Defina capitalismo: não basta responder que é um sistema de mercado, de empresas privadas ou de liberdade para comprar e vender. Essas descrições, repetidas em escolas, telejornais e discursos empresariais, mostram a superfície jurídica e comercial do sistema, mas ocultam seu núcleo. Capitalismo é uma forma histórica de organizar a vida social em que os meios necessários para produzir riqueza — terra, fábricas, máquinas, redes logísticas, dados, plataformas e crédito — pertencem a uma minoria, enquanto a maioria precisa vender sua força de trabalho para sobreviver. A promessa de liberdade existe, mas é uma liberdade desigual: o proprietário pode escolher investir ou não; quem não possui meios de vida precisa aceitar as condições oferecidas pelo mercado.

Não se trata de dizer que toda pessoa assalariada é passiva ou incapaz de escolha. Trata-se de reconhecer que escolhas feitas sob a ameaça do desemprego, da fome, do endividamento e do despejo não têm o mesmo peso das escolhas de quem controla patrimônio e meios de produção. O trabalhador pode trocar de emprego; frequentemente não pode deixar de trabalhar para um patrão, uma empresa terceirizada ou um aplicativo. Essa dependência é a condição material que sustenta a aparência de igualdade nos contratos. Diante da lei, entregador e plataforma parecem celebrar um acordo entre partes livres. Na rua, um controla o algoritmo, a remuneração, os bloqueios e os dados; o outro arca com a bicicleta, a moto, o combustível, o risco de acidente e o tempo perdido.

Defina capitalismo pela relação entre capital e trabalho

Marx identificou que a questão decisiva não está na simples existência de comércio, antiga como muitas sociedades humanas. O específico do capitalismo é a transformação da força de trabalho em mercadoria. O trabalhador vende horas, capacidade física, conhecimento, atenção e disposição psíquica em troca de salário. Mas, durante a jornada, produz um valor superior ao que recebe. Essa diferença, apropriada pelo dono dos meios de produção, é a mais-valia: a fonte do lucro. Não é um roubo praticado à margem das regras; é o resultado normal de relações protegidas por contrato, propriedade e Estado.

Uma fábrica não lucra porque seu proprietário acorda cedo, assim como um banco não multiplica dinheiro por virtude moral. O lucro depende de trabalho realizado, direta ou indiretamente, e de uma estrutura social que permite sua apropriação privada. Mesmo nos setores que se apresentam como imateriais, a lógica permanece. O programador produz sob prazos intensos; a atendente de call center administra a irritação alheia com scripts cronometrados; o professor acumula turmas, correções e relatórios; o entregador converte seu corpo em logística urbana. A tecnologia muda os instrumentos, mas não elimina a divisão entre quem controla as condições de trabalho e quem precisa se submeter a elas.

É por isso que chamar capitalismo apenas de “economia de mercado” é uma operação ideológica. Mercados podem existir em diversas formações sociais. O capitalismo, porém, subordina a produção inteira ao imperativo da acumulação. Não se produz prioritariamente porque algo é útil, necessário ou belo; produz-se quando há expectativa de realização de lucro. Casas vazias coexistem com famílias sem moradia. Alimentos são descartados enquanto cresce a insegurança alimentar. Hospitais, escolas e transportes sofrem com cortes, mas fundos e empresas encontram recursos para expandir negócios. A necessidade humana entra em cena como demanda solvente: só vale plenamente quem pode pagar.

A liberdade empresarial depende da insegurança de quem trabalha

A ideologia capitalista costuma responder a essa crítica com a figura do empreendedor. Cada trabalhador seria uma empresa de si mesmo, responsável por transformar esforço em sucesso. O desempregado teria falhado em se qualificar; o entregador mal remunerado deveria “correr atrás”; a professora exausta precisaria gerir melhor seu tempo. A meritocracia desloca para o indivíduo o peso de problemas produzidos socialmente. Ela converte desigualdades de classe, raça, gênero e território em supostas diferenças de talento, disciplina ou ambição.

O discurso é especialmente cruel no trabalho por plataformas. A empresa afirma não ter empregados, apenas parceiros autônomos. Mas fixa preços, distribui chamadas, mede produtividade, estabelece rankings, premia comportamentos e pune recusas. O algoritmo funciona como chefia sem rosto, muitas vezes impossível de contestar. A autonomia anunciada é a liberdade de trabalhar doze horas para tentar alcançar uma renda mínima, sem férias, décimo terceiro, proteção previdenciária efetiva ou garantia contra desligamento arbitrário. A uberização não representa uma superação do capitalismo industrial; é uma intensificação de sua lógica, agora apresentada como inovação.

Heidegger ajudou a perceber que a técnica não é apenas um conjunto neutro de ferramentas. Ela organiza um modo de revelar e administrar o mundo. Sob o capitalismo, essa organização tende a converter pessoas, territórios e tempos em recursos disponíveis para extração de valor. O motorista aparece como unidade de mobilidade; o consumidor, como dado comportamental; o professor, como indicador de desempenho; a floresta, como estoque econômico. Não é o celular ou a inteligência artificial, por si, que produz essa redução. É o poder social que decide para que essas tecnologias serão usadas e quem se apropriará de seus resultados.

O espetáculo dá ao capitalismo uma aparência inevitável

Na sociedade do espetáculo descrita por Guy Debord, as relações entre pessoas são mediadas por imagens, mercadorias e representações que parecem ter vida própria. O capitalismo não vende somente produtos; vende estilos de vida, identidades e fantasias de ascensão. A publicidade mostra o consumo como prova de liberdade, enquanto o crédito transforma o futuro do trabalhador em garantia de compras presentes. Nas redes sociais, a exposição permanente da felicidade alheia alimenta a sensação de insuficiência individual. Compra-se não apenas um tênis ou um telefone, mas a promessa de pertencimento a um mundo do qual a maioria foi materialmente excluída.

Essa maquinaria também produz consentimento político. Quando a exploração é narrada como oportunidade e a desigualdade como resultado natural de esforço desigual, qualquer reivindicação coletiva parece inveja, atraso ou ameaça à liberdade. O bolsonarismo explorou essa disposição ao combinar culto ao empreendedor, ódio aos direitos trabalhistas, ressentimento social e autoritarismo. Sua defesa da “liberdade” nunca significou liberdade para trabalhadores decidirem sobre a produção ou sobre sua própria jornada. Significou liberdade para empresários explorarem com menos limites, para policiais exercerem violência e para preconceitos se apresentarem como opinião corajosa.

O fascismo não é um acidente externo ao capitalismo, embora não seja sua consequência mecânica e inevitável. Ele pode emergir quando crises econômicas e sociais desorganizam expectativas, enquanto setores dominantes preferem mobilizar medo, nacionalismo e violência a aceitar transformações que atinjam a propriedade e o poder. Le Bon observou a força afetiva das multidões; a extrema direita contemporânea atualiza essa dinâmica por redes, correntes e vídeos curtos, fabricando pânicos morais e inimigos internos. A multidão digital não nasce fora das condições materiais: ela é alimentada pela precariedade, pela competição e pela frustração que o próprio capitalismo produz.

Capitalismo não é destino nem natureza humana

Definir capitalismo com rigor importa porque o sistema se protege pela naturalização. Diz-se que sempre haverá ricos e pobres, que a competição é inerente ao ser humano, que não existe alternativa à propriedade privada dos grandes meios de produção. Mas capitalismo tem história. Ele foi construído por expropriações, colonização, escravidão, cercamento de terras, legislação favorável aos proprietários e violência estatal. No Brasil, sua formação é inseparável da escravidão e de suas heranças: concentração fundiária, racismo estrutural, empregos degradados e criminalização constante dos pobres.

Também por isso não se supera o capitalismo apenas por escolhas individuais de consumo ético ou por uma tecnologia mais simpática. Cooperativas, sindicatos, movimentos de moradia e lutas por serviços públicos podem abrir fissuras importantes, mas a questão central é o poder sobre a produção e a riqueza social. Quem decide o que será produzido, em que condições, para atender a quais necessidades e com quais recursos? Enquanto essa decisão estiver concentrada em proprietários, acionistas e conglomerados financeiros, a vida coletiva continuará subordinada ao lucro.

Capitalismo é, em termos diretos, a ordem que apresenta a exploração como emprego, a insegurança como empreendedorismo, a submissão algorítmica como autonomia e a riqueza de poucos como mérito. Nomeá-lo assim não resolve automaticamente seus conflitos, mas impede que sua linguagem os esconda. A crítica começa quando aquilo que parece natural volta a ser entendido como obra humana — e, por isso, como algo que pode ser transformado.