Alienação não é uma palavra para descrever apenas alguém distraído, absorto no celular ou distante de si mesmo. Esse uso cotidiano reduz um problema histórico a uma falha de atenção individual. Para Marx, a alienação nasce de uma relação material: o trabalhador produz riqueza, mas essa riqueza lhe aparece como poder estranho, pertencente a outro. Aquilo que ele faz não o realiza; volta contra ele como mercadoria, lucro, meta, algoritmo, cobrança e desemprego potencial. No Brasil do trabalho precarizado, a alienação tem o rosto do entregador que pedala para uma plataforma que não controla, da professora submetida a indicadores e formulários, da atendente de call center que repete um roteiro enquanto cada segundo é medido.

Não se trata de nostalgia de um trabalho supostamente puro, artesanal e feliz. Sob o capitalismo, mesmo as ocupações que exigem criatividade e conhecimento são reorganizadas para valorizar o capital. O designer cria campanhas cujo sentido final é vender mais; o programador aperfeiçoa sistemas que podem vigiar empregados; o professor é pressionado a converter formação em desempenho mensurável; o jornalista disputa atenção em uma máquina publicitária que recompensa velocidade e escândalo. O problema não é somente o conteúdo de cada tarefa, mas a forma social que a governa: trabalha-se para sobreviver, enquanto os resultados, os ritmos e as decisões fundamentais pertencem a quem detém a propriedade ou comanda a plataforma.

Alienação é a expropriação do tempo vivido

Marx identificou no trabalho alienado uma separação em cadeia. O trabalhador se separa do produto, pois não decide seu destino; se separa da própria atividade, porque ela lhe é imposta como meio de subsistência; se separa de outros trabalhadores, transformados em concorrentes; e se separa de suas capacidades humanas, reduzidas a instrumentos de rendimento. Essa estrutura permanece atual, mas ganhou interfaces mais sedutoras. A exploração não chega apenas pela ordem explícita de um chefe. Ela aparece como notificação, mapa de calor, taxa de aceitação, avaliação de clientes, ranking de vendas e promessa de flexibilidade.

O entregador de aplicativo é chamado de parceiro, embora não participe da decisão sobre tarifas, bloqueios, critérios de distribuição de corridas ou alterações contratuais. A palavra parceria encobre uma relação profundamente desigual. A empresa transfere custos da operação — veículo, combustível, manutenção, internet, riscos de acidente — e conserva o poder de organizar o trabalho por meio de códigos opacos. O trabalhador escolhe quando ligar o aplicativo, dizem. Mas essa liberdade formal encontra horários de maior demanda, remuneração instável, urgência econômica e punições automatizadas. Não é autonomia quando a recusa de uma corrida pode significar menos acesso às próximas.

A alienação se aprofunda quando a sobrevivência exige disponibilidade permanente. O tempo que deveria permitir descanso, convivência, estudo, organização política ou simplesmente ócio torna-se reserva de trabalho. A pessoa não está trabalhando a cada minuto, mas permanece pronta para trabalhar. Essa captura produz uma subjetividade ansiosa: é preciso responder rápido, manter boa avaliação, parecer produtivo, atualizar-se sem cessar, transformar cada competência em vantagem competitiva. A jornada deixa de caber no relógio de ponto porque se espalha pela vida inteira.

A tecnologia organiza a alienação, não a inventa

Seria confortável culpar a tecnologia em abstrato, como se o problema estivesse no smartphone ou na inteligência artificial por si mesmos. Heidegger advertiu que a técnica moderna não é apenas um conjunto de ferramentas: ela estabelece uma maneira de revelar o mundo, tratando pessoas, natureza e tempo como recursos disponíveis para cálculo e reserva. Sob o capitalismo, essa racionalidade encontra um interesse preciso: ampliar comando, reduzir custos, antecipar comportamentos e extrair mais valor. A tecnologia não cai do céu com sua política pronta; ela é desenvolvida e aplicada dentro de relações de classe.

Por isso, a inteligência artificial não deve ser discutida apenas como inovação inevitável. Em uma empresa de teleatendimento, ela pode resumir chamadas, sugerir respostas e ampliar a cadência exigida de cada atendente. Em uma escola, pode multiplicar tarefas administrativas e fortalecer a ilusão de que ensinar é alimentar sistemas com dados. Em escritórios, pode servir à vigilância de teclas, telas e pausas. Nada disso decorre necessariamente da capacidade técnica de processar linguagem ou reconhecer padrões. Decorre da decisão patronal de usar essa capacidade para intensificar o trabalho e concentrar poder.

O discurso da inovação costuma apagar essa escolha. Fala-se em eficiência como se eficiência fosse um valor neutro, mesmo quando significa demitir, acelerar, cortar intervalos e substituir julgamento humano por métricas. Fala-se em democratização quando grandes plataformas controlam infraestrutura, dados e regras de circulação. A promessa é libertar o indivíduo de tarefas repetitivas; a realidade frequente é elevar a produtividade esperada de quem permanece empregado e lançar os demais em ocupações ainda mais inseguras. A técnica, subordinada ao lucro, aperfeiçoa a administração da dependência.

O espetáculo faz a exploração parecer escolha

Debord descreveu a sociedade do espetáculo como uma relação social mediada por imagens. Não se trata apenas de televisão, propaganda ou redes sociais, mas de uma vida em que a aparência organizada pela mercadoria se coloca no lugar da experiência e da relação direta. A publicidade do trabalho por aplicativo mostra mobilidade, liberdade e empreendedorismo; raramente mostra o corpo exausto, o medo da chuva, o endividamento da moto, a corrida aceita para não comprometer a pontuação. A imagem não é uma mentira isolada: é a forma necessária de uma economia que precisa apresentar a sujeição como projeto pessoal.

A meritocracia cumpre papel central nesse espetáculo. Quando todo resultado é atribuído ao esforço individual, a desigualdade deixa de ser uma estrutura e passa a parecer um veredito moral. Quem prospera teria merecido; quem não prospera teria falhado em se adaptar, estudar, empreender ou manter atitude positiva. Essa narrativa transforma direitos em privilégios e exploração em oportunidade. Também impede que trabalhadores reconheçam uma condição comum. Se cada um se imagina empresário de si, o colega não é companheiro de luta, mas concorrente por uma vaga, uma entrega, uma comissão ou um punhado de seguidores.

A lógica das plataformas intensifica essa fragmentação. Avaliações individuais substituem vínculos coletivos; metas personalizadas escondem a meta geral de rentabilidade; recompensas pontuais mantêm todos em competição. O trabalhador passa a se observar com os olhos do sistema: calcula seu desempenho, culpa-se pelo cansaço, interpreta adoecimento como insuficiência pessoal. A alienação deixa de parecer imposição externa e se instala como autogerenciamento compulsório. É nisso que a ideologia se torna eficaz: não precisa convencer todos de que a vida é boa; basta fazer parecer que não há alternativa além de administrar a própria precariedade.

Contra a solidão programada, organização coletiva

Reconhecer a alienação não é entregar-se ao fatalismo. O capital depende de trabalhadores que cooperam todos os dias, ainda que essa cooperação seja apropriada e organizada contra eles. Motoristas, entregadores, professoras, operadores de caixa, auxiliares de enfermagem, técnicos e programadores sustentam materialmente uma sociedade que lhes nega controle sobre suas próprias condições de vida. A mesma interdependência que o capitalismo converte em concorrência contém a possibilidade de organização.

Esse ponto é decisivo porque a crítica à alienação pode ser facilmente domesticada. Ela vira conselho para desligar o celular, cultivar autenticidade, meditar antes da jornada ou “encontrar propósito” no emprego. Descansar e proteger a saúde são necessidades reais, mas não dissolvem a relação que produz o esgotamento. Nenhuma higiene digital resolve o algoritmo que reduz remuneração; nenhuma mudança de mentalidade restitui direitos trabalhistas; nenhuma terapia individual substitui salário digno, jornada menor, proteção social e poder coletivo de decisão.

A saída não está em recuperar uma essência individual escondida sob as telas, mas em transformar as condições que fazem da vida uma extensão do mercado. Isso implica enfrentar a ficção de que plataformas são meros intermediários, disputar limites à vigilância tecnológica, defender direitos para trabalhadores precarizados e reconstruir formas de solidariedade capazes de atravessar ocupações fragmentadas. Alienação é o nome de uma perda socialmente produzida. Justamente por isso, não será vencida por adaptação pessoal, mas pela luta para que o trabalho e a técnica deixem de servir à acumulação de poucos e passem a responder às necessidades de muitos.