Chamar a circulação de fake news de “falta de informação” é confortável para quem lucra com ela. A fórmula sugere um acidente pedagógico: haveria pessoas mal informadas, bastando oferecer-lhes uma checagem, uma cartilha ou uma fonte confiável para que o problema desaparecesse. Mas a desinformação contemporânea não é, em primeiro lugar, uma ausência. É uma produção. Há quem financie redes de propaganda, quem recorte vídeos, fabrique montagens, administre grupos, compre impulsionamento, monetize canais e converta ansiedade social em fidelidade política. Há, sobretudo, plataformas cuja arquitetura recompensa a circulação acelerada do conteúdo que provoca reação, não daquele que corresponde aos fatos.
A mentira digital não se sustenta apesar do capitalismo de plataformas. Ela se sustenta por meio dele. O boato que acusa sem prova, o vídeo que promete revelar uma conspiração, a mensagem que transforma um adversário em inimigo absoluto e a notícia falsificada que desperta pânico possuem uma vantagem material: prendem atenção. E atenção, nas redes comerciais, é mercadoria. Ela é medida, organizada, vendida a anunciantes e empregada para aperfeiçoar a própria máquina de retenção. A indignação não é um efeito colateral inconveniente do modelo de negócio; é um dos seus combustíveis mais eficientes.
A mentira tem uma cadeia de produção
Uma fake news não precisa sair de uma sala de comando centralizada para possuir interesses e divisão de trabalho. Em muitos casos, ela passa por uma cadeia dispersa: alguém cria uma peça rudimentar; outro perfil dá aparência de autenticidade; páginas maiores transformam o material em audiência; influenciadores o adaptam à linguagem de seus públicos; grupos de mensagens o fazem chegar à família, ao condomínio, à igreja, ao local de trabalho. No fim do percurso, a mensagem aparece para o destinatário como conversa íntima, recomendação de um conhecido ou descoberta espontânea. A operação política se disfarça de vínculo social.
Isso não elimina a existência de financiadores e estruturas profissionais. Campanhas de desinformação exigem tempo, infraestrutura, contas, bancos de imagens, edição, distribuição e, frequentemente, remuneração direta ou indireta. Mas mesmo quando não há pagamento identificável em cada etapa, existe lucro político: a construção de lideranças, a destruição da reputação de adversários, a criação de bases mobilizáveis e a normalização de soluções autoritárias. A extrema direita aprendeu a explorar essa economia afetiva com especial eficiência. Em vez de oferecer explicações para a crise, oferece culpados disponíveis: professores, artistas, jornalistas, movimentos sociais, populações pobres, migrantes, mulheres, pessoas LGBTQIA+ e qualquer figura que possa encarnar uma ameaça imaginária à ordem.
O bolsonarismo não inventou a mentira política, mas demonstrou no Brasil a força de uma propaganda que fala sem o constrangimento da prova. Sua eficácia não depende de convencer cada pessoa de cada falsidade. Basta produzir uma atmosfera em que nada seja verificável, toda instituição pareça suspeita e toda crítica seja tratada como perseguição. Quando a realidade comum é dissolvida, o chefe que grita mais alto pode se apresentar como a única voz autêntica. A desinformação, nesse sentido, não é apenas um instrumento eleitoral. É uma pedagogia fascista: ensina a multidão a desconfiar de qualquer mediação racional e a obedecer ao impulso coletivo.
O algoritmo não pergunta se é verdade
As grandes plataformas gostam de apresentar seus algoritmos como ferramentas técnicas, quase neutras, destinadas a conectar pessoas ao que lhes interessa. Essa neutralidade é uma ficção ideológica. Um sistema que seleciona, ordena e recomenda conteúdos segundo metas comerciais faz escolhas sociais, ainda que elas sejam inscritas em código. Se a finalidade é prolongar a permanência na tela e multiplicar interações, o algoritmo tende a favorecer aquilo que mobiliza afetos intensos. A mentira escandalosa, a suspeita moral, o medo de uma ameaça iminente e a humilhação pública de um inimigo despertam mais reação do que uma explicação cuidadosa sobre orçamento, direitos trabalhistas ou política pública.
Não se trata de dizer que toda pessoa que compartilha conteúdo falso é paga ou age de má-fé. Muitas compartilham porque acreditam, porque estão cansadas, porque encontraram naquela narrativa uma explicação simples para sofrimentos reais. O problema é que a plataforma transforma essa crença em dado, alcance e rentabilidade. Cada encaminhamento alimenta sistemas que aprendem qual temor deve ser intensificado e qual ressentimento pode ser explorado. A participação aparentemente gratuita do usuário é trabalho não remunerado: ele produz circulação, classificação e valor para empresas que concentram infraestrutura, informação e poder de decisão.
Aqui, a crítica de Marx à mercadoria ajuda a enxergar o que a linguagem tecnológica procura esconder. A relação social aparece como coisa: parece que “o algoritmo decidiu”, como se um mecanismo autônomo tivesse escolhido promover determinada falsidade. Mas o algoritmo é construído dentro de relações de propriedade e metas de negócio. Não há fatalidade técnica em transformar o feed numa máquina de excitação contínua. Há uma decisão empresarial de organizar a comunicação pública em torno da publicidade, da coleta de dados e da disputa pela atenção.
Da tela ao trabalho precarizado
A indústria da desinformação prospera porque encontra uma sociedade já ferida pela precarização. O entregador que passa horas entre pedidos, sem salário garantido e submetido à avaliação opaca do aplicativo, recebe no celular não apenas instruções de rota, mas uma torrente de conteúdos que promete explicar por que sua vida é tão difícil. Em lugar de apontar a empresa que retém parte decisiva do valor que ele produz, a narrativa reacionária oferece um inimigo mais próximo e mais fraco. O problema seria o pobre que recebe benefício, o imigrante, o professor “doutrinador”, o político abstratamente corrupto ou a suposta ameaça aos valores da família.
O mesmo vale para a trabalhadora de call center pressionada por metas inalcançáveis, monitorada em cada segundo e exposta a uma rotina de exaustão. Sua experiência concreta contém todos os elementos para uma crítica ao capitalismo: vigilância, produtividade compulsória, adoecimento e descartabilidade. Mas a desinformação reorganiza esse mal-estar. Em vez de transformar sofrimento em consciência de classe, oferece empreendedorismo imaginário, culto à meritocracia e raiva contra quem também está embaixo. A mentira é eficiente quando desloca a causa estrutural para um alvo conveniente.
Essa operação é alienante em sentido rigoroso. Alienação não significa apenas estar distraído ou ser enganado; significa viver relações que aparecem de forma invertida. O trabalhador vê sua exploração como incapacidade pessoal. Vê a empresa como oportunidade. Vê o desmonte de direitos como liberdade. Vê o adversário político como inimigo de sua sobrevivência, enquanto os proprietários das plataformas e os grandes interesses econômicos permanecem fora do enquadramento. A desinformação fabrica essa inversão todos os dias, com a velocidade de um feed.
O espetáculo substitui o julgamento
Guy Debord descreveu uma sociedade em que a experiência vivida é deslocada por representações que se autonomizam. Nas plataformas, essa lógica ganha uma escala íntima e incessante. O sujeito não apenas assiste ao espetáculo: ele o alimenta, comenta, replica e mede sua própria existência por ele. A política vira uma sequência de cenas curtas, frases de efeito, escândalos e identidades em guerra. O que importa não é compreender uma medida econômica ou disputar o sentido de um direito; importa vencer a rodada de visibilidade, humilhar o outro lado, tornar-se tendência.
É por isso que a checagem de fatos, embora necessária, é insuficiente. Ela atua sobre uma peça isolada, enquanto a indústria atua sobre a forma de percepção. Desmentir uma falsidade não desfaz automaticamente o laço afetivo que a tornou desejável. Muitas vezes, a correção é recebida como nova prova de conspiração, porque o circuito já treinou seu público a interpretar qualquer contestação como censura. A resposta não pode ser reduzir a política a uma guerra entre especialistas e ignorantes. É preciso disputar as condições materiais que tornam a mentira atraente e lucrativa.
Regular plataformas, dar transparência aos sistemas de recomendação, responsabilizar economicamente empresas que lucram com campanhas criminosas e proteger a comunicação pública são medidas necessárias. Mas nenhuma delas substitui a reconstrução de vínculos coletivos no trabalho, nos bairros, nas escolas e nos sindicatos. Onde a vida é reduzida ao isolamento competitivo, a multidão digital encontra terreno fértil para o medo. Onde há organização popular, a experiência pode ser compartilhada, comparada e transformada em ação comum.
A desinformação é uma indústria porque possui matéria-prima, meios de produção, trabalhadores visíveis e invisíveis, mercados e beneficiários. Sua matéria-prima são as frustrações produzidas por uma ordem desigual; seu meio de produção são as infraestruturas privadas de comunicação; seu produto é uma consciência fragmentada, hostil e disponível para a tutela autoritária. Combatê-la exige recusar a desculpa de que tudo se resume a pessoas que “não sabem se informar”. Elas vivem numa máquina desenhada para converter desorientação em lucro e ressentimento em poder. Nomear essa máquina é o começo de desmontá-la.
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