O conceito de burguesia costuma ser domesticado por definições escolares que a apresentam como uma camada social ligada ao comércio, às cidades ou à riqueza. Nada disso é exatamente falso, mas é insuficiente onde importa. Burguesia, no sentido marxista, não designa quem tem dinheiro, usa roupa cara ou aparece na capa de uma revista de negócios. Designa a classe que detém os meios pelos quais a sociedade produz sua existência e, por isso, pode comprar a força de trabalho dos demais, dirigir o processo produtivo e apropriar-se de uma riqueza que não criou sozinha. A palavra deixa de ser uma curiosidade histórica quando se percebe que ela nomeia uma relação viva: poucos controlam as condições do trabalho; muitos só possuem a necessidade de trabalhar.
Essa distinção é decisiva no Brasil, onde a ideologia neoliberal fez do empresário uma personagem moral. Ele é apresentado como o indivíduo corajoso que arriscou, inovou e venceu. O trabalhador, em contraste, aparece como alguém que deve se atualizar, se esforçar e agradecer pela oportunidade. A ordem social é narrada como resultado de méritos particulares, não como uma estrutura de propriedade e poder. Assim, o capitalista desaparece atrás da imagem do empreendedor; a exploração desaparece atrás da linguagem da parceria; e a classe dominante se torna uma coleção de histórias inspiradoras.
Marx não tratava a burguesia como uma confraria secreta de milionários reunidos para decidir cada detalhe da vida nacional. Trata-se de uma posição objetiva na sociedade. Quem controla fábrica, terra, banco, rede logística, plataforma digital, cadeia comercial ou grandes volumes de capital ocupa uma posição a partir da qual pode comandar trabalho alheio. Não é preciso que cada acionista dê ordens a um empregado para que a relação exista. Nas grandes empresas contemporâneas, o comando se distribui entre conselhos, fundos, diretorias, softwares de gestão e metas automáticas. A aparência de impessoalidade não elimina a classe; torna seu poder mais difícil de enxergar.
O conceito de burguesia diante do entregador que não tem patrão
O entregador de aplicativo é uma das figuras mais reveladoras dessa transformação. Ele recebe tarefas por uma tela, é avaliado por clientes que não conhece e depende de um sistema que pode reduzir chamadas, bloquear sua conta ou alterar valores sem negociação coletiva efetiva. A empresa se apresenta como mera intermediária tecnológica: não teria empregados, apenas conectaria consumidores a “parceiros”. Mas ela define a infraestrutura sem a qual o trabalho não acontece, administra dados, estabelece critérios de visibilidade, calcula pagamentos e retém parte da circulação de valor. Chamar isso de neutralidade tecnológica é uma fraude ideológica.
O entregador arca com a bicicleta ou motocicleta, combustível, manutenção, celular, seguro precário e os riscos do trânsito. A plataforma conserva o poder de estabelecer as regras. Essa separação entre quem possui os instrumentos decisivos de organização e quem possui apenas sua capacidade de trabalhar é o núcleo do conceito de burguesia. O meio de produção não precisa mais ter a aparência de uma chaminé industrial. Pode ser uma marca, um aplicativo, uma rede de restaurantes, uma base de dados, um sistema de pagamento e a capacidade financeira de sustentar perdas enquanto se conquista mercado.
A burguesia de plataforma não aboliu a relação entre capital e trabalho; ela a tornou nebulosa. O trabalhador é convocado a se enxergar como microempresa de si mesmo. Se trabalhou doze horas e ganhou pouco, teria calculado mal. Se sofreu acidente, teria assumido um risco individual. Se o algoritmo o pune, seria porque não entregou qualidade suficiente. A empresa transforma uma relação de subordinação em problema de conduta pessoal. É a meritocracia funcionando como tecnologia moral da exploração.
O trabalhador não se torna livre porque o patrão foi substituído por uma notificação; apenas passa a receber a ordem numa forma mais conveniente para o capital.
A retórica do empreendedorismo é particularmente eficiente porque encontra uma população submetida ao desemprego, à informalidade e ao crédito caro. Para quem perdeu uma ocupação estável, entrar num aplicativo pode parecer uma saída concreta — e frequentemente é, no nível da sobrevivência imediata. A crítica não deve desprezar essa necessidade nem culpar quem pedala. Deve perguntar por que a sobrevivência de milhões foi convertida em oportunidade de negócio para poucos grupos que controlam as plataformas. O problema não é o trabalhador desejar autonomia; é o capital vender uma autonomia fictícia, sem controle sobre preço, jornada, demanda ou regras.
A burguesia brasileira não vive apenas no mercado
Reduzir a burguesia ao proprietário individual também impede compreender sua relação com o Estado. No Brasil, grandes interesses econômicos dependem de legislação trabalhista, política tributária, crédito, contratos públicos, infraestrutura, proteção policial da propriedade e decisões judiciais. O Estado capitalista não é uma simples marionete manejada por uma mão única, mas tampouco é um árbitro acima das classes. Como lembra Alysson Mascaro ao examinar a forma política do capitalismo, o Estado está ligado às próprias condições de reprodução das relações sociais capitalistas. Sua aparente universalidade convive com uma ordem econômica fundada na propriedade privada e na exploração do trabalho assalariado.
Isso ajuda a entender por que a palavra “reforma” adquiriu sentido tão seletivo no debate brasileiro. Reformar, para as elites econômicas, costuma significar reduzir direitos trabalhistas, flexibilizar contratos, privatizar serviços e garantir rentabilidade. Quando trabalhadores reivindicam jornada menor, salário melhor, proteção social ou tributação sobre patrimônio, a mesma imprensa que celebra a austeridade descobre o perigo da irresponsabilidade. A burguesia não exerce seu poder somente ao decidir dentro de empresas; ela disputa quais necessidades sociais serão tratadas como direitos e quais serão descartadas como custos.
O bolsonarismo soube mobilizar essa estrutura por meio de uma operação ideológica brutal. Misturou ressentimento social, moralismo, culto à violência e ódio às organizações de trabalhadores, enquanto preservava a linguagem de que o mercado deveria ser libertado. A figura do “cidadão de bem” serviu para unir, de forma imaginária, setores muito distintos sob a defesa da propriedade, da hierarquia e da punição. Le Bon observava como multidões podem ser conduzidas por imagens simples e afetos contagiosos; no espetáculo digital, essa dinâmica é acelerada por vídeos curtos, correntes e indignações industrializadas. O inimigo deixa de ser a concentração real de riqueza e vira o professor, o sindicato, o artista, o pobre que recebe política pública ou qualquer pessoa transformada em símbolo de ameaça.
Debord ajuda a compreender o complemento dessa operação. A sociedade do espetáculo não é apenas um excesso de imagens: é uma forma em que a vida social aparece mediada por representações que escondem suas relações materiais. O bilionário é mostrado como gênio; a empresa, como inovação; o aplicativo, como liberdade; a demissão, como reestruturação; a miséria, como falha individual. A imagem não é uma mentira isolada, mas uma organização do visível que impede a pergunta central: quem controla as condições de vida de quem?
Nomear a classe para recusar a culpa individual
Falar em burguesia não significa imaginar que toda pessoa proprietária tem o mesmo peso de um banco, de uma gigante do varejo ou de um grupo que controla plataformas e cadeias produtivas. Há diferenças reais entre pequenos negócios endividados e o grande capital financeiro. Mas essas diferenças não autorizam apagar a estrutura de classes. Ao contrário: exigem identificar onde se concentra o poder capaz de determinar salários, preços, acesso ao crédito, políticas públicas e condições de circulação da mercadoria.
A força do conceito está em retirar a culpa das costas de quem vive do próprio trabalho. O professor pressionado por metas, a operadora de call center monitorada a cada segundo, o caixa submetido a escalas exaustivas e o entregador comandado pelo algoritmo não fracassam por falta de mentalidade vencedora. Eles enfrentam uma organização social em que o tempo, a energia e a inteligência de muitos são convertidos em patrimônio e poder de poucos. A burguesia contemporânea prefere que essa relação permaneça sem nome, porque aquilo que parece destino individual é mais difícil de combater do que aquilo que se reconhece como dominação de classe.
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