Fascismo significado não se esgota no uso banal da palavra como insulto moral, nem na versão escolar que o reduz a um regime autoritário do passado europeu. Quando o termo aparece apenas como sinônimo de maldade, perde-se justamente o que ele tem de mais decisivo: sua função histórica. O fascismo é uma forma política de reorganizar a dominação de classe em momentos de crise, mobilizando ressentimento social, culto à força, irracionalismo e adesão de massas para esmagar inimigos internos e recompor a autoridade da ordem capitalista. Sem essa mediação material, o conceito vira caricatura liberal; com ela, volta a ser ferramenta de crítica.

Essa distinção importa no Brasil porque a palavra foi ao mesmo tempo inflacionada e esvaziada. Inflacionada, porque qualquer grosseria autoritária passa a receber o rótulo automaticamente. Esvaziada, porque o debate público dominante evita tocar no ponto central: o fascismo não cai do céu, não nasce apenas da cabeça de um líder tresloucado e não se explica por um defeito moral abstrato da população. Ele emerge quando a crise social produz medo, frustração e desagregação, e quando frações da classe dominante aceitam ou estimulam uma saída violenta para conter demandas populares, destruir direitos e restaurar hierarquias. O bolsonarismo não foi um acidente comunicacional; foi uma resposta política de classe, ainda que contraditória, a uma sociedade devastada por precarização, humilhação cotidiana e guerra ideológica permanente.

Fascismo significado como forma de salvar a ordem em crise

Marx ajuda a começar pelo chão da vida material. Nenhuma forma política pode ser compreendida sem as relações sociais que a sustentam. Em períodos de estabilidade, a dominação burguesa costuma operar com mediações institucionais relativamente estáveis: eleições, legalidade, negociação administrada, promessa de ascensão individual. Quando essas mediações entram em desgaste, o capital não abandona seu poder; busca outras formas de garanti-lo. O fascismo aparece precisamente como uma dessas formas extremas, nas quais a mobilização de massas não serve para emancipar os de baixo, mas para colocá-los contra si mesmos, convertendo angústia social em ódio organizado.

É por isso que o fascismo não pode ser definido apenas pela presença de um ditador, de censura ou de nacionalismo agressivo, embora esses elementos possam compô-lo. Seu núcleo está na produção de uma massa politicamente excitada, mas intelectualmente desarmada, pronta para obedecer, perseguir e destruir. Gustave Le Bon, apesar de seus limites conservadores, percebeu algo que depois seria instrumentalizado pela política de massas: na multidão, a reflexão cede lugar ao contágio afetivo, à simplificação brutal e à submissão a imagens fortes. O fascismo opera exatamente nesse registro, não para dissolver a dominação, mas para organizá-la de modo mais violento. Ele não educa; hipnotiza. Não argumenta; repete. Não esclarece conflitos sociais; fabrica bodes expiatórios.

No capitalismo contemporâneo, essa engrenagem ganhou novas próteses técnicas. Debord descreveu a sociedade do espetáculo como uma ordem em que a relação social entre pessoas é mediada por imagens. O fascismo, hoje, não precisa apenas da praça, da marcha e do uniforme; ele se alimenta de lives, cortes, correntes, memes, vídeos curtos e indignação serializada. A mentira deixa de ser simples falsidade e se torna ambiente. O sujeito precarizado, exausto, endividado, socialmente rebaixado, encontra nas plataformas uma compensação imaginária: enfim ele pode pertencer a algo, odiar em conjunto, sentir-se forte diante de um inimigo fabricado. A derrota material é convertida em excitação moral.

Da frustração social ao ódio politicamente dirigido

O entregador de aplicativo que pedala doze horas por dia sem direitos, o operador de call center cronometrado até na ida ao banheiro, a professora esmagada por metas, plataformas e desmoralização pública, o trabalhador pejotizado que vive sob chantagem permanente: essa multidão não é fascista por essência. Ela é produzida por relações sociais de desamparo e concorrência. O problema é que a experiência da exploração, por si só, não gera consciência crítica automaticamente. Sem organização coletiva, sem horizonte de transformação e sob bombardeio ideológico constante, a dor social pode ser capturada pela extrema direita. Em vez de reconhecer o patrão, a plataforma, o rentismo e o Estado de classe como fontes de sua miséria, o sujeito é ensinado a culpar o pobre, o nordestino, o professor, a mulher feminista, o negro que denuncia racismo, o movimento social, o artista, o comunista imaginário.

A meritocracia cumpre aqui um papel decisivo. Ela individualiza o fracasso e moraliza a desigualdade. Se cada um é empresário de si mesmo, então a ruína vira culpa pessoal e a violência estrutural desaparece do campo visível. Quando essa ficção entra em colapso diante da realidade brutal, o fascismo oferece uma saída psíquica: não a crítica da exploração, mas a restauração narcísica pela agressão. O sujeito humilhado pode sentir-se superior ao atacar alguém ainda mais vulnerável. A política se converte em administração do ressentimento.

Bolsonarismo e fascismo se encontram nesse ponto. Não se trata de dizer que toda experiência autoritária é idêntica aos regimes clássicos europeus, como se o conceito fosse uma peça de museu a ser encaixada mecanicamente. Trata-se de reconhecer traços estruturais: culto ao chefe, militarização da linguagem, erotização da violência, perseguição a inimigos internos, desprezo pela mediação racional, mobilização plebiscitária permanente e promessa de purificação nacional. Tudo isso articulado à defesa concreta da propriedade, da hierarquia social e da destruição de direitos trabalhistas. O liberal que se choca com o palavrão do fascista, mas aplaude a reforma que precariza o trabalho, participa da mesma engrenagem que diz temer.

Técnica, espetáculo e o novo ambiente fascistizante

Heidegger, lido criticamente, ajuda a perceber que a técnica moderna não é apenas um conjunto de ferramentas neutras; ela organiza um modo de revelar o mundo, transformando tudo em recurso disponível. Nas plataformas digitais, isso atinge também a subjetividade. Atenção, medo, raiva, identidade e convicção viram matéria-prima de extração e gestão algorítmica. O fascismo contemporâneo encontra aí um terreno fértil porque a técnica não apenas difunde mensagens extremistas; ela modela comportamentos compatíveis com elas. A aceleração impede elaboração, a repetição substitui pensamento, o engajamento premia o choque, e a verdade perde valor diante da circulação.

Debord volta a ser indispensável: no espetáculo, o falso se apresenta como momento do verdadeiro. O líder fascistizante não precisa ser coerente; precisa ocupar o centro da cena. Sua força não depende da consistência do discurso, mas da capacidade de se tornar referência afetiva constante. Ele pode mentir hoje e negar amanhã, insultar instituições e depois posar de vítima delas, atacar a ciência e reivindicar racionalidade administrativa. O espetáculo absorve a contradição e a devolve como identidade. O seguidor não adere a um programa; adere a uma forma de pertencimento.

Por isso o combate ao fascismo não pode ser reduzido a checagem de fatos ou defesa abstrata da civilidade. Mentiras precisam ser desmentidas, mas o problema é mais fundo. A adesão fascista não é simples erro cognitivo; é vínculo social produzido em condições históricas específicas. Enquanto a esquerda não disputar materialmente a vida das pessoas — trabalho, tempo, renda, moradia, transporte, organização coletiva, horizonte de dignidade — a extrema direita continuará oferecendo comunidade imaginária para sujeitos socialmente triturados.

O que o conceito esclarece no Brasil

No Brasil, falar em fascismo exige precisão e coragem. Precisão para não transformar o conceito em palavra vazia. Coragem para não escondê-lo quando ele se torna necessário. O bolsonarismo mostrou que há base social para uma política de extermínio simbólico e, em muitos casos, físico, dirigida contra pobres, negros, indígenas, mulheres, LGBTs, professores, servidores públicos e movimentos populares. Mostrou também que setores empresariais, militares, religiosos e midiáticos podem conviver muito bem com essa violência quando ela serve para disciplinar o trabalho e bloquear qualquer redistribuição real de poder.

Alysson Mascaro insiste, com razão, que o Estado e o direito no capitalismo não pairam acima das classes; eles organizam a reprodução da sociabilidade capitalista. Isso significa que o fascismo não é o oposto absoluto do sistema, mas uma de suas possibilidades-limite. Quando a forma liberal já não contém a crise, a brutalização aberta pode aparecer como solução. Não para abolir o capitalismo, mas para protegê-lo de seus próprios efeitos explosivos. O erro liberal está em imaginar que as instituições, por si, bastam como antídoto. Se a base social da barbárie permanece intacta, a forma institucional pode ser corroída por dentro com assustadora facilidade.

Levar a sério o significado de fascismo, então, é recusar tanto o alarmismo vazio quanto a cegueira conciliadora. Não se trata de chamar qualquer adversário de fascista, mas de reconhecer quando a política passa a organizar massas em torno da violência redentora, da destruição do inimigo interno e da salvação autoritária da ordem. O nome importa porque revela a estrutura. E revelar a estrutura é condição para combatê-la não apenas no plano moral, mas no terreno decisivo da vida social: o trabalho, a ideologia, a técnica, o Estado e a luta de classes.