O que significa fascismo não é uma curiosidade de dicionário nem um exagero retórico usado para dramatizar conflitos políticos. A pergunta importa porque o fascismo não surge como acidente moral, mas como resposta histórica das classes dominantes quando a ordem capitalista entra em crise e já não consegue garantir consenso apenas com promessa de progresso, consumo e ascensão individual. Nessa hora, a política abandona a máscara liberal, e a violência passa a ser apresentada como virtude: contra o pobre, contra o dissidente, contra o professor, contra o movimento social, contra qualquer forma de vida que lembre igualdade.

Chamar isso pelo nome certo é uma necessidade teórica e prática. O fascismo não é apenas autoritarismo, nem se resume a um governante agressivo, a eleitores fanatizados ou a símbolos militares. Trata-se de uma forma de mobilização reacionária de massas, organizada em torno do medo, do ressentimento e do culto à força, que busca esmagar a política emancipatória e recompor a dominação de classe. Seu discurso fala em nação, ordem, família, Deus, mérito e segurança; sua função real é destruir solidariedades, naturalizar hierarquias e transformar frustração social em ódio contra alvos convenientes.

No Brasil, isso não apareceu como cópia mecânica da Europa do século XX. Apareceu mediado pela nossa formação social, pela herança escravocrata, pela desigualdade brutal, pela militarização da vida cotidiana e pelo poder das plataformas digitais na fabricação de consenso e perseguição. O bolsonarismo foi a expressão mais acabada desse processo recente: não um desvio folclórico, mas uma tecnologia política de brutalização da sociedade.

O que significa fascismo na crise do capitalismo

Se Marx mostrou que o capitalismo vive de contradições insolúveis entre produção social e apropriação privada, é preciso reconhecer que essas contradições não geram automaticamente consciência revolucionária. Em muitos momentos, geram desorientação, desespero e competição feroz entre os próprios explorados. O trabalhador precarizado, o pequeno comerciante endividado, o motorista de aplicativo esmagado por jornadas intermináveis, o atendente de call center medido por produtividade até no tempo de respirar: todos experimentam a violência da exploração. Mas essa experiência, sem organização política, pode ser capturada pela ideologia dominante e convertida em raiva contra inimigos fabricados.

É nesse terreno que o fascismo prospera. Ele oferece uma explicação falsa para sofrimentos reais. Em vez de nomear a exploração capitalista, aponta o bode expiatório: o imigrante, o nordestino, o negro, a mulher feminista, o servidor público, o professor, o comunista imaginário, o pobre que recebe benefício, o artista, a universidade. O sistema que produz insegurança aparece como solução para a insegurança que ele mesmo cria. A dominação, então, já não depende apenas da submissão econômica, mas da adesão afetiva à violência.

Gustave Le Bon, apesar de seus limites conservadores, ajuda a entender um elemento decisivo: a massa mobilizada não age principalmente por reflexão, mas por contágio, imagem, repetição e excitação emocional. O fascismo compreendeu isso cedo. No presente, esse mecanismo foi industrializado por redes sociais, grupos de mensagem, cortes de vídeo e campanhas permanentes de agitação. A multidão já não precisa ocupar uma praça para ser conduzida; ela pode ser sincronizada por telas, impulsos e algoritmos.

O fascismo como produção de inimigos e disciplina social

O fascismo precisa de um inimigo interno porque sua promessa de unidade nacional é uma fraude. A sociedade capitalista é atravessada por antagonismos de classe; como não pode resolvê-los, o fascismo os desloca. Em vez de admitir que a riqueza de poucos depende da miséria de muitos, ele inventa uma comunidade abstrata supostamente ameaçada por elementos impuros, degenerados ou antipatrióticos. A violência deixa de parecer violência e passa a parecer limpeza.

No cotidiano brasileiro, isso se traduz em cenas conhecidas. O entregador é chamado de empreendedor, mas tratado como descartável. A professora é acusada de doutrinação quando ensina pensamento crítico. O morador da periferia é permanentemente suspeito. O trabalhador informal é exaltado por sua garra, enquanto lhe negam direitos elementares. O policial violento é celebrado como restaurador da ordem. O pastor midiático transforma humilhação social em teologia da obediência. O empresário que sonega e explora aparece como herói nacional. O fascismo organiza tudo isso numa gramática comum: a força vale mais que a justiça, a hierarquia vale mais que a igualdade, a obediência vale mais que a liberdade real.

Guy Debord é útil aqui porque a sociedade do espetáculo não apenas distrai: ela reorganiza a própria percepção do real. O fascismo espetacularizado transforma atrocidade em performance, mentira em identidade e crueldade em autenticidade. A fala obscena do líder não é defeito de comunicação; é prova de pertencimento. Quanto mais brutal a declaração, mais ela confirma ao seguidor que ali existe alguém disposto a dizer o que o liberal envergonhado esconderia. O espetáculo fascista não mascara a barbárie: ele a torna desejável.

Bolsonarismo e a forma brasileira do fascismo

Nem todo autoritarismo é fascista, e nem toda direita é fascista. Mas o bolsonarismo condensou traços centrais do fascismo em chave brasileira: culto ao chefe, mobilização permanente contra inimigos internos, nostalgia de uma ordem mítica, legitimação da violência estatal e paraestatal, ataque às instituições quando elas limitam o poder do líder e uso industrial da mentira como arma política. Não se tratava apenas de governar mal, mas de corroer deliberadamente os vínculos sociais que tornam possível uma vida democrática mínima.

A pandemia foi reveladora. Enquanto trabalhadores de entrega, enfermeiros, professores e caixas de supermercado sustentavam a vida coletiva em condições degradadas, o discurso bolsonarista convertia a morte em dano colateral aceitável. A mensagem era transparente: alguns corpos são sacrificáveis para que a máquina econômica continue girando. O fascismo não precisa sempre de campos de concentração para mostrar sua lógica; às vezes basta naturalizar que os de baixo morram primeiro.

Nesse sentido, a leitura de Alysson Mascaro sobre Estado e forma política ajuda a evitar ingenuidades. O Estado capitalista não é árbitro neutro pairando acima da luta social. Em momentos de crise, suas mediações podem se endurecer e assumir feições abertamente repressivas para preservar a reprodução da ordem. O fascismo é uma dessas possibilidades extremas: não a negação do capitalismo, mas sua defesa violenta quando a hegemonia entra em colapso.

Técnica, plataformas e a administração da barbárie

Heidegger, lido criticamente e sem absolver seu compromisso reacionário, permite pensar a técnica não como simples conjunto de ferramentas, mas como modo de enquadramento do mundo. No capitalismo de plataforma, esse enquadramento transforma sujeitos em perfis, relações em dados e conflito político em fluxo administrável. A extrema direita soube explorar isso com precisão. O ressentimento é capturado, segmentado, testado e devolvido em mensagens sob medida. A mentira deixa de ser erro; vira produto otimizado.

O trabalhador uberizado conhece essa lógica na pele. O aplicativo mede, ranqueia, pune, incentiva e isola. A concorrência permanente corrói laços de classe e produz subjetividades defensivas, sempre à beira do colapso e sempre convocadas a culpar a si mesmas pelo fracasso. A ideologia meritocrática faz o resto: se você não venceu, faltou esforço. Quando essa subjetividade ferida encontra um discurso que oferece orgulho, inimigo e permissão para odiar, o fascismo encontra terreno fértil.

Por isso a luta antifascista não pode ser reduzida a pedagogia moral contra fake news ou a defesa abstrata da civilidade. O problema não é apenas a crença falsa, mas a forma social que necessita dessa crença. Enquanto a vida for organizada pela precarização, pela competição total e pela sensação difusa de descarte, a extrema direita continuará encontrando matéria-prima para sua política de guerra interna.

Entender o que significa fascismo para combatê-lo de fato

Levar a sério a pergunta sobre o que significa fascismo exige abandonar tanto a banalização quanto o academicismo inofensivo. Banaliza quem usa a palavra para qualquer grosseria de internet. Neutraliza quem a transforma em objeto histórico morto, como se estivesse encerrado em livros sobre a Europa entre guerras. O fascismo é uma possibilidade sempre reaberta pelo capitalismo em crise, sobretudo quando a esquerda perde capacidade de organizar o sofrimento social em horizonte coletivo.

Combatê-lo implica reconstruir laços de solidariedade material e política entre os explorados. Isso passa por sindicato, organização popular, disputa ideológica, memória histórica, defesa radical dos direitos sociais e enfrentamento sem conciliação à extrema direita. Não basta pedir moderação a quem lucra com a barbárie. É preciso atacar as condições que a reproduzem: a miséria administrada, a humilhação cotidiana no trabalho, a mercantilização de todas as esferas da vida, a máquina digital de isolamento e fúria.

Fascismo, no fim das contas, é o nome de uma política que transforma a crise do capital em guerra contra os de baixo. Quando a sociedade passa a admirar a brutalidade, suspeitar da igualdade e desejar um chefe que esmague inimigos imaginários, não estamos diante de um simples excesso verbal. Estamos diante da forma organizada da regressão. E ela só recua quando os de baixo deixam de se reconhecer como multidão manipulável e voltam a se reconhecer como classe capaz de fazer história.