Antipetismo é uma forma de identificação política construída pela oposição ao Partido dos Trabalhadores, a Lula e ao que eles passaram a simbolizar no Brasil. Não se confunde com a crítica legítima a governos petistas, suas conciliações de classe, seus limites ou seus erros: ele opera quando a recusa ao PT se torna um princípio anterior aos fatos, um vínculo afetivo e moral que transforma qualquer medida, pessoa ou instituição associada ao partido em suspeita. Trata-se de uma identidade negativa, definida menos por um projeto próprio de país do que pela necessidade de derrotar um inimigo elevado à condição de explicação geral dos males nacionais.

Origem: crise da conciliação e disputa de classes

O PT chegou ao governo federal carregando uma história ligada ao sindicalismo, aos movimentos populares e à redemocratização. Mas seus governos também administraram o capitalismo brasileiro por meio de alianças com bancos, agronegócio, empreiteiras e partidos conservadores. Houve expansão de políticas sociais, valorização real do salário mínimo e ampliação do acesso ao consumo e à universidade, sem ruptura com a estrutura de concentração de renda, propriedade e poder.

Essa conciliação produziu contradições. Setores populares tiveram ganhos materiais e simbólicos, enquanto frações da classe dominante aceitaram governos petistas enquanto seus lucros e sua influência política estavam preservados. Quando a crise econômica e política se aprofundou, a aliança se rompeu. O ressentimento de parcelas das classes médias, o interesse de grupos empresariais e a ofensiva de forças conservadoras encontraram no antipetismo uma linguagem comum.

Escândalos de corrupção foram decisivos nesse processo, mas não explicam tudo por si mesmos. A corrupção foi apresentada como traço exclusivo do PT, embora a relação entre empresas, Estado, financiamento eleitoral e elites políticas seja estrutural e atravesse governos e partidos. A seletividade da indignação permitiu converter um problema sistêmico em narrativa moral: de um lado, cidadãos "de bem"; de outro, um partido identificado com roubo, desordem e ameaça à família, à religião e à propriedade.

Como o antipetismo opera

O antipetismo simplifica conflitos sociais complexos. Desemprego, serviços públicos precários, violência e inflação deixam de ser relacionados à dependência econômica, à desigualdade, à especulação financeira ou às decisões de sucessivos governos. Tudo pode ser atribuído ao PT, mesmo quando o partido não governa ou quando as causas são anteriores e mais amplas. Essa simplificação produz uma sensação confortável de entendimento: se há um culpado absoluto, bastaria eliminá-lo para que o país voltasse a funcionar.

Como ideologia, ele desloca a política do debate sobre interesses para o terreno da aversão moral. A pergunta deixa de ser quem ganha e quem perde com uma reforma trabalhista, com a privatização ou com o corte de verbas da educação. Passa a ser se a medida combate ou favorece o petismo. Assim, propostas que retiram direitos podem ser aceitas por trabalhadores desde que sejam apresentadas como antídoto contra a esquerda.

Esse mecanismo apareceu com força nas redes digitais. Correntes de mensagens, vídeos curtos, canais de opinião e perfis coordenados transformaram suspeitas em certezas e adversários em inimigos. A lógica das plataformas recompensa indignação, medo e humilhação pública; conteúdos que reduzem pessoas a rótulos circulam mais facilmente do que análises de classe. O antipetismo digital não criou o conflito, mas tornou sua reprodução cotidiana mais rápida, personalizada e lucrativa.

No Brasil de hoje: do antipetismo ao bolsonarismo

O bolsonarismo não é sinônimo de antipetismo, mas cresceu ao incorporá-lo e radicalizá-lo. Jair Bolsonaro ofereceu a uma parte do eleitorado uma saída autoritária para a crise: não apenas derrotar o PT nas urnas, mas tratar a esquerda como inimiga interna, associada a crime, corrupção, ameaça religiosa e destruição nacional. O antipetismo serviu, então, como ponte entre liberais favoráveis ao mercado, conservadores religiosos, segmentos militares, empresários e trabalhadores precarizados.

Para o entregador de aplicativo, submetido a jornadas extensas, remuneração instável e ausência de direitos, a identificação antipetista pode fornecer uma explicação pronta para uma precariedade que as plataformas produzem em escala global. Para a professora da rede pública, pressionada por salários baixos e falta de estrutura, ela pode aparecer em discursos que culpam a "doutrinação" em vez do desfinanciamento. No call center, onde metas e vigilância digital organizam o sofrimento cotidiano, ela pode converter a raiva contra a empresa em hostilidade contra uma caricatura da esquerda. Não se trata de chamar esses trabalhadores de ignorantes, mas de entender como uma ideologia captura mal-estar real e o dirige para alvos convenientes.

Crítica não é antipetismo

Uma crítica de esquerda ao PT é necessária justamente porque governos petistas mantiveram limites importantes: conciliação com elites econômicas, dependência do extrativismo, concessões ao mercado financeiro e incapacidade de alterar de forma duradoura a estrutura de poder. Apagar tais limites em nome de uma defesa incondicional do partido é tão pobre quanto atribuir ao PT toda a história do país.

A crítica anticapitalista, porém, recusa a fantasia de que a troca de um partido resolve uma sociedade fundada na exploração. Ela pergunta por que bancos seguem lucrando em crises, por que plataformas podem comandar o trabalho sem assumir responsabilidade trabalhista e por que a democracia é tão vulnerável ao poder econômico. O antipetismo evita essas perguntas porque precisa preservar o inimigo absoluto. Ao fazê-lo, pode se apresentar como revolta contra o sistema enquanto ajuda a blindar as estruturas que produzem desigualdade, alienação e precariedade.