Fascismo é um movimento político de massas de extrema direita e, quando chega ao poder, um regime que combina ultranacionalismo, culto ao líder, militarização da vida social, perseguição a minorias e destruição das organizações dos trabalhadores. Não se reduz a uma opinião conservadora ou a um governo impopular: é uma forma de mobilização autoritária que transforma frustrações reais em ódio contra inimigos internos, como sindicalistas, comunistas, negros, indígenas, imigrantes, mulheres, pessoas LGBTQIA+ e quem quer que seja apresentado como ameaça à nação, à família ou à ordem.

Origem e sentido histórico

O fascismo surgiu na Europa do pós-Primeira Guerra Mundial, em meio à crise econômica, ao medo das revoluções socialistas e à incapacidade das instituições liberais de estabilizar sociedades atravessadas por desemprego, inflação e conflito de classes. Na Itália, Benito Mussolini organizou milícias que atacavam greves, sindicatos, jornais e sedes de partidos de esquerda antes de assumir o governo em 1922. Na Alemanha, o nazismo levou essa lógica a uma escala genocida, fazendo do antissemitismo e do racismo biológico elementos centrais de seu projeto de Estado.

O termo não deve apagar as diferenças entre fascismo italiano, nazismo e outras ditaduras. O nazismo foi uma forma específica e exterminista de fascismo, organizada em torno da fantasia racial ariana e da aniquilação dos judeus europeus. Mas há traços comuns: a promessa de renascimento nacional, a figura de um chefe supostamente capaz de encarnar a vontade do povo, o desprezo por direitos universais e a substituição do conflito político por uma guerra moral contra inimigos.

Como o fascismo opera

O fascismo não nasce apenas de cima, como uma ordem de quartel. Ele procura construir base popular, sobretudo entre setores das classes médias precarizadas, pequenos proprietários, trabalhadores desorganizados e parcelas da burguesia. Em vez de explicar a crise pelas relações de exploração do capitalismo, atribui o sofrimento a bodes expiatórios. O desemprego deixa de ser resultado de escolhas empresariais, políticas de austeridade ou da dinâmica do capital e passa a ser culpa do estrangeiro, do pobre que recebe assistência, do professor “doutrinador” ou de uma conspiração imaginária.

Essa operação é ideológica e material. Ideológica porque oferece uma narrativa simples para problemas complexos: existe um povo puro, traído por elites corruptas e inimigos perigosos, que será salvo pelo líder. Material porque a violência contra a esquerda e contra grupos vulneráveis protege hierarquias sociais concretas. Quando sindicatos, movimentos por moradia e organizações populares são intimidados, a capacidade coletiva de disputar salário, jornada, terra e serviços públicos diminui.

O fascismo pode usar eleições para avançar, mas não aceita limites efetivos ao seu poder. Ataca imprensa, universidades, Judiciário, eleições e parlamentos não por desejar ampliar a participação popular, e sim para subordinar toda instituição ao chefe e à sua máquina política. A mentira repetida, a teoria conspiratória e a provocação permanente cumprem uma função: desorientar o debate público e produzir uma atmosfera em que a violência pareça legítima defesa.

O fascismo oferece pertencimento pela exclusão: promete dignidade a seus seguidores desde que eles aceitem que outros tenham menos direitos, menos voz e, no limite, menos humanidade.

Fascismo, capitalismo e crise

Uma crítica anticapitalista não afirma que todo capitalismo seja automaticamente fascista. Democracias liberais também podem preservar exploração, racismo e desigualdade. O ponto é outro: em períodos de crise aguda, setores da classe dominante podem tolerar, financiar ou incorporar forças fascistas quando elas ajudam a esmagar a organização dos trabalhadores e a restaurar a autoridade social. O fascismo se apresenta como revolta contra “o sistema”, mas costuma dirigir sua fúria contra quem está abaixo e poupar as estruturas de propriedade e poder.

Por isso, sua retórica contra banqueiros, políticos ou globalistas pode ser enganosa. Sem crítica às relações de classe, essa revolta tende a converter problemas produzidos pelo capital em ressentimento nacionalista e preconceito. O entregador de aplicativo, submetido a jornadas extensas e remuneração instável, é convidado a culpar outro trabalhador, não a plataforma que controla preços, bloqueios e avaliações. A professora atacada por ensinar história vira inimiga pública, enquanto o sucateamento da escola e a precarização do trabalho docente ficam fora de cena.

No Brasil de hoje

O Brasil teve movimentos de inspiração fascista, como o integralismo dos anos 1930, e uma longa tradição autoritária marcada pela escravidão, pelo racismo estrutural, pelo mandonismo e pela violência estatal. Isso não significa chamar indistintamente toda direita de fascista nem equiparar automaticamente a ditadura militar brasileira aos regimes fascistas europeus. Significa reconhecer que práticas autoritárias encontram terreno fértil onde a desigualdade é extrema e a cidadania sempre foi distribuída de modo seletivo.

O bolsonarismo reuniu elementos fascistizantes: culto pessoal ao líder, exaltação de armas e forças de segurança, hostilidade a movimentos sociais, ataques ao processo eleitoral, desinformação organizada e linguagem que desumaniza adversários. A tentativa de golpe de 8 de janeiro de 2023 mostrou que a retórica contra as instituições podia se converter em ação organizada. Ao mesmo tempo, o fenômeno não cabe apenas na figura de um político: ele circula em redes digitais, igrejas, grupos empresariais, canais de vídeo e ambientes de trabalho.

Enfrentar o fascismo exige defender liberdades democráticas, mas não basta pedir moderação. É preciso fortalecer sindicatos, movimentos populares, educação pública, memória das violências de Estado e formas coletivas de proteção contra a precarização. Sem enfrentar as condições que produzem medo, isolamento e ressentimento, a extrema direita continuará oferecendo uma falsa comunidade fundada na obediência e no inimigo.