Defina alienação: não é simplesmente estar distraído, confuso, triste ou desconectado de seus sentimentos. Esses estados podem existir e merecem atenção, mas não esgotam o conceito. Alienação, em seu sentido marxista, é uma relação social concreta: o trabalhador produz riquezas, serviços, conhecimento e instrumentos de vida, mas esses produtos e instrumentos retornam a ele como forças estranhas, submetidas ao comando de quem possui os meios de produção. A palavra se tornou tão comum que frequentemente serve para descrever qualquer apatia individual. Com isso, perde-se justamente o que ela tem de mais incômodo: a alienação não é uma falha íntima a ser corrigida com autoconhecimento, e sim uma forma de organização da vida sob o capitalismo.

Quando Marx analisa o trabalho alienado, não está dizendo que todo trabalho é necessariamente uma maldição. Trabalhar é transformar a natureza, criar objetos, cooperar, desenvolver capacidades e participar da construção de um mundo comum. O problema começa quando essa atividade deixa de pertencer a quem a realiza. Na fábrica clássica, isso parece evidente: o operário produz uma mercadoria que pertence ao dono da fábrica. Mas a dinâmica permanece, com outras roupas, no call center, na escola privada, no depósito logístico, no escritório submetido a metas e no aplicativo que apresenta exploração como oportunidade de “fazer uma renda”.

Alienação é perder o controle sobre uma vida que se ajuda a produzir

Marx identifica, nesse processo, separações que se reforçam. O trabalhador se separa do produto de seu trabalho porque aquilo que produz não lhe pertence. Se uma atendente resolve centenas de problemas de clientes em uma empresa de telecomunicações, o valor criado por sua atividade se concentra na companhia, não em sua vida. Ela pode conhecer profundamente as falhas do serviço e as necessidades dos consumidores, mas não decide sobre tarifas, condições de atendimento ou estrutura do trabalho. Sua inteligência aparece apenas como uma peça alugada por um salário.

Há também a separação em relação à própria atividade. O trabalho não é vivido como expressão de capacidades e fins escolhidos, mas como obrigação para sobreviver. A jornada é fatiada por scripts, cronômetros, indicadores e supervisão. O atendente precisa sorrir na voz enquanto recebe agressões; o professor preenche plataformas, registra evidências e adapta seu ritmo à burocracia gerencial; a caixa de supermercado precisa sustentar uma velocidade determinada por sistemas que medem cada operação. Não se vende apenas tempo. Vende-se atenção, corpo, linguagem, paciência e disposição afetiva.

A alienação alcança ainda a relação com os outros. Em vez de reconhecer no colega alguém com quem pode construir interesses comuns, o trabalhador é empurrado à concorrência: quem vende mais, atende mais rápido, recebe melhor avaliação, aceita mais corridas ou se dispõe a trabalhar até mais tarde. A empresa chama essa disputa de meritocracia. O nome elegante encobre uma operação brutal: transformar pessoas submetidas à mesma precariedade em rivais pela parcela insuficiente de salário, prêmio ou demanda disponível.

A alienação não significa que o trabalhador nada sabe sobre sua exploração. Muitas vezes ele a conhece no corpo, no cansaço e na conta atrasada; o que lhe falta são poder material e formas coletivas para interrompê-la.

Por isso, definir alienação como mera “falta de consciência” é insuficiente e frequentemente arrogante. O entregador de aplicativo sabe que a taxa muda sem consulta, que a distância anunciada nem sempre corresponde ao esforço, que a chuva torna o trabalho mais perigoso e que uma avaliação ou bloqueio pode comprometer sua renda. Ele não precisa de uma aula moral sobre o que vive. A questão é que a plataforma controla os dados, a distribuição das chamadas, a regra de remuneração e a porta de entrada para o mercado. A liberdade prometida pelo aplicativo é a liberdade de estar permanentemente disponível para uma máquina que não presta contas.

Defina alienação no capitalismo de plataformas

As plataformas digitais não inventaram a alienação, mas a tornaram mais opaca e íntima. O patrão deixa de aparecer como figura direta e surge como algoritmo, central de ajuda automática, pontuação ou alteração unilateral nos termos de uso. A empresa se apresenta como mera intermediária tecnológica, como se não organizasse trabalho. Entretanto, ela define preços, ranqueia trabalhadores, incentiva determinados horários, pune recusas e pode desligar alguém sem a proteção correspondente a uma demissão formal. A técnica, aqui, não é neutra: ela materializa uma relação de poder.

Heidegger alertava que a técnica moderna não se reduz ao conjunto de máquinas; ela é um modo de enquadrar o real, de fazê-lo aparecer como reserva disponível. Sob as plataformas, o motorista vira disponibilidade de deslocamento; o entregador, capacidade geolocalizada de transportar; o professor, fornecedor de conteúdo mensurável; o usuário, fonte de dados. A lógica empresarial mede o que consegue converter em desempenho e trata o restante como ruído. Descanso, vínculo, aprendizado lento, cuidado e dignidade aparecem como custos a reduzir.

Esse enquadramento produz uma alienação digital que não depende de alguém estar olhando por cima do ombro. O celular faz o trabalho de convocar, acelerar e avaliar. A notificação invade a refeição, o tempo com a família e o sono. A promessa de autonomia se dissolve na necessidade de aceitar a próxima corrida para compensar a anterior. O trabalhador aparentemente escolhe quando ligar o aplicativo, mas essa escolha é estreitada pela urgência econômica. Chamar isso de empreendedorismo é uma operação ideológica: substitui a pergunta sobre direitos, remuneração e poder pela celebração abstrata da iniciativa individual.

A ideologia funciona precisamente porque não precisa ser uma mentira completa. É verdade que algumas pessoas obtêm renda com plataformas; é verdade que o celular pode facilitar tarefas; é verdade que há quem prefira horários flexíveis. Mas dessas verdades parciais não decorre que a relação seja livre ou justa. A ideologia recorta a experiência, exibe a exceção bem-sucedida e oculta a estrutura que distribui riscos para baixo e lucros para cima. Ela converte a sobrevivência improvisada em modelo de virtude.

O espetáculo transforma a exploração em escolha pessoal

Debord descreveu uma sociedade em que as relações entre pessoas são mediadas por imagens. Hoje, a cena é familiar: vídeos de produtividade, influenciadores ensinando a “escalar” renda, publicidades de bancos digitais e discursos empresariais sobre propósito. O trabalhador é convidado a assistir à imagem de si mesmo como empresário, mesmo quando não possui veículo quitado, clientela própria, poder de definir preços ou proteção diante de uma doença. A imagem não elimina a exploração; ela a torna mais aceitável ao oferecer uma identidade compensatória.

Também por isso a alienação não se resolve desligando o celular por um fim de semana, comprando um curso ou adotando hábitos melhores. Essas medidas podem oferecer alívio individual, mas não alteram a propriedade dos meios que organizam a existência. Um trabalhador pode meditar antes de iniciar o turno e continuar submetido à meta que adoece; pode organizar cuidadosamente suas finanças e ainda ser esmagado por aluguel, juros e trabalho instável. A indústria do bem-estar frequentemente transforma um problema histórico em tarefa privada: se você sofre, faltou administrar a si mesmo.

No Brasil, essa privatização do sofrimento convive com uma tradição política autoritária. O bolsonarismo explorou o ressentimento produzido por décadas de precarização sem dirigir sua fúria contra os proprietários e as estruturas que a produzem. Ofereceu inimigos mais frágeis — professores, movimentos sociais, pobres, artistas, minorias — e vendeu violência como autenticidade popular. A psicologia das multidões, em Le Bon, ajuda a compreender como afetos coletivos podem ser mobilizados por imagens simplificadoras; mas ela não explica sozinha por que tais imagens encontram terreno fértil. É preciso voltar à base material: medo do desemprego, perda de direitos, humilhação cotidiana e abandono social.

A definição rigorosa de alienação impede duas ilusões convenientes. A primeira é imaginar que basta cada indivíduo “acordar” para que a dominação desapareça. A segunda é supor que toda tecnologia, por si, liberta ou oprime. O que importa é quem controla seus meios, com quais finalidades e sob quais relações sociais. Uma plataforma poderia ampliar a cooperação e distribuir decisões entre quem trabalha nela; sob o capitalismo, tende a concentrar informação e comando em acionistas e executivos.

Alienação, então, é o nome da experiência em que a humanidade produz um mundo que passa a governá-la como potência alheia. Combatê-la exige mais que lucidez pessoal: exige organização coletiva, direitos trabalhistas, controle democrático da técnica e transformação das relações de propriedade. Enquanto a vida for organizada para a acumulação privada, o trabalhador continuará encontrando diante de si, como destino, aquilo que suas próprias mãos, corpos e inteligências ajudaram a criar.