Há frases que circulam no Brasil com a tranquilidade de uma lei da natureza: empresa privada é mais eficiente; imposto é confisco; o Estado só atrapalha; quem trabalha duro vence. Elas aparecem no comentário de jornal, na conversa de família, na reunião da empresa, no vídeo curto de um influenciador financeiro e na fala de políticos que se apresentam como técnicos. Não chegam, em geral, como programas ideológicos. Chegam como bom senso. E é justamente aí que reside sua força: uma ideia de classe triunfa quando deixa de parecer ideia e passa a parecer a própria realidade.
Antonio Gramsci chamou esse processo de hegemonia. Para ele, uma classe dominante não governa somente pela coerção estatal, pela polícia, pelo direito ou pela ameaça econômica. Governa também ao obter direção moral e intelectual sobre a sociedade. Ela organiza consensos, produz vocabulários, define o que parece razoável e estabelece os limites daquilo que pode ser imaginado. O senso comum não é uma sabedoria inocente que brota espontaneamente da experiência popular. É um terreno contraditório, feito de vivências reais, preconceitos herdados, fragmentos de crítica e ideias fabricadas pelas classes que dispõem de dinheiro, instituições e meios de difusão.
A eficiência não caiu do céu
A afirmação de que privatizar é necessariamente eficiente é um caso exemplar. Ela não descreve uma verdade universal; ela antecipa uma sentença favorável ao mercado antes mesmo de qualquer exame concreto. Uma empresa estatal pode ser sabotada por governos, loteada por partidos, subfinanciada e impedida de planejar. Uma empresa privada pode cortar postos, elevar tarifas, abandonar áreas pouco lucrativas, precarizar trabalhadores e transferir recursos públicos para seus acionistas. Nada disso cabe na fórmula pronta, porque a fórmula não foi feita para investigar resultados sociais. Foi feita para converter um interesse particular em princípio geral.
Privatizar pode significar vender ou conceder uma estrutura construída com trabalho, impostos e patrimônio público para que uma empresa explore a cobrança de tarifas e a remuneração de investidores. Mas o debate hegemônico desloca a pergunta decisiva. Em vez de perguntar para quem funciona este serviço, sob qual controle e com que custo social?, pergunta-se apenas se ele dá lucro, se reduz despesas imediatas ou se atende à lógica gerencial de uma corporação. A eficiência capitalista, nesse vocabulário, torna-se a capacidade de transformar direitos em negócio e trabalho em item a ser comprimido.
O usuário de um serviço público sabe que repartições podem ser lentas e que o atendimento pode ser ruim. Essa experiência é real. A hegemonia não precisa inventar todos os problemas; ela seleciona os problemas existentes, dá a eles uma explicação conveniente e bloqueia outras respostas. Diante da fila no posto de saúde, da escola sem manutenção ou do transporte insuficiente, oferece uma solução automática: entregar à iniciativa privada. Oculta-se que o sucateamento frequentemente resulta de escolha política, de teto orçamentário, de renúncia fiscal, de corrupção empresarial e de décadas de tratamento do público como sobra.
Quem fabrica a linguagem do mercado
Essa naturalização tem autores e financiadores, ainda que seus nomes desapareçam quando a ideia chega à mesa do trabalhador como opinião própria. Desde a ofensiva neoliberal internacional, fundações empresariais, centros de formulação política, consultorias, organismos financeiros, escolas de negócios, grandes veículos de comunicação e colunistas econômicos trabalharam para apresentar o mercado como árbitro neutro da vida social. No Brasil, essa rede encontrou terreno fértil na concentração dos meios de comunicação, no poder político do empresariado e na conversão de parte do debate jornalístico em repetição do ponto de vista dos investidores.
Não é necessário imaginar uma sala secreta onde todos combinam cada manchete. A hegemonia opera de modo mais eficiente: institui uma linguagem comum. O empresário é chamado de criador de riqueza mesmo quando sua riqueza depende de trabalho explorado, crédito público e infraestrutura estatal. O trabalhador que reivindica salário é tratado como custo. O imposto pago por grandes fortunas é descrito como punição, mas a isenção tributária concedida a empresas surge como estímulo. O corte de verbas sociais vira responsabilidade fiscal; o aumento de dividendos, confiança do mercado. A própria escolha das palavras já distribui simpatias e culpas.
Gramsci insistia na importância dos intelectuais orgânicos: pessoas e instituições que dão coerência à visão de mundo de uma classe. Hoje, esse trabalho não é realizado apenas pelo editorialista ou pelo economista de banco. Ele também aparece no coach que condena a estabilidade, no perfil de finanças que reduz política a planilha, no podcast que celebra bilionários, no gestor que chama demissão de reestruturação e no algoritmo que recompensa conteúdos de indignação simplificada. A plataforma digital não inventou a ideologia neoliberal, mas ampliou sua capilaridade e sua velocidade, transformando propaganda social em aconselhamento cotidiano.
O trabalhador reproduz a voz que o explora
O entregador de aplicativo que passa horas sob chuva e sol pode ouvir que é empreendedor porque escolhe quando ligar o aplicativo. A liberdade formal de aceitar corridas encobre a dependência material de quem precisa trabalhar para comer e está submetido a tarifas opacas, avaliações, bloqueios e metas definidas por uma plataforma. Quando a empresa reduz a remuneração, a crítica hegemônica não se volta contra o controle privado do algoritmo; volta-se contra impostos, regulação ou supostos privilégios trabalhistas. A exploração ganha a máscara da autonomia.
O mesmo ocorre no call center, onde métricas medem cada pausa, cada atendimento e cada segundo improdutivo. A gestão por produtividade produz adoecimento, vigilância e rotatividade, mas o trabalhador é treinado a interpretar sua exaustão como insuficiência individual. Se não alcançou a meta, faltou foco. Se foi demitido, faltou adaptabilidade. A meritocracia funciona como complemento moral da privatização: se o mercado é eficiente, a derrota de quem nele perde precisa ser culpa pessoal. Assim, desaparecem as relações de poder que organizam o jogo.
Marx mostrou que, no capitalismo, as relações entre pessoas assumem a aparência de relações entre coisas. Na forma contemporânea, índices, notas, rankings e indicadores de desempenho parecem falar por si mesmos. O professor de escola pública passa a ser avaliado por metas que ignoram fome, violência, falta de equipe e desigualdade territorial; depois, seu suposto baixo desempenho serve como argumento para terceirizar ou privatizar. O número aparece como neutralidade técnica, embora carregue uma decisão política sobre o que vale medir e sobre quem deverá pagar pela insuficiência do Estado.
Contra o consenso que chama desigualdade de liberdade
A hegemonia não elimina a experiência da contradição. A pessoa que defende cortes no Estado pode depender do SUS; quem celebra a livre iniciativa pode perceber que seu bairro ficou sem atendimento porque não oferece lucro; o pequeno comerciante pode descobrir que a concorrência real não é livre diante de redes e plataformas gigantes. Essas fissuras são importantes. O senso comum é ambivalente: abriga resignação, mas também memória de solidariedade, revolta contra injustiças e percepção de que a vida não pode ser submetida integralmente ao balanço empresarial.
Disputar hegemonia, por isso, não consiste em trocar um slogan por outro nem em idealizar o Estado existente. O Estado capitalista, como destaca Alysson Mascaro ao analisar sua forma social, não paira acima das classes; ele integra a reprodução das relações capitalistas e frequentemente protege a propriedade e a acumulação. Defender serviços públicos não é atribuir pureza ao Estado, mas disputar sua estrutura, seu financiamento, seu controle popular e sua finalidade contra a captura empresarial. A alternativa à privatização não é a burocracia intocável: é a socialização efetiva das decisões sobre bens necessários à vida.
Quando a eficiência for medida pelo tempo poupado à trabalhadora, pela universalidade do acesso, pela dignidade de quem presta o serviço e pela redução das desigualdades, a conversa mudará de eixo. A pergunta deixará de ser quanto o mercado pode extrair de uma necessidade coletiva. Passará a ser como organizar a riqueza social para que ela não continue servindo aos que já mandam. É nesse deslocamento que uma ideia imposta como bom senso começa a revelar sua origem, seus patrocinadores e seu interesse de classe.
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