha

O entregador de aplicativo é uma das figuras mais nítidas dessa ideologia. Ele não é apresentado como empregado, mas como parceiro; não recebe salário, mas ganhos; não está submetido a uma chefia, mas a um algoritmo; não enfrenta jornada, mas decide quando se conectar. No entanto, a aparente liberdade termina onde começa a necessidade de pagar aluguel, comprar comida e manter a motocicleta funcionando. Se as entregas pagam pouco, ele precisa permanecer mais tempo na rua. Se recusa corridas ruins, pode perder prioridade. Se adoece ou sofre acidente, descobre que a liberdade prometida era, na prática, liberdade para suportar sozinho o risco.

O algoritmo aperfeiçoa a velha disciplina fabril porque pode fazê-la parecer uma decisão íntima. Metas variáveis, avaliações, bonificações e punições opacas produzem uma concorrência permanente entre trabalhadores que raramente se veem como coletividade. Marx descreveu a alienação como a situação em que o trabalhador se torna estranho ao produto, à atividade que realiza, aos outros trabalhadores e a si mesmo. Nas plataformas, essa estranheza ganha uma interface amigável. A tela informa que basta aceitar mais uma corrida, alcançar mais uma faixa, não interromper o fluxo. A exploração chega sob a forma de notificação.

O mesmo mecanismo atravessa o call center, onde a voz é cronometrada e a cordialidade vira métrica; a escola privada, onde professores acumulam tarefas administrativas e são avaliados como fornecedores de desempenho; o escritório, onde a disponibilidade fora do expediente é confundida com comprometimento. A gestão por produtividade não mede apenas resultados: ela captura tempo, atenção e afetos. Ao trabalhador é exigido que converta medo em entusiasmo, cansaço em resiliência e submissão em “postura profissional”.

Meritocracia é a moral do vencedor

A meritocracia é a peça moral que impede essa ordem de parecer brutal demais. Ela não nega completamente as desigualdades; admite, às vezes, que a largada é desigual. Mas logo devolve ao indivíduo a obrigação de vencer uma corrida cujas regras ele não escreveu. O jovem da periferia que enfrenta transporte precário, escola sucateada e emprego instável recebe o mesmo imperativo abstrato de “se qualificar” que alguém protegido por patrimônio familiar, redes de contato e tempo livre. Quando não consegue converter esforço em ascensão, a ideologia lhe oferece vergonha no lugar de explicação.

É assim que a classe dominante se protege de uma pergunta incômoda: quem se beneficia de uma sociedade em que tanta gente trabalha muito e vive mal? A resposta neoliberal troca a estrutura pela biografia. O desempregado deve reformular o currículo; o endividado deve aprender educação financeira; a mãe exausta deve organizar melhor a rotina; o trabalhador precarizado deve descobrir seu nicho. Cada sofrimento social recebe uma terapia individual. Não por acaso, a palavra empreendedorismo se tornou tão elástica: ela pode designar desde uma empresa com capital e empregados até a venda de doces para sobreviver após uma demissão.

O espetáculo da liberdade empresarial

Debord ajuda a compreender por que essa ideologia persiste mesmo quando sua realidade é tão visível. Na sociedade do espetáculo, a relação social é mediada por imagens que não apenas escondem o real, mas organizam a experiência dele. O empreendedor de sucesso, exibido como modelo universal, ocupa mais espaço do que a massa de pequenos negócios encerrados, endividados ou incapazes de garantir renda estável. A publicidade e as redes sociais transformam exceções em prova moral. Vê-se a fotografia do vencedor, não a cadeia de trabalho, herança, crédito e exploração que sustenta sua vitória.

O bolsonarismo soube explorar esse terreno. Seu discurso combinou desprezo pela solidariedade, culto da força individual e hostilidade contra instituições públicas apresentadas como entraves à iniciativa privada. A figura do “cidadão de bem” trabalhador foi mobilizada contra o próprio trabalhador organizado, contra sindicatos, servidores, movimentos sociais e pobres que reivindicam direitos. O fascismo não precisa prometer coerência econômica; basta oferecer uma comunidade imaginária na qual a frustração social encontra inimigos mais fáceis do que o capital: o professor, o imigrante, a pessoa pobre, a mulher, o artista, a esquerda.

Le Bon observava que as multidões podem ser conduzidas por imagens simples e afetos intensos. A extrema direita digital transformou essa percepção em técnica de circulação: indignação contínua, medo, ressentimento e pertencimento imediato. Mas o problema não é uma suposta irracionalidade natural do povo. É a produção material de uma vida precária, competitiva e isolada, na qual explicações autoritárias encontram terreno fértil. Quem passa o dia disputando corridas, vagas e avaliações tem menos tempo, energia e segurança para reconhecer no outro um aliado de classe.

Recusar a culpa para reconstruir o comum

Criticar o neoliberalismo não significa idealizar um Estado burocrático nem supor que toda iniciativa individual seja fraude. Significa recusar que a liberdade seja reduzida à obrigação de se vender em condições cada vez piores. Liberdade concreta exige tempo, renda, saúde, educação, moradia, transporte e poder coletivo para interferir nas decisões que moldam a existência. Sem essas condições, a escolha é apenas o nome elegante dado à necessidade.

O antagonismo decisivo não está entre o trabalhador “esforçado” e o trabalhador “acomodado”, mas entre uma minoria que controla recursos, plataformas e instituições e uma maioria que precisa vender sua força de trabalho para existir. Reconhecer isso é romper com a fábrica de culpa neoliberal. A organização sindical, a regulação das plataformas, a defesa radical dos serviços públicos e a redistribuição de poder não são nostalgias de um passado industrial; são respostas à exploração em suas formas atuais. A alternativa à sociedade da concorrência não é a passividade. É a construção consciente de um mundo em que sobreviver não seja privilégio, e trabalhar não signifique entregar a vida ao lucro de outros.