Simulacro é uma imagem, signo ou modelo que não representa simplesmente algo real, mas passa a organizar o que conta como real. Para Jean Baudrillard, a cópia sem original não é uma falsificação fácil de desmascarar: é uma forma de vida em que publicidade, televisão, plataformas e consumo produzem referências que parecem mais concretas, desejáveis e verificáveis do que a experiência vivida. O sujeito não é apenas enganado por uma imagem; ele aprende a desejar, trabalhar, votar e se reconhecer por meio dela.

Da representação ao simulacro

Uma representação ainda supõe uma distância entre imagem e coisa. Um retrato representa uma pessoa; uma notícia, ao menos em princípio, relata um acontecimento; um mapa procura indicar um território. O simulacro surge quando essa relação se rompe ou se torna secundária. A imagem não precisa mais responder a um referente: ela circula, é repetida, medida e consumida por seus próprios efeitos.

Baudrillard desenvolveu essa ideia ao analisar a sociedade de consumo e os meios de comunicação de massa. Seu argumento não é que o mundo material desapareceu, nem que tudo virou ilusão na cabeça das pessoas. Fábricas, salários, dívidas, despejos e jornadas extenuantes continuam existindo. O ponto é que esses processos passam a ser percebidos e administrados por códigos, marcas, pesquisas de opinião, rankings, perfis e narrativas que muitas vezes encobrem suas relações sociais reais.

Ele chamou de hiper-realidade essa situação em que o produzido parece mais real que o vivido. A campanha publicitária de uma empresa “sustentável”, por exemplo, pode valer mais para sua imagem pública do que as condições concretas de produção, a cadeia de fornecedores ou o descarte de seus produtos. Não se trata apenas de propaganda mentirosa: a promessa visual de responsabilidade torna-se o objeto efetivamente consumido.

Como o simulacro opera

O simulacro opera pela repetição, pela circulação e pela equivalência. Uma imagem compartilhada milhares de vezes ganha aparência de evidência; uma métrica ganha aparência de mérito; uma marca ganha aparência de identidade. Curtidas, seguidores, notas e avaliações não descrevem somente uma realidade anterior: ajudam a fabricá-la. Aquilo que recebe visibilidade tende a ser percebido como relevante, confiável e desejável.

As plataformas digitais radicalizam esse mecanismo. O perfil de um trabalhador não é apenas uma apresentação pessoal: transforma-se num pequeno empreendimento de si, pressionado a exibir disponibilidade, produtividade, felicidade e autenticidade. A vida editada para circular pode se tornar a medida da própria vida. Há uma inversão: em vez de as imagens servirem à experiência, a experiência é organizada para render imagens.

No trabalho por aplicativo, a nota do entregador parece uma descrição neutra de sua qualidade. Mas ela funciona como dispositivo de comando. Uma avaliação ruim, muitas vezes determinada por atraso de restaurante, trânsito ou mau humor do cliente, pode reduzir acesso a chamadas e renda. O número não apenas representa o desempenho: ele produz um trabalhador permanentemente disciplinado, cordial e disponível. A plataforma se apresenta como simples mediadora tecnológica, enquanto controla o trabalho sem assumir as responsabilidades de um empregador.

Simulacro, ideologia e alienação

O simulacro se aproxima da ideologia porque naturaliza relações históricas de poder. Quando uma empresa chama o entregador de “parceiro”, não está apenas escolhendo uma palavra simpática. Está oferecendo uma imagem de autonomia que encobre subordinação algorítmica, ausência de direitos e transferência de custos para quem trabalha. A liberdade exibida pelo aplicativo — escolher horários, aceitar corridas, ser “dono do próprio negócio” — pode coexistir com a necessidade material de trabalhar longas horas para pagar aluguel e comida.

Há também um aspecto de alienação. O trabalhador passa a se encontrar diante de resultados sociais que aparecem como forças estranhas: a pontuação, a demanda calculada, o preço dinâmico, o ranqueamento. Ninguém individualmente parece decidir, embora decisões empresariais estejam inscritas no algoritmo. A técnica ganha a aparência de destino objetivo, e a exploração se esconde atrás da tela.

O simulacro não substitui a exploração por uma ilusão abstrata; ele ajuda a tornar a exploração aceitável, administrável e difícil de nomear.

No Brasil hoje

No Brasil, o simulacro aparece na promessa de empreendedorismo difundida para quem perdeu emprego ou nunca teve acesso a trabalho estável. O motorista de aplicativo é mostrado como empresário livre; o vendedor de curso, como prova de que qualquer um pode enriquecer; a precariedade, como escolha de estilo de vida. Essa narrativa apaga desigualdades de classe, raça, gênero e território que definem quem pode assumir riscos e quem apenas tenta sobreviver.

Também aparece na política. Vídeos curtos, recortes descontextualizados, memes e redes de desinformação não precisam construir uma versão coerente dos fatos para produzir efeito. Basta que criem identificação, medo ou ressentimento e circulem com velocidade. A disputa deixa de ser apenas sobre o que aconteceu e passa a ser sobre quais imagens conseguem organizar afetos e formar uma realidade compartilhada.

Mas tratar tudo como simulacro pode levar ao cinismo, como se não houvesse verdade, conflito material ou possibilidade de transformação. Essa é uma limitação frequente das leituras de Baudrillard. A crítica anticapitalista precisa sustentar que, por trás das imagens, há trabalho concreto, propriedade privada, concentração de riqueza e corpos submetidos à violência. Desmascarar o simulacro não significa buscar um mundo puro, sem mediações; significa reconectar os signos às relações sociais que eles ocultam e enfrentá-las coletivamente.