Datificação não é apenas o hábito contemporâneo de registrar tudo em números, gráficos e métricas. É o processo pelo qual experiências, relações, deslocamentos, afetos e gestos de trabalho são convertidos em dados legíveis por sistemas técnicos e apropriáveis pelo capital. O que se vende como inovação neutra é, na prática, uma reorganização da exploração: a vida passa a valer menos pelo que é e mais pelo que pode ser capturado, classificado, previsto e monetizado. No Brasil, isso aparece no aplicativo que mede o entregador por tempo, no professor avaliado por desempenho padronizado, no operador de call center cronometrado até na pausa para respirar, no consumidor seguido por plataformas que sabem o que ele deseja antes mesmo de ele formular o desejo.
O discurso empresarial apresenta esse processo como sinônimo de inteligência, modernização e eficiência. Mas a técnica, quando subordinada à forma social capitalista, não serve prioritariamente à emancipação humana. Heidegger percebeu que a técnica moderna não é apenas um conjunto de ferramentas; ela enquadra o mundo como reserva disponível. Sob o capitalismo digital, esse enquadramento se radicaliza: o trabalhador, o aluno, o eleitor e o consumidor aparecem como conjuntos de dados a serem organizados para fins de produtividade, vigilância e lucro. A datificação não mede uma realidade intacta; ela reconfigura a realidade para que tudo se torne mensurável, comparável e governável.
Datificação como forma de extrair valor da vida inteira
Marx mostrou que o capitalismo depende de transformar capacidades humanas em mercadoria. O que as plataformas fizeram foi ampliar esse movimento para zonas antes menos formalizadas da existência. Não se trata só da força de trabalho vendida durante a jornada. O trajeto pela cidade, o padrão de consumo, a frequência de cliques, a permanência diante da tela, o histórico de localização e até a hesitação diante de uma compra passam a compor um imenso campo de extração. A datificação, nesse sentido, é uma etapa da mercantilização da própria experiência.
O entregador de aplicativo não é explorado apenas porque recebe pouco e arca com os custos da bicicleta, da moto, do combustível, da manutenção e do risco. Ele também é explorado porque seu trabalho é decomposto em informação. Cada corrida produz dados sobre velocidade, rota, aceitação, recusa, tempo de espera, área de circulação e padrão de disponibilidade. Esse material alimenta o aperfeiçoamento do comando algorítmico da plataforma. O trabalhador produz mercadoria e, ao mesmo tempo, produz conhecimento operacional para a empresa controlar melhor o conjunto dos trabalhadores. Sua atividade gera valor duas vezes: no serviço prestado e no dado capturado.
Algo semelhante ocorre em escritórios, escolas privadas, hospitais e centrais de atendimento. O gerente já não precisa gritar quando o sistema classifica, ranqueia e pune silenciosamente. O professor recebe metas pedagógicas traduzidas em planilhas; o enfermeiro é comprimido por indicadores de desempenho; o atendente de telemarketing aprende que até sua cordialidade precisa caber no tempo médio estipulado pelo software. A gestão por dados aparece como objetiva, mas sua objetividade é a forma contemporânea da dominação. O número não elimina a arbitrariedade do poder; apenas a mascara.
A falsa neutralidade dos números e a ideologia da eficiência
Um dos efeitos ideológicos mais fortes da datificação está em fazer parecer natural aquilo que é socialmente construído. Quando um aplicativo define quem recebe mais chamadas, quando uma escola premia professores por metas ou quando uma empresa demite com base em indicadores de produtividade, a decisão surge revestida de impessoalidade. Foi o sistema, foi o algoritmo, foi a métrica. A exploração ganha aparência técnica. É justamente aí que a ideologia funciona com mais eficácia: não como mentira grosseira, mas como forma de ocultar as relações de poder que organizam a produção dos próprios dados.
Alysson Mascaro insiste, em sua crítica das formas sociais, que Estado e direito não pairam acima da sociedade, mas operam no interior das determinações do capitalismo. O mesmo vale para a governança por dados. Não estamos diante de uma racionalidade universal a serviço do bem comum, e sim de uma forma de administração adequada à sociabilidade mercantil. A métrica que decide, o ranking que classifica, a plataforma que distribui oportunidades e o sistema que atribui risco não expressam uma razão desinteressada. Expressam necessidades de valorização do capital, disciplina do trabalho e gestão de populações.
No Brasil, onde a desigualdade é estrutural, a promessa de neutralidade técnica é ainda mais perversa. O CEP pesa, o bairro pesa, o tipo de aparelho celular pesa, o histórico de consumo pesa, a forma de falar pesa. A datificação recolhe marcas de uma sociedade racializada e classista e as devolve como se fossem simples correlações. O preconceito reaparece em linguagem matemática. O que antes se dizia por discriminação aberta agora se operacionaliza por perfil, score, prioridade, risco e aderência. O número não supera a violência social; ele a automatiza.
Sociedade do espetáculo, vigilância e autoengano
Debord descreveu uma sociedade em que a mediação das imagens afasta os sujeitos de sua própria experiência. A datificação aprofunda esse movimento ao converter a existência em fluxo contínuo de sinais quantificáveis. Já não basta aparecer; é preciso performar de modo legível para as plataformas. O valor social de uma fala, de um corpo, de uma opinião e de uma rotina passa a depender de sua capacidade de circular como dado. A subjetividade se reorganiza para ser capturada. O sujeito aprende a se narrar em métricas, engajamento, alcance, produtividade, avaliação e reputação.
Isso produz uma forma peculiar de autoengano. O trabalhador acredita que está ganhando autonomia porque acompanha seu próprio desempenho em tempo real. O motorista pensa que é empreendedor porque o aplicativo lhe oferece gráficos e metas personalizadas. O usuário imagina que controla sua presença digital porque administra curtidas, visualizações e preferências. Na realidade, ele internaliza critérios externos de valorização e vigia a si mesmo segundo padrões definidos por plataformas e empresas. A dominação se torna mais eficiente quando o dominado participa de sua própria mensuração.
Le Bon, ao tratar da psicologia das multidões, chamou atenção para dinâmicas de contágio, sugestão e simplificação do pensamento coletivo. As redes digitais, organizadas por sistemas de recomendação e captura de atenção, intensificam essas disposições em escala industrial. A datificação da conduta política permite identificar medos, ressentimentos e impulsos de adesão, transformando-os em material para propaganda segmentada, guerra cultural e mobilização reacionária. O bolsonarismo soube operar nesse terreno: não como fenômeno puramente espontâneo, mas como uso político de plataformas capazes de amplificar afetos regressivos e recompensar a brutalidade com visibilidade.
O que a datificação faz com o trabalho brasileiro
No chão social brasileiro, a datificação não chega como luxo futurista, mas como administração da escassez. O trabalhador precarizado não encontra um sistema que lhe oferece mais liberdade; encontra uma máquina que distribui oportunidades de sobrevivência segundo critérios opacos. O entregador não sabe por que recebeu menos corridas. O motorista não entende por que foi bloqueado. O vendedor é pressionado por metas que mudam sem explicação. O professor adoece sob cobrança permanente de resultados formalizados. O dado organiza a incerteza como método de comando.
Essa opacidade não é defeito secundário. É parte da própria relação de poder. Se o trabalhador conhecesse integralmente os critérios, poderia contestá-los coletivamente. A caixa-preta algorítmica fragmenta a percepção da exploração. Cada um imagina que fracassou por insuficiência individual, quando o problema está na estrutura. A meritocracia encontra na datificação seu instrumento ideal: tudo pode ser comparado, ranqueado e moralizado. Quem sobe no ranking parece merecer; quem cai parece culpado. O conflito entre capital e trabalho é recodificado como diferença de performance.
Há ainda um efeito temporal decisivo. A vida sob plataformas e métricas dissolve a fronteira entre tempo de trabalho e tempo de disponibilidade. O celular ligado, a resposta imediata, a atenção contínua, a atualização constante e o monitoramento permanente fazem com que o sujeito permaneça funcional ao sistema mesmo fora do expediente formal. A datificação não apenas mede o trabalho; ela expande a forma trabalho sobre a existência inteira. A alienação deixa de se limitar ao posto de trabalho e invade a circulação, o descanso, o consumo e a sociabilidade.
Contra a redução do humano a dado
Criticar a datificação não significa defender obscurantismo nem rejeitar toda mediação técnica. Significa recusar a submissão da técnica à lógica da acumulação e do controle social. Dados podem servir ao planejamento público, à saúde, à pesquisa, à mobilidade e à ampliação de direitos. Mas isso exige romper com a forma privada e monopolista de sua apropriação, com a opacidade dos sistemas e com a naturalização da vigilância. Enquanto plataformas e corporações definirem o que deve ser medido, para quê e contra quem, a promessa de inteligência continuará sendo o nome elegante de uma nova servidão.
O ponto decisivo é político. Não basta pedir transparência a empresas cuja rentabilidade depende precisamente da assimetria de informação e do comando invisível. É preciso recolocar a técnica sob disputa social e submeter a infraestrutura digital a critérios coletivos, democráticos e orientados pelas necessidades humanas, não pela valorização do capital. A datificação é um problema central porque revela a ambição mais profunda do capitalismo contemporâneo: fazer da própria vida um estoque de informação explorável. Resistir a isso é defender que o humano não pode ser reduzido ao que a máquina consegue contar.
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