A definição de imperialismo não pode ser reduzida à imagem militar de uma potência que invade outro território, embora guerras, ocupações e golpes sigam sendo instrumentos decisivos da dominação. Imperialismo é, antes de tudo, uma relação estrutural do capitalismo em sua fase monopolista: a organização mundial do poder econômico, político e militar para garantir que capitais concentrados continuem acumulando riqueza pela exploração do trabalho, pela apropriação de recursos e pela subordinação de países inteiros. Quando uma empresa transnacional controla uma cadeia produtiva, quando fundos financeiros determinam políticas econômicas ou quando uma potência impõe sanções para proteger seus interesses, o imperialismo está operando, mesmo sem tropas nas ruas.

Essa definição importa porque o uso corrente do termo costuma oscilar entre dois erros. O primeiro é tratá-lo como insulto abstrato, aplicável a qualquer país forte de que se discorde. O segundo é fingir que ele pertence ao passado colonial, como se a independência formal das nações tivesse encerrado a hierarquia mundial. Nenhum dos dois explica por que países formalmente soberanos permanecem dependentes de crédito externo, tecnologia patenteada, importação de máquinas, exportação de commodities e decisões tomadas por grandes corporações e Estados estrangeiros. A bandeira nacional pode tremular sobre o palácio do governo, mas isso não significa que o povo controle as condições materiais da própria existência.

A definição de imperialismo na tradição marxista

Marx demonstrou que o capitalismo não é um sistema voltado a satisfazer necessidades humanas, mas à valorização do capital. A produção se organiza para transformar dinheiro em mais dinheiro, por meio da exploração da força de trabalho. Essa dinâmica não conhece fronteiras morais nem nacionais: onde houver trabalhadores a explorar, mercados a conquistar, matérias-primas a baratear e patrimônio público a privatizar, haverá capital buscando se expandir.

Foi Lenin quem sistematizou a definição de imperialismo como fase do capitalismo marcada pela concentração da produção e do capital em monopólios, pela fusão entre capital bancário e industrial, pela predominância da exportação de capitais sobre a simples exportação de mercadorias e pela disputa do mundo entre grandes potências e grupos econômicos. Não se trata de uma lista escolar de características isoladas. O ponto central é que a concorrência capitalista, ao concentrar riqueza, produz empresas e bancos grandes demais para atuar apenas em seus mercados de origem. Eles precisam projetar sua força para fora, assegurar territórios de investimento e influenciar Estados.

O imperialismo, nesse sentido, não é um desvio ocasional de um capitalismo que poderia ser pacífico. É uma consequência de sua lógica. Quando mercados são dominados, lucros são comprimidos ou oportunidades de investimento diminuem em determinado espaço, o capital procura novas fronteiras. Essas fronteiras podem ser minas de lítio, terras indígenas, redes de dados, sistemas de pagamento, hospitais públicos em processo de privatização ou trabalhadores disponíveis para jornadas exaustivas por salários baixos.

O imperialismo não começa quando o soldado desembarca; ele já está em curso quando a riqueza social de um país é organizada para remunerar capitais que não respondem à sua população.

Dependência não é falta de esforço nacional

No Brasil, a ideologia dominante explica a desigualdade internacional por uma fábula de mérito entre países. Nações ricas seriam ricas porque inovaram, pouparam e trabalharam melhor; nações periféricas seriam pobres porque seus povos seriam atrasados, corruptos ou avessos ao empreendedorismo. Essa narrativa é tão conveniente quanto a meritocracia usada para culpar o trabalhador desempregado por sua própria precariedade. Ela apaga séculos de colonização, escravidão, saque de recursos, imposição de dívidas e especialização produtiva subordinada.

A inserção brasileira no capitalismo mundial foi historicamente organizada em torno da exportação de bens primários e da importação de tecnologias e produtos de maior valor agregado. Isso não significa que o país não tenha indústria, ciência ou capacidade técnica. Significa que seu desenvolvimento é atravessado por interesses de classes locais associadas ao capital internacional. O agronegócio que celebra recordes de exportação, por exemplo, não equivale automaticamente a soberania popular: pode conviver com devastação ambiental, concentração fundiária, expulsão de comunidades e alimentos caros para quem trabalha nas cidades.

A dependência tampouco é apenas comercial. Ela aparece na pressão pela austeridade fiscal para assegurar o pagamento de credores, nas patentes farmacêuticas, na compra de equipamentos estratégicos, na captura de dados por empresas sediadas no Norte global e na vulnerabilidade diante das oscilações financeiras. O Estado brasileiro é frequentemente convocado a cortar direitos sociais em nome da confiança do mercado, como se a confiança de rentistas fosse mais importante do que a vida de quem depende de SUS, escola pública, transporte e salário.

Plataformas digitais e o imperialismo dos dados

O imperialismo contemporâneo não abandonou petróleo, minérios, rotas marítimas e bases militares. Mas acrescentou uma camada decisiva de controle: a infraestrutura digital. Plataformas de entrega, transporte, comércio eletrônico, publicidade e redes sociais extraem dados da população, definem regras de circulação econômica e transformam comportamentos em mercadoria. Não é preciso que uma empresa possua formalmente todo o território para comandar parcelas relevantes de sua vida econômica. Basta controlar a plataforma pela qual trabalhadores encontram serviço, pequenos negócios vendem produtos e cidadãos acessam informação.

O entregador de aplicativo em São Paulo é um retrato concreto dessa relação. Ele arca com bicicleta ou moto, combustível, manutenção, riscos de acidente e horas de espera. A plataforma, por sua vez, concentra dados, estabelece unilateralmente tarifas, distribui corridas por critérios opacos e pode bloquear o trabalhador sem negociação efetiva. O discurso empreendedor oculta uma forma radical de subordinação. A tecnologia aparece como inovação neutra, mas sua propriedade e seu desenho obedecem à necessidade de extrair valor e disciplinar corpos.

Heidegger ajuda a perceber que a técnica não é simplesmente um conjunto de ferramentas inocentes. Ela organiza um modo de revelar e dispor o mundo. Sob o capitalismo de plataforma, pessoas passam a ser tratadas como estoque disponível: motoristas calculados por demanda, professores submetidos a metas de desempenho, operadores de call center medidos por segundos, consumidores segmentados por perfil. A questão, porém, não é uma máquina que teria se tornado maligna por conta própria. O problema é quem possui a infraestrutura, quem decide seus fins e quem recolhe os frutos do trabalho social nela depositado.

Estado, guerra e a falsa neutralidade das potências

O Estado capitalista não está fora desse processo. Como aponta Alysson Mascaro ao tratar da forma política moderna, o Estado não é uma instância neutra pairando acima das classes; ele participa das condições de reprodução da sociabilidade capitalista. No plano internacional, Estados poderosos protegem suas empresas, suas moedas, suas cadeias de suprimento e sua capacidade militar. Tratados, empréstimos, sanções, operações de inteligência e intervenções armadas são partes distintas de uma mesma disputa pela organização do mundo conforme interesses dominantes.

Isso não exige romantizar qualquer governo que se apresente como adversário dos Estados Unidos ou da Europa. A crítica ao imperialismo não é uma licença para defender autoritarismos locais, negar crimes de guerra ou transformar povos em peças de um tabuleiro geopolítico. O princípio deve ser outro: nenhum povo deve ser submetido à violência imperial, e nenhuma elite nacional deve usar a soberania como máscara para explorar sua própria população. Há opressão externa, mas há também burguesias internas que lucram ativamente com ela.

No Brasil, o bolsonarismo foi particularmente servil a essa estrutura. Sua retórica nacionalista conviveu com a entrega de ativos estratégicos, a submissão ideológica a interesses estrangeiros e o desprezo pela capacidade científica nacional. O fascismo não precisa defender a autonomia do país; ele pode mobilizar símbolos patrióticos para fortalecer setores empresariais, atacar direitos trabalhistas e produzir inimigos internos. A bandeira, convertida em espetáculo, serve para esconder a venda do patrimônio público.

Nomear o imperialismo é recusar a culpa dos explorados

Debord descreveu uma sociedade em que a relação social mediada por imagens transforma a realidade em representação administrada. No caso do imperialismo, isso aparece quando a ordem mundial é exibida como resultado natural de eficiência, inovação e livre escolha. Vemos anúncios de aplicativos, rankings empresariais e promessas de modernização; não vemos com a mesma nitidez a transferência de riqueza, a extração de dados e a expropriação que sustentam essa aparência. A sociedade do espetáculo não elimina a dominação: ela a torna desejável, inevitável ou invisível.

Definir imperialismo, então, é retirar a névoa ideológica que culpa os povos subordinados pela posição que ocupam. Não basta celebrar uma independência abstrata enquanto o trabalho é precarizado, os recursos são apropriados e decisões estratégicas seguem condicionadas por capitais externos e por suas alianças internas. A luta contra o imperialismo não se separa da luta contra o capitalismo brasileiro, contra o racismo estrutural que organiza o trabalho mais desvalorizado e contra a exploração que atravessa a vida cotidiana.

Um país não se torna livre apenas porque elege seus governantes ou protege suas fronteiras. Liberdade real exige que a maioria trabalhadora tenha poder sobre a riqueza que produz, sobre a técnica que utiliza e sobre as decisões que moldam seu futuro. Sem isso, a soberania será apenas uma palavra solene pronunciada sobre uma economia ainda governada de fora e de cima.