O Brasil não deixou de fabricar porque uma força natural e irresistível teria decretado o fim da indústria. A fábrica não evaporou diante de uma suposta modernidade inevitável, como se a história econômica obedecesse ao mesmo ritmo de atualização de um celular. A perda de densidade industrial é fruto de escolhas políticas: abertura comercial sem política consistente de fortalecimento produtivo, juros que premiam a renda financeira, abandono de cadeias tecnológicas, privatizações, submissão aos interesses das grandes corporações transnacionais e uma concepção neoliberal segundo a qual ao Estado caberia apenas garantir mercados. O resultado é conhecido no cotidiano: onde poderia haver emprego técnico, produção coletiva e organização sindical, expandem-se o bico, o aplicativo, a terceirização e a informalidade.
Não se trata de cultivar saudade da fábrica como lugar idílico. A indústria brasileira sempre foi marcada por hierarquias brutais, acidentes, ritmos extenuantes, racismo, desigualdade regional e disciplina patronal. O operário da linha de montagem jamais foi automaticamente emancipado por usar uniforme e bater ponto. Mas reconhecer a violência da fábrica não obriga ninguém a celebrar o que a substituiu. Há uma diferença material entre um posto formal, inserido numa cadeia produtiva, com relativa estabilidade, qualificação acumulada e capacidade de negociação coletiva, e a condição do trabalhador que depende de uma tela para descobrir se trabalhará naquele dia.
A fábrica não era liberdade, mas concentrava força social
O trabalho industrial tinha uma característica politicamente decisiva: reunia trabalhadores em um mesmo espaço, tornava visível sua cooperação e permitia que a interrupção coletiva da produção tivesse peso social. A fábrica capitalista extraía mais-valia precisamente porque o valor era produzido por um trabalho combinado, organizado e submetido ao comando do capital. Marx não tratava essa cooperação como benevolência empresarial; ela era uma forma de controle. Ao mesmo tempo, porém, a concentração de trabalhadores produzia as condições para a solidariedade, a greve e o sindicato.
Quando uma montadora, uma metalúrgica ou uma cadeia de fornecedores encolhe, não desaparecem apenas máquinas e galpões. Perdem-se ofícios, escolas técnicas vinculadas à produção, redes de fornecedores, pesquisa aplicada e postos de trabalho nos quais a experiência podia se acumular. O país passa a importar bens de maior conteúdo tecnológico e a exportar produtos primários ou mercadorias de baixo valor agregado. A riqueza produzida aqui se vincula cada vez mais à exploração da terra, à logística e ao trabalho barato; o domínio sobre o conhecimento, as patentes, os componentes e os meios decisivos de produção permanece concentrado fora.
Essa divisão internacional do trabalho não é neutra. Ela organiza países como o Brasil para fornecer matéria-prima, mercado consumidor e mão de obra disponível, enquanto os centros do capitalismo preservam as etapas mais rentáveis das cadeias produtivas. Chamar isso de eficiência é repetir a linguagem do imperialismo econômico: cada território deve aceitar o lugar que lhe foi reservado, como se não houvesse conflito de classes, política industrial ou disputa pela técnica.
O setor de serviços absorve gente, não necessariamente produz bons empregos
Defensores do país de serviços costumam responder que economias contemporâneas são, afinal, economias de serviços. A frase é verdadeira apenas no nível mais abstrato e, por isso, serve para esconder quase tudo. Serviços podem envolver pesquisa, engenharia, saúde pública, educação, manutenção sofisticada, desenvolvimento tecnológico e infraestrutura coletiva. Mas podem também significar telemarketing com metas inalcançáveis, limpeza terceirizada, segurança sem direitos, comércio de alta rotatividade, entregas por aplicativo e jornadas fragmentadas. Não é o rótulo “serviço” que define a qualidade do emprego; são as relações sociais que o organizam.
No Brasil desindustrializado, a expansão dos serviços ocorreu em grande medida como absorção precária de uma população que precisa vender sua força de trabalho para sobreviver. O entregador de aplicativo é apresentado como empreendedor, embora não determine o valor da corrida, as regras de bloqueio, a distribuição das chamadas ou a margem da plataforma. O operador de call center atende clientes de empresas gigantescas, mas trabalha sob scripts, vigilância, metas e salários comprimidos. A professora contratada por hora, sem estabilidade e sobrecarregada por tarefas digitais, vê sua atividade ser administrada como prestação flexível de serviço. Em todos esses casos, a linguagem da autonomia serve para retirar a responsabilidade do empregador.
O país de serviços não é necessariamente um país pós-industrial; pode ser apenas um país ao qual foi negada uma industrialização soberana e que transforma sua população em reserva permanente de trabalho barato.
A plataforma digital intensifica esse processo. Ela não cria do nada a precarização, mas oferece uma forma técnica de aprofundá-la. O algoritmo distribui tarefas, mede desempenho, pune recusas e converte a velha subordinação em uma aparência de escolha individual. Heidegger advertia que a técnica moderna não é simples instrumento à disposição de quem a utiliza; ela organiza o modo pelo qual o mundo aparece como recurso disponível. Nas plataformas, o trabalhador aparece como dado de localização, tempo de entrega, taxa de aceitação e avaliação do consumidor. Sua vida social é reduzida a indicadores que podem ser classificados, comparados e descartados.
A política que chama abandono de modernização
A desindustrialização foi frequentemente embalada por uma ideologia de modernização. Fechar uma planta, importar componentes, terceirizar setores inteiros e enxugar quadros eram apresentados como sinais de competitividade. A palavra escondia uma decisão: transferir os custos da reorganização econômica para quem trabalha. Enquanto o capital financeiro ganhou centralidade, a produção foi tratada como assunto secundário, e a proteção trabalhista passou a ser descrita como entrave arcaico. Reformas que fragilizam vínculos foram vendidas como solução para o desemprego; na prática, normalizaram a insegurança como condição permanente.
A meritocracia completa a operação ideológica. Se o trabalhador que perdeu um emprego industrial passa a fazer entregas, vender comida, dirigir por aplicativo ou aceitar jornadas intermitentes, a narrativa dominante lhe diz que seu destino depende de esforço e adaptação. O problema deixa de ser a destruição de postos qualificados e passa a ser a alegada incapacidade individual de “se reinventar”. A estrutura econômica desaparece do quadro, e o desempregado se torna culpado por não converter a própria necessidade em negócio.
Debord ajuda a entender a eficácia dessa inversão. A precariedade não é mostrada como precariedade: é espetacularizada como liberdade. Vídeos publicitários exibem motoristas sorridentes, pequenos empreendedores e jovens conectados, enquanto ocultam dívida, desgaste físico, ausência de proteção social e competição entre trabalhadores. A imagem da autonomia substitui a realidade da dependência. O sujeito é chamado de parceiro justamente quando perdeu o direito de ser reconhecido como empregado.
Reindustrializar exige disputar o que produzir e para quem
Uma resposta de esquerda não pode ser a promessa vazia de recuperar qualquer indústria a qualquer custo, nem a defesa de um desenvolvimentismo que repita devastação ambiental, autoritarismo empresarial e concentração de renda. Reindustrializar deve significar disputar soberania produtiva e qualidade do trabalho. Significa vincular crédito, compras públicas e incentivos a metas de emprego formal, respeito à organização sindical, transferência tecnológica, redução de impactos ambientais e produção de bens socialmente necessários. Saúde, transporte coletivo, moradia, energia, equipamentos educacionais e infraestrutura de cuidado são campos nos quais uma política produtiva poderia atender necessidades populares em vez de apenas garantir rentabilidade privada.
Isso demanda Estado, planejamento e conflito com interesses estabelecidos. Como lembra Alysson Mascaro ao analisar a forma política capitalista, o Estado não paira acima das classes como árbitro imparcial. Ele estrutura e garante a reprodução das relações capitalistas. Por isso, não basta pedir ao poder público que “incentive a indústria”; é preciso disputar para qual fração do capital, com quais contrapartidas e sob qual controle social esse incentivo será dirigido. Subsídio sem exigência pública pode apenas financiar lucro privado e automação demissória.
O Brasil que deixou de fabricar não foi condenado pelo destino. Foi organizado para depender, exportar pouco valor, importar tecnologia e administrar uma multidão disponível para ocupações frágeis. Romper esse arranjo requer recusar a mentira de que o entregador substituiu o metalúrgico porque o futuro chegou. O que chegou foi uma política de classe, adornada com aplicativos e palavras em inglês, que transformou a regressão produtiva em modelo de sociedade.
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