Nem todo lucro vem de uma fábrica que transforma matéria-prima em mercadoria, nem da inovação celebrada por anúncios de startup. Uma parcela decisiva da riqueza capitalista é obtida pela tomada: de terras, serviços públicos, conhecimentos coletivos, direitos sociais, recursos naturais e, hoje, dados produzidos por milhões de pessoas. David Harvey chamou esse movimento de acumulação por espoliação. Não se trata de um resíduo bárbaro de um capitalismo antigo, corrigido pela modernização. É um mecanismo permanente de um sistema que, quando encontra limites para lucrar com a exploração ordinária do trabalho, avança sobre aquilo que ainda não foi plenamente mercantilizado.
A privatização da Sabesp, concluída pelo governo de São Paulo em 2024, oferece um caso concreto e recente desse processo. A companhia não surgiu da genialidade de investidores privados nem de uma aposta de risco feita por acionistas. Ela foi construída durante décadas com recursos públicos, trabalho de técnicos, operadores, engenheiros e funcionários administrativos, além das tarifas pagas pela população. Sua infraestrutura — redes, estações, reservatórios, sistemas de tratamento, conhecimento acumulado e capacidade operacional — resultou de uma longa produção social. A venda de seu controle ao mercado não criou essa riqueza: transferiu a um circuito privado de valorização um patrimônio que já existia porque a sociedade o havia construído.
Tomar não é o mesmo que produzir
Marx demonstrou que a acumulação capitalista depende da separação entre o trabalhador e os meios de produzir sua vida. O trabalhador, despojado da terra, das ferramentas e das condições de subsistência autônoma, precisa vender sua força de trabalho. Harvey atualiza essa percepção para mostrar que o capitalismo contemporâneo não vive apenas da mais-valia arrancada na jornada de trabalho. Ele também necessita abrir novas áreas de negócio por meio de privatizações, endividamento, expropriação territorial, destruição de direitos e apropriação de bens comuns.
Chamar isso de espoliação é decisivo porque a linguagem administrativa costuma esconder o conflito. Privatização aparece como “desestatização”; tarifa, como “sustentabilidade econômico-financeira”; demissão, como “eficiência”; e a subordinação de um serviço essencial aos dividendos, como “modernização”. Mas o nome técnico não altera a operação material: algo que estava submetido, ainda que de modo imperfeito e contraditório, a finalidades públicas passa a responder prioritariamente à rentabilidade privada. O capital compra ou recebe acesso a uma estrutura socialmente produzida e passa a cobrar pelo uso de uma condição elementar da vida.
Água não é uma mercadoria qualquer. Ninguém decide livremente não consumi-la quando o preço sobe. Ninguém pode substituir uma rede de abastecimento como se escolhesse entre marcas de celular. Essa condição torna a água especialmente cobiçada: sua demanda é contínua, sua infraestrutura é monopolista e sua falta é insuportável. A promessa de que a lógica empresarial produzirá eficiência esquece que eficiência, sob o capitalismo, tem um sentido específico: reduzir custos, elevar retornos e proteger a remuneração do capital. Isso pode significar compressão de gastos, terceirização, reconfiguração de prioridades territoriais e pressão constante sobre tarifas e condições de trabalho.
A Sabesp e a conversão do comum em ativo
O debate sobre a Sabesp foi frequentemente apresentado como uma disputa gerencial: de um lado, quem confiaria na administração estatal; de outro, quem preferiria a iniciativa privada. Essa moldura é ideológica porque trata a propriedade como detalhe e apaga a pergunta central: quem passa a comandar uma infraestrutura indispensável e segundo quais interesses? Uma empresa pública pode ser mal administrada, pode reproduzir hierarquias e pode sofrer interferências políticas. Nada disso autoriza concluir que a resposta seja entregar um monopólio natural ao mercado. A crítica de esquerda não santifica a burocracia estatal; exige que o que é público seja efetivamente governado pelo interesse coletivo, com transparência, participação popular e valorização de quem trabalha.
Na operação de privatização, a sociedade não recebeu de volta o produto integral de décadas de investimento público. Recebeu a promessa de que o mercado administraria melhor aquilo que ela já havia financiado. É a velha pedagogia neoliberal: primeiro, subfinancia-se ou administra-se o público segundo critérios que o enfraquecem; depois, apresenta-se sua venda como única saída racional. O patrimônio coletivo aparece como peso, enquanto o comprador privado aparece como salvador. O que muda de mãos não é somente uma empresa: muda o poder de definir investimentos, prioridades e ritmos de expansão de um serviço que organiza a vida cotidiana de milhões.
O trabalhador da manutenção que entra em uma área de risco, a atendente que lida com uma família sem abastecimento, o técnico que conhece as fragilidades de uma rede e a população que paga a conta participam materialmente da reprodução desse sistema. Contudo, a decisão estratégica se desloca para acionistas e conselhos comprometidos com a valorização financeira. A riqueza produzida pelo trabalho e pela contribuição social torna-se ativo negociável. A espoliação opera justamente nessa passagem: a coletividade arca com a construção e os riscos; a propriedade privada reivindica os rendimentos.
Do cercamento da terra ao cercamento do dado
O capitalismo nasceu cercando terras comuns e expulsando populações de suas formas de subsistência. Hoje, sem abandonar a terra, ele cerca também a informação. Plataformas digitais extraem dados de deslocamentos, consumo, relações sociais, rotinas e desejos. Cada corrida solicitada por aplicativo, cada entrega acompanhada no celular e cada conta paga por meio de uma interface digital produz informações que as empresas capturam, classificam e convertem em poder de mercado. O usuário é induzido a acreditar que recebe um serviço gratuito ou conveniente; em troca, oferece matéria-prima para sistemas de previsão, publicidade, vigilância e controle.
Há uma conexão profunda entre o cercamento da água e o cercamento dos dados. Ambos retiram da esfera comum recursos indispensáveis à vida social e os reorganizam como propriedade exclusiva. A diferença é que, no caso dos dados, a expropriação costuma se disfarçar de escolha individual: bastaria aceitar os termos de uso. Mas não há escolha plenamente livre quando trabalhar, circular, estudar, acessar serviços e manter vínculos sociais depende das plataformas. O entregador de aplicativo não negocia em igualdade com o algoritmo que lhe distribui corridas, mede seu tempo e pode bloqueá-lo. Sua própria atividade alimenta o banco de dados que aperfeiçoa o controle sobre ele.
Heidegger alertava que a técnica moderna tende a enquadrar o mundo como reserva disponível, isto é, como algo a ser calculado, mobilizado e explorado. Sob o comando capitalista, essa tendência ganha forma concreta: a água torna-se unidade de receita; o trabalhador, custo ajustável; o cidadão, consumidor; e a experiência humana, dado extraível. A técnica não é neutra quando está inscrita em relações de classe. Ela pode ampliar capacidades coletivas, mas também pode aprofundar a subordinação se suas infraestruturas e seus objetivos forem definidos por quem transforma toda necessidade em oportunidade de negócio.
A ideologia que chama espoliação de escolha
A força da ideologia neoliberal está em transformar perda coletiva em decisão madura. Diz-se que o Estado deve “focar no essencial”, como se garantir água não fosse essencial; que o mercado disciplina desperdícios, como se a busca por dividendo fosse uma forma superior de responsabilidade; e que a concorrência beneficia o consumidor, mesmo quando a própria natureza da rede impede concorrentes reais. A privatização é vendida como liberdade, mas a liberdade de uma empresa para lucrar com uma necessidade básica pode significar menor poder da população sobre as condições materiais de sua própria existência.
Debord ajuda a entender essa encenação. Na sociedade do espetáculo, a política não desaparece: ela é convertida em imagem administrável. A venda de patrimônio público ganha vídeos institucionais, promessas abstratas de investimento e linguagem de futuro. O conflito de classes some da tela. Não aparecem, com a mesma nitidez, os trabalhadores submetidos a metas, os bairros periféricos cuja infraestrutura exige investimento continuado nem a dependência inescapável de quem precisa abrir a torneira todos os dias. A aparência de eficiência produz consenso ao ocultar a relação social que sustenta o negócio.
Resistir à acumulação por espoliação não significa defender um passado estatal intocado. Significa recusar que bens comuns sejam tratados como estoque para a próxima rodada de valorização financeira. Significa disputar o controle democrático da água, da energia, dos transportes, das redes digitais e dos dados. Quando a sociedade perde essas infraestruturas, não perde apenas patrimônio: perde capacidade de decidir coletivamente como viver. O lucro que entra no balanço de poucos pode ser, para muitos, a conta mais cara de uma torneira que deixou de ser pública.
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